Jornal dos Desportos

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Reportagens

Benguelenses preocupados com o andebol local

03 de Março, 2010

andebolístico em Benguela continua a merecer a atenção dos benguelenses

Fotografia: Jornal dos Desportos

O movimento andebolístico em Benguela continua a merecer a atenção dos benguelenses que falam mesmo de uma crise (não) declarada, antevendo situações mais graves, apesar de algumas pessoas afectas à Associação Provincial de Andebol (APAB) descartarem tal hipótese.

Há muito que Benguela deixou de ser potência no andebol nacional. O pior é que, cada ano que passa, vai sendo ultrapassada por outras províncias, antes menos cotados na cultura desportiva do país.

São os casos de Cabinda, Lunda-sul, Huambo, Huíla e Namibe, pois nos últimos anos estão a trabalhar bastante, dando mostras de que precisam de sair do marasmo em que se encontravam, enquanto durou a guerra do pós-eleitoral de 1992 e que culminou com a assinatura dos Acordos da Paz a 4 de Abril de 2002, em Luanda.

Todavia, foi exactamente nessa fase de instabilidade político-militar de que o andebol benguelense se notabilizou, proporcionando ao país grande número de praticantes e técnicos que com brio e tenacidade contribuíram para a ascensão da modalidade além fronteira. 

Quase metade dos bons executores da modalidade, entre estes técnicos, atletas e quadros administrativos que engrossaram as distintas selecções nacionais e principais clubes do país eram produtos de clubes de Benguela.

Actualmente, o quadro está completamente invertido, com fortes sinais de poder vir a piorar, caso se mantenha a letargia reinante na maior parte das agremiações desportivas locais que, de forma repetida, se queixam do fraco apoio que recebem das instituições empresariais e do governo da província, este que, através da Direcção Provincial da Juventude e Desportos local, tem dado mostras de alguma insensibilidade no que toca a apoiar os clubes e as associações desportivas.

Aliás, isso mesmo foi reconhecido pelo professor Pedro Garcia, director provincial da Juventude e Desportos, num encontro que manteve com os agentes desportivos locais. "Reconheço que falhámos, mas a culpa não deve ser atribuída somente à direcção da Juventude e Desportos", justificou.

Em face desta realidade, há quem sugere que se faça algo de realce, envolvendo todas as forças vivas na província (entendidas na matéria), no sentido de se estudarem formas que visam relançar o andebol em toda a sua magnitude.

O executivo de Armando da Cruz Neto, a classe empresarial, os clubes e a sociedade civil devem unir-se em torno da causa comum, que passa por resgatar a modalidade do estado menos bom em que se encontra.

Província quer resgatar
a mística perdida


A definição de políticas e estratégias a aplicar nos próximos dias é o mínimo que se pede dos governantes, empresários e agentes desportivos da província. O resto, caberá aos próprios executores do andebol, neste caso, os clubes e a associação provincial procurarem mecanismos para dar o seguimento do processo.

É bem verdade que a problemática financeira que grassa na maioria dos clubes pode ser determinante para a revolução que se quer na modalidade. Ainda assim, há quem defenda que se comesse da base, dando-lhe uma solidez forte no sentido de se encarar com o optimismo os próximos desafios, que passariam por recuperar a mística perdida há muitos anos para outras províncias.

"A ausência de dinheiro nos clubes não deve servir de desculpas para se justiçar a crise reinante no andebol em Benguela. É preciso que haja vontade e visão desportiva de homens que definem a política do desporto na província, pois o contrário, não passa de mera alucinação de quem pode decidir pela sorte da modalidade na província", comentou o professor de Educação Física, Figueiredo Tchikomo.

No entender do professor de Educação Física, os bons exemplos de Cabinda, Huambo, Huíla e Lunda-Sul deviam servir de inspiração para as entidades desportivas locais.

Afastado presidente da associação

A dissolução do executivo da Associação Provincial de Andebol (APAB) liderado pelo professor Martinho Miguel Armando, por alegado mau desempenho, trouxe a nu o que vai mal no seio daquela instituição desportiva.

Martinho Armando foi acusado de quase tudo: arrogante, prepotente, mau gestor e, inclusive, de centrista, perigando desta feita o futuro da modalidade na província. Muitos dos seus acusadores, estiveram na base do afastamento de Rui Martins de Abreu Leite, acusado pelos motivos.

Daí que muitos desses, consideram-no como a grande decepção.Em defesa a sua imagem, Martinho Armando acusara os seus antigos colaboradores de incompetentes para os cargos que lhes confiou. Por isso, defendia-se estar no direito de efectuar mudanças que lhe convinha para o bem da modalidade.
 
"Fui eleito pelos sócios (clubes filiados) em Assembleia-geral, logo caberia a eles decidirem pela minha destituição ou permanecia na direcção da associação. O contrário, jamais o farei, pois estaria a perigar o futuro da modalidade. Isto não vou admitir e nem os clubes aceitarão que tal aconteça ," dizia Martinho Armando.

