Jornal dos Desportos

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Reportagens

Boxe cabindense está ao abandono

10 de Novembro, 2009

boxe atravessa momentos difíceis na província de Cabinda

Fotografia: Jornal dos Desportos

O boxe cabindense já foi a grande potência no país, numa época em que os atletas Gregório Capita, Simão Muanda, Panda Lukundi, Ilanga Jesus e Marcelino eram os “donos” dos ringues. Eles constituíram uma nata de jovens que contribuíram significativamente para o seu desenvolvimento salutar; ergueram a bandeira da República de Angola em vários campeonatos africanos ao conquistarem medalhas de ouro e elevaram ‘bem alto’ o nome do país nos quatros cantos do continente e do mundo.
Passado aquela geração, hoje, o boxe nas terras férteis de Mayombe está a atravessar momentos difíceis para o seu reaparecimento na arena nacional. Com vista a constatar os males que enfermam o boxe na província mais ao Norte de Angola, Cabinda, uma equipa de reportagem do Jornal dos Desportos, efectuou uma ronda pelas periferias da cidade, onde dialogou com o coordenador provincial, Nelson Venâncio, que dá todo o seu máximo para manter viva a pratica de boxe na região. Para o dirigente, o estado actual da modalidade na região, em termos técnicos, está saudável, mas, em termos de equipamentos, está mal. Os espaços de treinamento não possuem condições adequadas para trabalhar, em prol do desenvolvimento da modalidade.
“Trabalhamos em ambientes abertos e com condições péssimas; sem apoio algum e temos feito grandes esforços para reunir os pugilistas. Mesmo com imensas dificuldades, temos tido resultados satisfatórios nas provas nacionais. Não temos um ginásio para a prática da modalidade e treinamos num local impróprio que não favorece condições para o desenvolvimento do boxe. Treinamos no areal, no meio de casas e com casas de banho ao arredor. No entanto, é difícil desenvolver o boxe nesta situação”, lamentou.
Apesar das dificuldades financeiras e de material desportivo que atravessam, a coordenação provincial da modalidade tem um controlo de 135 jovens com idades compreendidas entre os 16 e 36 anos; são jovens dedicados na aprendizagem do ABC do pugilismo nos núcleos do município do Buco-Zau, da Praia, do Povo Grande e do Gika, que não beneficiam de apoios das autoridades competentes para o desenvolvimento das suas capacidades técnicas e físicas.
De acordo com Nelson Venâncio, a sua instituição motiva e incentiva os atletas através dos empréstimos que têm feito aos kinguilas amantes da modalidade e ao trabalho árduo das equipas técnicas que trabalham com a coordenação local na manutenção dos mesmos nos núcleos.
Outra situação, que enfraquece o boxe na região, tem a ver com a ausência de boxe nos principais clubes da região, nomeadamente, FC de Cabinda, Sporting Clube e Benfica local para a sustentabilidade dos atletas.
“Tivemos atletas no Sporting de Cabinda, mas o clube extinguiu o boxe, alegando a falta de verbas. Para que não morresse, tivemos de trabalhar com alguns ex-atletas, integrando-os nas equipas técnicas e na coordenação de vários núcleos. Isso fez com que tenhamos as chamas acesas do boxe”, referiu.
Atendendo as vitórias que o país beneficiou dos atletas de Cabinda, a nível nacional e internacional, Nelson Venâncio sublinhou que o boxe na região deveria ter uma atenção especial por parte das autoridades locais e do Ministério da Juventude e Desportos.
Dos 13 títulos, que o país ostenta nos Campeonatos Africanos da Zona 6 do Conselho Superior dos Desportos em África, dez foram conquistados pelos atletas de Cabinda.
No campeonato nacional realizado na província da Huíla, Cabinda participou com quatro atletas e quedou-se na terceira posição da classificação final. É um feito igual ao da equipa da Roménia que participou no Campeonato Mundial de júnior de 1988, em Cuba, em que havia levado quatro atletas e conseguiu pôr três nas finais. Com a equipa de Cabinda aconteceu o mesmo. “Levamos quatro e três foram apurados para as finais. Isso prova o quanto estamos bem nas questões técnicas, apesar de estarmos mal nas condições materiais”, referiu.

