Jornal dos Desportos

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Reportagens

Bié quer estar no topo no prazo de três anos

José Chaves - 26 de Março, 2010

Carlos dos Reis, presidente da Associação de Basquetebol do Bié

Fotografia: José Chaves

Que avaliação faz do estado do basquetebol no Bié?
O basquetebol no Bié está a ganhar força. Apesar disso, existem várias dificuldades no seio dos clubes, algumas limitações que, à semelhança do mandato anterior, passam pela falta de material para a massificação e para a competição. Esse é um dos grandes "calcanhar de Aquiles" para o desenvolvimento e extensão da modalidade na província. É preciso revitalizar o basquetebol junto dos clubes locais, principalmente os chamados tradicionais.

Há muito trabalho pela frente...
Obviamente, que a Associação de basquetebol local tem muito trabalho pela frente e um longo caminho a percorrer. Vamos unir forças entre os associados, pedir apoio ao Governo Provincial e à Federação Angolana de Basquetebol (FAB) para materializar os nossos projectos e, por via disso, desenvolvermos a modalidade na província.

Na década de 80, o Bié era considerado o "celeiro"do basquetebol feminino no país. Que horizonte temporal estipula para reconquistar esse estatuto?
O Bié vai resgatar a mística que teve no basquetebol angolano, dentro de três anos. Estamos a trabalhar para que a província atinja o patamar desejado. Vamos recuperar o tempo perdido. Estamos a trabalhar na massificação, em ambas as classes. Em relação ao basquetebol feminino, penso que vamos voltar a ser o "celeiro"da modalidade. Actualmente, essa classe está em decadência, mas o Bié está apostado em reactivá-la. Queremos ser o "baluarte" do basquetebol feminino em Angola. O basquetebol na província passou por uma fase bastante difícil, devido à guerra que assolou o país e o Bié, em particular. Basta dizer que as infra-estruturas foram destruídas e vários jogadores e treinadores tiveram de abandonar a província, à procura de melhores condições de vida e de segurança, como é óbvio. Mas esse cenário está a mudar para melhor.

Infra-estruturas
desportivas são suficientes


Como está o Bié em termos de infra-estruturas desportivas ligadas ao basquetebol?
Felizmente, em termos de infra-estruturas desportivas, está bem. Temos o Pavilhão Gimnodesportivo do Sporting Clube do Bié, que foi recuperado e apetrechado no ano passado. O Vitória Atlético ganhou também um pavilhão, no mesmo ano, assim como alguns municípios do interior, no âmbito do Programa de Investimentos Públicos (PIP) que o Governo do local está a implementar. Todas as quadras proporcionam condições adequadas à prática da modalidade. Ao todo, temos 20 campos. A única preocupação desses recintos prende-se com o reduzido número de tabelas. Fora disso, não temos razões para queixa. Os recintos estão a facilitar a prática desportiva no seio dos jovens da província.

A falta de tabelas está, com certeza, a dificultar a aprendizagem da bola ao cesto...
Claro que está, e de que maneira. A maioria das quadras está sem tabelas. Vamos pedir apoio às entidades de direito para nos ajudarem no sentido de adquirirmos alguns pares de tabelas. Gostaria de abrir aqui um parêntese para dizer que é necessário educar a nossa população a preservar o património público. Em alguns campos polivalentes, construídos pelo governo, havia tabelas, mas, infelizmente, as mesmas foram destruídas, o que nos deixa bastante tristes.

Há vários anos que o Bié não realiza um campeonato provincial da modalidade. Para quando teremos uma prova do género?
Este ano, vamos realizar o Campeonato Provincial de Juvenis, em ambos os sexos. No próximo mês, está programado o torneio de abertura. Pretendemos realizar uma prova em que participem os seis clubes da província que têm o basquetebol, incluindo as dos municípios do Andulo e de Kamacupa.

Hegemonia na modalidade é a meta 

Qual a principal meta da Associação de Basquetebol do Bié?
Pretendemos quebrar a hegemonia de Luanda no que toca ao desenvolvimento do basquetebol feminino. Para que tal desiderato seja atingido, está na forja um mega projecto de formação de jogadoras, com idades compreendidas entre os 9 e os 14 anos. Vamos tornar o Bié num pólo de desenvolvimento do basquetebol angolano. Acredito que temos condições humanas para conseguir esse objectivo. O projecto pretende formar, nos próximos quatros anos, cerca de 200 atletas. Neste momento, temos 45 meninas, mas acredito que, nos próximos dias, o número venha a aumentar.