Foram os próprios clubes que forçaram a realização da assembleia-geral, que sentenciou a destituição da direcção da Associação Provincial de Andebol de Benguela. Um acto que, no entender dos observadores locais, visou mais acabar com o protagonismo de Martinho Armando do que a mudança da própria direcção, se levarmos em consideração que todos os seus integrantes continuam a laborar normalmente.

Federação acusada
de ter influência na decisão


A decisão tomada pela massa associativa em afastar Martinho Armando do cargo de presidente da Associação Provincial de Andebol de Benguela foi mal digerida por este. Para Martinho, a sua saída é produto de uma cabala montada a partir da Federação Angolana de Andebol, que via na sua pessoa mais um obstáculo dada a sua frontalidade para questões inerentes a modalidade no país.

"Tenho informações precisas de que a atitude tomada contra a minha pessoa, tem a mão do actual presidente da federação que procurou vingar-se contra a associação que votou contra a sua lista. É um exercício que considero reprovável, mas temos de aceitar por que faz parte do jogo baixo de certa pessoas, cuja verdadeira faceta passamos a conhecer\", lembrara, na altura, Martinho Armando.

Curioso é que, apesar de gravíssima as acusações, a direcção da Federação Angolana de Andebol (FAA) continua calada, volvidos três meses. De recordar que aquando do afastamento de Rui Martins, este, de igual modo, acusara a direcção da federação de ter influenciado na sua saída.

Comissão de Gestão
já funciona


Com a destituição de Martinho Armando, em assembleia-geral extraordinária, presidida pelo professor Lino Passassi, ficou decidido que Maria Assumpta Manjenje, vice-presidente para os Assuntos Administrativos e Finanças da destituída Associação de Andebol de Benguela, passasse a coordenar a Comissão de Gestão, num prazo de seis meses.

Durante este período de trabalho a referida comissão terá a missão de congregar a família do andebol, desagregada por altura da gestão da antiga direcção. É um processo que se afigura complexo, dado o grau de descontentamento que tomou conta a muito boa gente ligada à modalidade.

Sobre a nova direcção a ser eleita, nos próximos tempos, soubemos que, a nível interno, está ser criada, uma lista de consenso que vai pactuar na lisura e concordância em acções candentes referentes a modalidade.

"Andebol benguelense nunca
esteve mergulhada em crise"


O professor João Feliciano Ricardo, responsável para área técnica da Associação Provincial de Andebol, assegurou que o andebol em Benguela em momento algum esteve mergulhado em crise, tal como é ventilado nalguns círculos da sociedade desportiva local e do país.

"Reconheço que o andebol benguelense esteja a atravessar momentos menos bons. Isto não significa que está mal, pelo contrário. Portanto, uma coisa são os resultados das nossas equipas em campo e outra são os trabalhos que se desenvolvem a nível dos clubes", precisou João Ricardo, quadro sénior do andebol benguelense.

O também seleccionador nacional de cadetes femininos reconhece que os clubes em Benguela poderiam fazer mais e melhor no sentido de manterem a modalidade nos níveis que lhes são exigidos, dado ao potencial socio-económico que a província possui.
O facto de a província ter uma equipa sénior feminina (Eléctro do Lobito) mereceu uma apreciação cuidada de João Ricardo que assegurou estar em marcha um programa junto das instâncias competentes da província, no sentido de se inverter o quadro.

"Esta preocupação deve ser de todos; clubes, empresários, associação e o próprio governo provincial, este que é responsável pela definição da política desportiva na província", realçou.Para João Ricardo, a estratégia do governo local deve assentar na formação dos técnicos e na superação de outros quadros ligados à matéria do treinamento desportivo (no caso o andebol), dada as debilidades técnicas e profissionais que muito deles apresentam na altura da aplicarem os seus conhecimentos.
 
"Apesar de apresentarem resultados nas distintas categorias, muitos técnicos carecem de uma formação técnicoprofissional adequada, já que nos dias que correm o empirismo não funciona tanto. O andebol é uma ciência, logo não se deve compadecer com improvisos", lembrou o técnico, acrescentando que há que se "municiar" os treinadores e monitores com os conhecimentos científicos.

Não obstante reconhecer que o processo em causa envolva custos avultados em dinheiro, João Ricardo insiste que alguma coisa deve ser feita neste sentido, a menos que se conforme com a mediocridade que se verifica na formação dos atletas nalguns clubes da província.
 
"Reconhecemos que os clubes vivem sérias dificuldades financeiras, mas não é por isso que devemos ficar de braços cruzados. O governo, através da Direcção Provincial da Juventude e Desportos, deve apoiar, promovendo cursos de níveis 1 e 2 (pelo menos) para os técnicos e alguns "clincs" a monitores.

A nível local podemos fazer isto, pois existem homens experimentados e que podem dirigir os referidos cursos aos nossos técnicos. É só uma questão de vontade e consideração pelos quadros locais", diz. Desde sempre a província de Benguela foi, a par de Luanda, considerada como o principal centro do desenvolvimento desportivo. Nesta parcela do território angolano pontificaram técnicos, atletas e dirigentes desportivos que com brio exercem o seu "know-how" nas distintas áreas do desporto nacional, estando o andebol entre as grandes referências.