Jornal dos Desportos

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Reportagens

Bloqueio furado

Gaudêncio Hamelay, no Lubango - 05 de Novembro, 2014

“Somos para o voleibol e do voleibol”. António Quilala promete “nunca desistir, porquanto foi um percalço que surgiu durante a actividade desportiva”.

Fotografia: Kindala Manuel

De olhar altivo, António Quilala assume pertencer a uma geração que viveu bons momentos de voleibol da Huíla. Naquela altura, a “saúde desportiva” era satisfatória. Os clubes expandiam-se pela cidade de Lubango e nos campeonatos locais e outros torneios a disputa era ferrenha. A dedicação dos atletas aliada à persistência dos treinadores que não mediam sacrifício davam um colorido especial ao voleibol.

Hoje, as histórias têm outras narrações. Com ou sem predicado, os campos estão vazios. Há falta de atletas, treinadores e principalmente de clubes. Estes últimos emigraram para outros continentes. “Nem os encontramos em Angola”, remata o vice-presidente do Conselho Técnico da Associação de Voleibol da Huíla, António Quilala.

Com a falta de clubes, o voleibol atravessa o pior momento na Huíla. Perdeu o estatuto entre os desportos de elite da cidade de Lubango. A situação agrava-se com a falta de patrocinadores que amam o voleibol. Também evaporaram com a geração dos antigos praticantes. Para salvaguardar a existência da modalidade, alguns carolas espalhados pela cidade criam entretimentos e, em cada campo de uma escola, o bolar voa alto aos fins de semana. Com ou sem técnica, a emoção responde a cada ataque. É o “nosso” voleibol.

A realidade é diferente. De ontem. Hoje, rostos de uma geração sofrida procura erguer a modalidade. Entre o desejo e a realidade, a fronteira é ténue. Tão ténue que hospeda a esperança de grandes bolares. Um programa de massificação está em curso. Orientado pela Associação Provincial de Voleibol, a Huíla forma adolescentes e crianças. A prática do voleibol chegou às escolas públicas e privadas. Felizmente. Uma luz brilha para além do horizonte.

A estratégia está a resultar. Crianças e adolescentes são absorvidos pelo voleibol e centenas já se libertaram das acções nocivas. A ocupação dos tempos livres melhorou relacionamentos entre pais e filhos em centenas de famílias da cidade. Depois das aulas, a preocupação é o treino. Uma actividade encarada com responsabilidade.

Em diferentes programas, as crianças e adolescentes buscam o sonho de jogar também nos Jogos Olímpicos e representar o país. Em cada menino, o nome Morais/Manucho é um só: “Foram os primeiros angolanos a jogar o voleibol de praia em Beijing”. Hoje, a dupla Morais/Manucho é uma referência nacional, especialmente, na Huíla. As crianças que adoptaram o voleibol de praia têm-nos como ídolos. Não há outra escolha. “Queremos ser como eles”, dizem.

Mas o sonho das crianças pode morrer antes de chegar ao pico de Nossa Senhora do Monte. A caminhada implica solidariedade. Um abraço. Um carinho. Um beijo. Mas no “nosso” tempo não há quem, os vai dar. A entidade promotora e fomentadora do programa vê-se à braços com dificuldades. A Associação Provincial de Voleibol da Huila não dispõe de meios para persuadir os clubes a absorver as crianças em formação em diferentes programas de massificação.

Perante o imbróglio, a Associação clama aos empresários a unirem esforços para constituírem clubes. Os actuais não estão interessados a acolher o voleibol. Por desprezo, talvez. “No quadro do novo Regime Jurídico das Associações Desportivas e da Lei Nacional dos Desportos, o futuro de muitas empresas vai passar pela aquisição ou patrocínio de clubes. Esta é uma realidade e quem for a primeira vai estar à frente das outras”, alertou António Quilala.

O responsável assegurou que a luta para patrocinar clubes em países como o Brasil, por exemplo, uma potência de voleibol mundial, “é muito grande”. Angola caminha para o mesmo destino e algumas instituições e empresas que patrocinam o 1º de Agosto, Petro de Luanda, Progresso Sambizanga e Bangú FC já alinham as directrizes para o futuro. São visionárias. Só as empresas e clubes da Huíla continuam na “hibernação”. Os tempos mudaram e novos ventos sopram do antárctico.

EQUIPA
Benfica do Lubango
é a única agremiação

A graça do voleibol na Huíla é vista no Benfica do Lubango. A equipa encarnada das terras da Chela projecta voos altos. Está na dianteira. Em pouco menos de dois anos, possui duas equipas seniores (masculina e feminina) para além dos escalões de formação. É o único clube da Huíla com modalidade de voleibol incluída no leque das prioridades.

Para satisfazer a vontade dos aficcionados, a Associação Provincial da Huíla procura incentivar a criação de núcleos em diferentes bairros, no quadro da promoção e desenvolvimento da modalidade. Os Amigos do Voleibol e os Galácticos são dois outros “clubes” seniores, espalhados nos bairros periféricos da cidade de Lubango.

“Infelizmente, nesse escalão, não temos mais equipas”, diz António Quilala  Com mágoa à vista, o responsável assegura que a situação era diferente se os clubes locais tivessem inserido o voleibol nas suas agremiações. “Temos muitos atletas na escola de formação, que podem tornar a Huíla numa potência nacional e/ou mesmo na região austral”, afirma António Quilala. O programa de massificação da Associação Provincial da Huíla congrega 107 atletas, em todos os escalões masculino e feminino. O grosso de atletas pertencem às escolas públicas e privadas.

GRANDES HERÓIS
Carolas do Lubango
promovem desporto

A movimentação de voleibol na Huíla é fruto da abnegação e dedicação de muitos “carolas”. Sem condições materiais, cada um procura congregar o maior número de amigos para a prática de voleibol. Esse exercício exige enfrentar dificuldades mil: sol ardente, chuva, fome, cansaço e insónia. Mas o desejo e gosto pelo voleibol vencem as intempéries. A cada manhã, um novo sorriso nos lábios e um sonho a realizar. Esta batalha torna os carolas, pessoas especiais: “heróis”.

Assim descreve António Quilala, um jovem como outros que não medem esforços para elevar o voleibol entre as modalidades de elite do país. A não realização do campeonato nacional na Huíla deixou “o grupo triste”, mas não desmotivado. Uma razão simples destapa do alto: “Somos para o voleibol e do voleibol”. António Quilala promete “nunca desistir, porquanto foi um percalço que surgiu durante a actividade desportiva”.
GAUDÊNCIO HAMELAY | LUBANGO