Em suma, quais são as linhas de força do seu elenco para este mandato?
Temos vários projectos em carteira. O primeiro é revitalizar a modalidade no seio dos clubes. Em segundo lugar, queremos implementar a massificação, levar o basquetebol ao interior da província. Esse é um processo bastante difícil, mas não impossível.

Quantos clubes a Associação controla?
Actualmente, controlamos seis clubes, designadamente o Sporting Clube Petróleos do Bié, o Vitória Atlético Clube, o Benfica do Kunje, Benfica do Andulo e uma equipa que pertence ao Instituto Médio Agrário, também do município do Andulo. Ainda este mês, vamos abrir um núcleo no município de Kamacupa, para o qual contamos com o apoio da Direcção Provincial da Agricultura. É nossa intenção aumentar o número de clubes na província que tenham a modalidade no seu seio.

Nesta altura, quantos atletas praticam basquetebol na província?
Aproximadamente 150 atletas. Destes, 20 são seniores femininos e o restante são iniciados.

E quanto aos treinadores ou monitores?
De momento, a nossa Associação tem inscritos 32 treinadores, na sua maioria monitores.

O Sporting Clube Petróleos do Bié abriu recentemente uma escola de formação de basquetebol. O que diz sobre a mesma?
O coordenador da escola de formação de basquetebolistas do Sporting é o treinador adjunto da Selecção Nacional Masculina de Sub-19, o senhor Príncipe Eduardo.

Quantos atletas estão engajados no projecto?
O projecto contempla 75 crianças, sendo 45 meninas e 30 meninos.

A província albergou, em 2008, os IV Jogos Nacionais Escolares. Que benefícios o basquetebol obteve com o evento?
Ganhou bastante com a realização, no Kuito, dos Jogos Nacionais Escolares. Foram reconstruídas e construídas várias infra-estruturas desportivas e as equipas da província conseguiram posicionar-se nos lugares cimeiros.

Voltando ao projecto de massificação, quando é que outros clubes da província vão aderir ao projecto que a Associação implementa?
Pretendemos que o projecto comece pequeno, mas seguro. Neste momento, o Sporting Clube do Bié abriu uma escola de basquetebol e nós, como Associação, estamos a apoiá-lo. Assim que tivermos condições, vamos ajudar, logicamente, outras agremiações, pois o futuro do basquetebol bieno passa pela intervenção do Estado.

Falta de dinheiro
dificulta o trabalho


Quais são as grandes dificuldades por que a associação passa?
Os problemas financeiros têm sido a nossa grande dificuldade, sem sombra de dúvidas. A nossa instituição não tem recursos para apoiar os filiados, o que tem dificultado muito o nosso trabalho.

O que diz sobre o facto de os clubes se queixarem da falta de dinheiro?
Não é fácil, mas continuamos nessa batalha. Tenho fé que vamos alcançar o nosso objectivo, que passa por contribuir para a melhoria do basquetebol. É bem verdade que os clubes sozinhos não podem fazer muito, pois não têm dinheiro para desenvolver o desporto de alto rendimento. Por isso, defendo que o Estado dê uma mãozinha, apoiando material e moralmente os clubes federados. Está provado que sem essa ajuda, o desporto, e concretamente o basquetebol, não progride e pode cair numa situação muito mais complicada.

Acredita que é ai onde está o mal do basquetebol local?
Não é bem assim, mas uma coisa deve ser reconhecida: o Estado joga um papel preponderante. A maioria dos clubes angolanos sobrevive com a ajuda do Estado, ou seja, o dinheiro que suporta as despesas é proveniente do Orçamento Geral do Estado.

Mesmo com essas vicissitudes, o basquetebol aqui não para...
Parar é como acabar com uma parte daquilo que identifica a nossa cultura. O Bié é uma província tradicional nesta modalidade. Aliás, cair nessa possibilidade é como que tentar, de forma absurda, apagar parte da história.