Jornal dos Desportos

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Reportagens

Aventura pelos mares de Luanda

Sardinha Teixeira - 23 de Outubro, 2010

Descobrir onde os peixes estão é fundamental para um bom sucesso na pescaria

Fotografia: Sardinha Teixeira

Todos os cuidados eram poucos. Havia muita concentração, pouca conversa e maior preocupação em relação à pressão atmosférica, condição “sine qua non” para uma boa captura. Trimmm … trimmm … trimmm. Era assim que os telemóveis de alguns usuários volta e meia tocavam. De um lado da linha, os atrasados queriam saber que mais informações sobre o tempo havia. No outro, a resposta vinha quase sempre em jeito de gozo. “Venha p’ra cá só sorna, que está na hora da partida”.

Tio Victor, um pescador ligado à vida do mar desde a independência nacional, 12 dos quais à pesca recreativa e desportiva, bastante sereno explica-nos: “ Localizada a profundidade, podemos efectuar os arremessos nestes locais dependendo da espécie que se espera pescar”. Horas depois, toca o sinal de alarme, e os pescadores ocupam os seus lugares nas embarcações. Ligam-se os motores e partem de seguida para uma missão espinhosa que duraria cerca de nove horas.

Nós, estranhos ao “meio” íamo-nos contentando em ver a enorme porção de água que flutuava, atentos às primeiras picadas de alguns peixes. O local escolhido pela equipa da embarcação que viajávamos foi a Barra do Dande. A uma distância de 25 milhas da costa e com as águas a registarem uma temperatura de 26º C, durante a pesca apenas registou-se algumas picadas ao isco e nada mais. A pesca desportiva às vezes é imprevisível. Pode-se num dia de pescaria capturar muito peixe e exemplares diversos e no outro dia, no mesmo local, não se conseguir nada.

É uma actividade que exige muita paciência e observação, bem como um pouco de prática com o material e escolha correcta dos mesmos. A exemplo de todo o principiante em qualquer actividade, quem inicia com o desporto tem de partir do início. Local propício, tempo favorável, equipamento adequado, isca apropriada e habilidades manuais. Destes requisitos, apenas o tempo é imprevisível. Os outros são os truques da pesca. Descobrir onde os peixes estão é fundamental para um bom sucesso na pescaria. Deste modo, quem inicia na pesca deve ter em mente conceitos básicos sobre o mar, pelo menos dentro da faixa onde estão os seus anzóis.

É preponderante, conhecer a profundidade das águas e outros detalhes que fazem a diferença na hora da pesca.  Porém, a melhor época para a pesca abrange os meses mais quentes, entre Novembro e Março dependendo da região. No período de transição do calor para o frio ou vice-versa, correntes frias que vêm acompanhadas de vento Sul e mau tempo provocam o tal “ maré arruinada”, que inviabiliza as tentativas da pesca proveitosa. Uma variável meteorológica que influi muito no comportamento dos peixes é a pressão atmosférica. Um dia de mar calmo, sem vento, maré mansa, céu claro e muito Sol, com calor sufocante, não é bom momento para a pesca.

Os peixes que são bem mais sensíveis sentem melhor essas variações e descobrir onde os peixes estão é fundamental para um bom sucesso na pescaria. Deste modo, quem inicia na pesca deve ter em mente conceitos básicos sobre o mar, pelo menos dentro da faixa onde estão os seus anzóis, pois não se movimentam à procura de alimentos. Por isso, nessas condições até nos canais mais fundos só se encontram peixes pequenos. 

Peixe volta ao habitat

Tag & Realese (capturar, marcar e soltar os peixes com vida) é uma prática internacional especialmente dirigida para os peixes de bico e prata. Consiste em colocar um selo com identificação no peixe, retirar, se possível o anzol e devolve-lo com vida ao mar. Actualmente, os nossos pescadores utilizam anzóis ecológicos, que depois de algum tempo terem contacto com a água salgada, se desfazem. Essa prática foi instituída no nosso país na década de 90, com uma evolução bastante positiva. Porém, os regulamentos dos torneios para peixes de bico actualmente só atribuem bónus de pontuação a marlins a partir dos 250 kg e veleiros a partir dos 50 kg.

