Jornal dos Desportos

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Reportagens

Best o Bola de Ouro da France Football

06 de Junho, 2011

Em criança era fanático pelo futebol.

Fotografia: AFP

Nasceu na capital da Irlanda do Norte, logo após o fim da II Guerra Mundial. Era tão fanático por futebol quando criança, que dormia com uma bola na cama. Aos 15 anos, foi treinar no Manchester United, descoberto por um olheiro do clube que o viu actuar por um clube amador de Belfast, os Cregagh Boys. Em 1963, estreou como profissional. O clube ainda vivia no luto causado pela morte, em acidente aéreo, de alguns integrantes da jovem e brilhante equipa que encantara o futebol inglês nos anos 1950, os Busby Babies, os “bebés” do técnico Matt Busby, um dos sobreviventes do desastre.

Tendo continuado no comando do clube, Busby aprova a contratação do génio anunciado. Na sua primeira temporada, Best participou no título da FA Cup Auge. Não demorou a explodir: driblador, provocador e dono de um talento irrepreensível dentro de campo, o que lhe rendeu comparações a  Garrincha, formou um lendário trio com o inglês Bobby Charlton (outro sobrevivente) e o escocês Denis Law.
Com eles, foi campeão inglês em 1965, o sexto título da história do clube no campeonato. Credenciado para a Taça dos Campeões

Europeus da UEFA de 1966, o United jogou nos quartos de final com o forte Benfica de Eusébio, Coluna e José Torres, clube cuja equipa base foi bicampeã do torneio em 1961 e 1962. Após vitória apertada por 3 x 2 em Old Trafford, Busby determinou cautela e estudo do adversário nos primeiros 15 minutos da partida em Lisboa. Best desobedeceu e em 12 minutos já tinha marcado duas vezes. Os Red Devils fariam 5 x 1 (com ele marcando um terceiro golo) em pleno Estádio da Luz.

O apelido ganhou força de qualquer forma, e também devido à vida de Best fora de campo, onde era frequentemente visto com belas mulheres e carros de último modelo, despertava histeria nas adolescentes com os seus cabelos longos e esvoaçantes e o seu rosto de galã de cinema, metendo-se em altas festas. Tal comportamento boémio levou-o ao alcoolismo, que acabou com a sua carreira. Com certa frequência não comparecia aos treinos, o que o fez levar inúmeras multas e suspensões.

Ainda assim, a sua capacidade devastadora de furar defesas e o seu grande carisma esgotavam a imaginação da imprensa europeia, que a cada nova grande exibição procurava um novo adjectivo para qualificá-lo. Após voltar de uma de suas suspensões, que durou 28 dias, marcou os seis golos da vitória por 8 x 2 sobre o Northampton. Em 1967, veio novo título inglês. O “tri” quase veio em 1968: Best terminou o campeonato como artilheiro com 28 golos, mas a conquista ficou com o rival Manchester City por dois pontos de diferença. Paralelamente, em nova oportunidade na Taça dos Campeões Europeus, o United encarou outra vez o Benfica, desta vez na final, disputada no mítico Wembley.

Best marcou o terceiro golo na vitória por 4 x 1 driblando toda a defesa adversária, fazendo do United o primeiro inglês a vencer o mais importante troféu europeu de clubes. Ao final daquela arrasadora temporada, recebeu a Bola de Ouro da France Football como o melhor jogador europeu do ano. É até hoje o único de todos os irlandeses agraciados com o prémio. No clube que aprendeu a amar, marcou 178 golos em 466 jogos, tendo sido artilheiro do clube em seis temporadas seguidas.

Anos da decadência
Cada vez mais explorado nas colunas sociais, o seu rendimento em campo começou a cair justamente logo após o auge de sua consagração. O United, que perdeu o Mundial de Interclubes de 1968 para o Estudiantes de La Plata (Best chegou a ser expulso no jogo em Old Trafford) não conseguia mais troféus. Matt Busby, um dos poucos no clube a aturar o temperamento de Best, saiu de vez em 1971, após ter chegado a deixar o cargo em 1969. Não ajudavam as suas aparições nos tablóides ingleses.

Tinha a vida cada vez mais questionada em cada detalhe pela imprensa, que o tratava como celebridade tal como a um músico ou um diplomata. “Eu sou o cara que levou o futebol das páginas internas para a capa dos jornais”, disse Best. Aos 27 anos, saiu do Manchester United. Esteve emprestado ao insignificante Dunstable Town. No ano seguinte, foi para o não muito maior Stockport County. Na época, convivia com ameaças dos terroristas do IRA por ser protestante.

O fim de uma estrela
Casado duas vezes e com quatro filhos, dois dos quais não reconheceu como dele, Best em 1990 apareceu na BBC embriagado num debate em directo. Em 2002, teve de receber um transplante de fígado, destruído pela cirrose, voltando a beber logo no ano seguinte. No dia 3 de Outubro de 2005, foi internado de urgência no Hospital Cromwell de Londres com problemas nos rins. Os seus últimos dias foram no hospital, ao lado da família e do amigo Denis Law. Aos pés da cama, uma carta com a seguinte assinatura: “do segundo melhor jogador de todos os tempos, Pele”.

Sobre ela, Best disparou: “este foi o último brinde da minha vida”. No dia 20 de Novembro, teve o seu último gesto de nobreza: deixou-se fotografar no seu estado lamentável no quarto do hospital, com a mensagem: “não morram como eu”. Faleceu cinco dias depois, com múltipla falência dos órgãos. Homenageado por multidões e políticos como grande estrela, foi enterrado com 59 anos ao lado da mãe na sua Belfast natal.