Criação da Associação
está fora de hipótese


Um outro problema, que também enferma o boxe, em Cabinda, é a falta de uma Associação Provincial que pudesse dar outro impulso de desenvolvimento à modalidade. De acordo com o Nelson Venâncio, toda a documentação para a criação de uma associação local foi preparada para o efeito, mas a Secretaria Provincial da Juventude e Desportos impediu a criação da mesma de forma isolada, tendo orientado a sua inclusão na Associação Provincial dos Desportos de Combate.
Segundo Nelson Venâncio, devido ao veto, a coordenação de boxe está a depender de outras modalidades que ainda não responderam o convite para a constituição da Associação dos Desportos de Combate, uma pretensão da Secretaria Provincial da Juventude e dos Desportos.
A vigência do Núcleo Provincial de Boxe já terminou e está sem poderes para dirigir os destinos da modalidade. “Os núcleos são temporários; têm seis meses de prazo. Estamos a Deus dará, sem destino e não sabemos a quem recorrer. Trabalhamos directamente com a Secretaria Provincial da Juventude e Desportos que, muitas das vezes, não satisfaz os nossos pedidos. Só para irmos ao Campeonato Nacional, tivemos de pedir dinheiro emprestado a um kinguila (cambista de rua) e os juros estão a crescer. A Secretaria Provincial da Juventude e Desportos alega não ter dinheiro para que possamos devolver ao credor e não sei o que será de nós com esta dívida”, expôs.
O dirigente assegura que “com uma associação criada contribuiria muito para o desenvolvimento do boxe; angariar-se-ia patrocínios para a aquisição de materiais desportivos”.
Venâncio reconhece o contrapeso na constituição da Associação. “Sem clubes não estariam a fazer nada para o bem do desporto dos ‘punhos’, porque uma Associação depende deles e para que as agremiações compitam, precisam de estar filiadas nela”, afirma.
A via da solução está encaminhada. “Já escrevemos para os três grandes clubes da província: FC de Cabinda, Sporting Clube e o Benfica. Queremos que tenham o boxe nas suas agremiações, mas continuam em silêncio, o que é difícil para nós”, frisou.

Ringues sabotados

Com vista a relançar o boxe, o Governo da Província de Cabinda adquiriu dois ringues e equipamentos na África do Sul, para permitir a prática sem sobressaltos aos 136 atletas distribuídos em vários núcleos, sob o controlo da coordenação provincial. O apoio das autoridades locais agradou os dirigentes, atletas e os amantes do boxe, que louvaram o esforço do Governo para o seu crescimento na região. Há muito tempo, os aficionados estavam à espera desses materiais, mas a alegria durou pouco. Os ringues foram sabotados por pessoas desconhecidos que não gostam do boxe.
“Tivemos a oportunidade de usá-los, mas é um caso lamentável. O Governo importou dois ringues que, agora, estão moribundos. Temos 50 por cento dos ringues, porque foram sabotados”, disse Nelson Venâncio.
O coordenador Provincial de Boxe assegura que “foi bem-vindo para todos os amantes do boxe, porque há muito tempo esperávamos pelo apoio. É de louvar o esforço do Governador da Província de Cabinda, José Aníbal Rocha, pelo material adquirido para o desenvolvimento do boxe”.
Venâncio esclarece que “toda a cobertura dos ringues foi roubada, restando apenas a estrutura, o que torna difícil a concretização dos objectivos definidos pelos atletas da região nas competições que se avizinham.

Dirigentes querem apoio dos empresários locais

O boxe na província de Cabinda não beneficia de apoios das autoridades competentes da região para o seu crescimento salutar. Apenas tem alguns patrocínios de pessoas singulares como o do ex-atleta Simão Muanda, hoje dirigente do Time Elite, que o ajuda com equipamentos.  Segundo Nelson Venâncio, o material que a equipa de Cabinda usou no Campeonato Nacional decorrido na província da Huíla foi doado pelo pugilista Simão Muanda.
“Quando realizámos o campeonato provincial, Simão Muanda patrocinou os troféus e a coordenação financiou as medalhas Isso permitiu a realização com êxito da prova”, referiu.
O homem forte do boxe exaltou que “Cabinda foi a única província do país que realizou dois torneios: o de abertura e o campeonato provincial. Nenhuma outra província conseguiu fazer isso. Fruto disso, recebemos elogios da Federação Angolana de Boxe pelo esforço que fazemos para o bem da modalidade”.
Quanto aos apoios da Federação, Venâncio afirmou que recebem “poucos” para o desenvolvimento do boxe. “Apenas dois pares de luvas, um saco, duas cordas e alguns equipamentos simbólicos”, enumerou.
Nelson Venâncio acusa o empresariado local de ser “muito fechado”. Aconselha-o a abrir para o mercado nacional através de Marketing e o boxe oferece condições para o efeito.
Por falta de apoios ao boxe, a coordenação provincial receia pedir patrocínios a várias entidades locais para a realização de um torneio, em Dezembro próximo, no qual pretendem convidar o Interclube para testar os atletas cabindenses que vão competir no Campeonato Nacional, que a província almeja a acolher em 2010.