Os exemplares com menos peso, quando embarcados sofrem penalizações na pontuação de forma a diminuir o volume de capturas. Em alguns casos o peixe morre durante a luta e nessa altura, os pescadores são obrigados a embarcar o peixe para pesar, sofrendo as respectivas penalizações. Contentes ficam os trabalhadores dos clubes, que dividem o peixe entre si, para além de nos dias dos torneios aproveitarem para abastecer gratuitamente as suas casas com peixe fresco.

Veleiro: símbolo da cidade de Luanda

No mar, a pesca recreativa e desportiva é praticada entre a foz do rio Kwanza e do rio Dande, podendo estender-se, em algumas alturas da época, por influência das marés, temperaturas e nitidez das águas até 50 milhas. Neste caso as embarcações que a praticam e os seus comandantes têm de cumprir com o regulamento estipulado pelas capitanias. No rio, pelas suas características desportivas e hipótese de se baterem recordes, é fundamentalmente a foz do rio kwanza. Com efeito, este local tem sido vítima de situações de vandalismo por parte da pesca comercial, ao ponto de fecharem completamente com redes as duas margens do rio, pondo em risco o habitat.

Porém, na costa de lançamento, os pescadores elegeram como principais locais a zona das Palmeirinhas, Km 56, Barra do Kwanza, Cabo Ledo e outros locais onde é possível o acesso com uma viatura a todo o terreno. Em termos de volume de captura da pesca feita no mar, segundo registos oficiais do Clube Náutico da Ilha de Luanda, durante 10 anos a pesca recreativa e desportiva não teve grande significado. O peixe merlin começou a ser capturado no nosso país na década de 80 e a média anual de captura situa-se abaixo das 10 unidades por inexperiência dos pescadores, associada à falta de equipamentos. Já na década de 90 este número subiu para 30 unidades/ano. Entre 2002/2004 aumentou para uma média de 60 unidades/ano.

Quanto ao veleiro, símbolo da cidade de Luanda e muito capturado no passado pela pesca desportiva, no nosso país tem oito recordes do mundo absoluto e por classes de linha. O peixe-dourado aparece todos os anos entre Outubro e Novembro e deixam as nossas águas no mês de Maio. Depois em grandes quantidades retornam entre os meses de Janeiro e Abril. Normalmente é capturado em média 200 exemplar por ano. O seu peso médio situa-se nos 17 kilos.

Espécies são migratórias

Uma fonte do Instituto Nacional de Investigação Pesqueira, disse que, as espécies como o marlim, veleiro, dourado e prata, não estão em vias de extinção. O que acontece na realidade, é que os peixes da classe dos istiopharidae, istiopharus e markaira nigricans estão em migração constante à procura de alimentação. Tal comportamento deve-se ao facto de o seu “habitat” estender-se até ao Senegal e por isso é que há dificuldades em encontrar estas espécies. Recentemente foi pescado um veleiro, o que prova a continuidade da espécie nas nossas águas territoriais. Relativamente aos pescadores que se dedicam a pesca comercial, estes dificilmente conseguem pescar este tipo de peixe porque o mesmo é de difícil acesso, referiu a fonte.

Quanto à pesca frutífera que tem prejudicado a pesca desportiva, que normalmente é praticada na zona da Baía do Mussulo, a fonte acrescentou que este é um problema que realmente acontece diariamente. A lei em vigor proíbe a pesca com este tipo de material, cabendo a fiscalização tomar todas as medidas necessárias para combater estes males. De acordo com a fonte, ao Instituo Pesqueiro cabe a função de supervisionar os stocks existentes na nossa flora marinha, não registando de momento, escassez das espécies referenciadas.

Desporto gera empregos

A pesca recreativa e desportiva pode representar e ter para o erário público do país, desde que devidamente apoiada e regulamentada, uma grande importância económica, gerando empregos directos e indirectos no sector turístico e de serviços, à semelhança do que acontece em muitos países. O Quénia, na sua costa nordenha a partir de Mombaça na ilha de Pemba e as Ilhas Maurícias, desenvolveram uma indústria turística virada à pesca desportiva, com grande êxito, recebendo um grande afluxo de pescadores desportivos de todo o mundo.