Jornal dos Desportos

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Reportagens

Campo do Areias pode desaparecer

Avelino Umba - 23 de Abril, 2015

O recinto sobrevivente, pois o nico que acolhia a maior parte de jogos no Cariango

Fotografia: Jornal Desportos

As autoridades do município do Cazenga e a empresa Carmon Reestrutura Engenharia e Serviços Técnicos Especiais Lda, selaram no passado mês de Março, um acordo no qual o primeiro outorgante cede ao último, por um período de dois anos, o campo de futebol do Areias para instalar o seu estaleiro de apoio às obras da passagem de nível com guarda, entre o Cazenga e o Rangel.

A empresa construtora comprometeu-se, de acordo com relatos de alguns dirigentes desportivos, moradores e antigos praticantes, a demarcar o campo com as medidas de 45 x 90, o fornecimentos de novas balizas e a reforma dos balneários, mas nada disso está a acontecer.

A situação está a tirar sono a muita gente daquela circunscrição. Ou seja, os potenciais utilizadores do histórico campo dos Areias e moradores  do Cariango alegam  incumprimento por parte da construtora, em relação ao que foi acordado na reunião entre as partes. Melhor, a empresa devia ocupar apenas uma parte do campo e a outra melhorada para a prática regular de futebol.

O recinto sobrevivente, pois é o único que acolhia a maior parte de jogos no Cariango, está sem qualquer condições para a prática da modalidade. Isso, foi confirmado no local pela reportagem do Jornal dos Desportos.

No local, com uma parcela de 54.76x35 ocupada, do lado direito da baliza na zona norte  do campo, homens e máquinas trabalham de forma ininterrupta. Dentro da vedação, feita com chapas onduladas de cor azul, as obras andam a passo rápido. Na entrada do espaço, quatro elementos da segurança pertencentes à empresa Mamboji, devidamente uniformizados, fazem a guarnição do local.

O que se está a passar de concreto com o campo do Areias? A busca da resposta à inquietação dos moradores e antigos praticantes, levou-nos ao responsável do estaleiro. O homem que atende por Brás (foi assim que se identificou) rejeitou falar sobre o processo e remeteu a nossa equipa de reportagem à coordenadora da Comissão de Moradores e membro da Velha Guarda do Cariango, Antónia Pinto Agostinho “Nina” (ver peça à parte). 

“Não estou autorizado a falar para a imprensa sobre o espaço (campo do Areias), pois estou aqui apenas a fazer o meu trabalho. De qualquer forma, para mais informações que vos interesse, devem dirigirem-se ao Grupo Desportivo ou à Administração do Cazenga”, disse .

Com a indefinição, que se regista na atribuição de culpas sobre quem autorizou ou não, para que se transformasse na totalidade o recinto em estaleiro, a verdade é que parte do campo do Areias está invadido por lixo e a outra, transformada em oficina à céu aberto e parque de estacionamento.

Um cenário nada agradável para um local, que “produziu” craques para o futebol nacional, e hoje está transformado num “coito” de delinquentes, pois são muitos os relatos de pessoas maltratadas na parcela não vedada.

DIRECTOR  DA LIDECA
"Há grande descontentamento"


Antigos praticantes, moradores e responsáveis desportivos do Cazenga, temem que o histórico campo do Areias, localizado no bairro Cariango, tenha o mesmo destino de muitos outros, que haviam em várias zonas  de Luanda.

O receio dos moradores do Cariango reside no facto de muitos recintos desportivos, cedidos temporariamente para o mesmo fim (construção de estaleiros para apoio às obras sociais e não só), continuarem em posse dos “novos donos”.

Além disso, os pontos constantes no documento, em que a construtora Carmon Reestrutura solicita a autorização para a ocupação temporária (2 anos) do campo do Areias, segundo o director-geral da Liga dos Desportos, Cultura e Ambiente (Lideca), Agostinho Neto “Tiganá”, é uma demonstração de má fé da parte  referida empresa.

De acordo com Tiganá, antes da celebração do contrato de cedência temporária do campo, as partes intervenientes tiveram um encontro em que, de forma verbal, ficou definido que primeiro devia ser recuperado o recinto e depois a construção do estaleiro.
O que se passa, conforme Agostinho Neto, é que algumas pessoas que não estiveram no referido acordo, estranhamente em nome dos moradores, assinaram o contrato. 

“Infelizmente, temos vindo a constatar o contrário. Estão a fazer primeiro o estaleiro em detrimento do campo. Esta situação está a provocar descontentamento a várias sensibilidades no município, pois vêm coarctar uma parte de um espaço de socialização”.

Munícipes temem
desapropriação


A desapropriação de campos de futebol, para construção de outras infra-estruturas, principalmente para fins pessoais, continua a pontificar em muitas zonas da cidade de Luanda. O histórico campo do Areias, localizado no bairro Cariango, Tala Hady, no Cazenga, pode ser mais uma das várias “vitimas” desse processo obscuro.

O espaço que viu "nascer" e evoluir muitas estrelas do futebol doméstico e não só, está num imbróglio que envolve a Administração Municipal, a Comissão de Moradores, antigos praticantes e a construtora Carmon, que recebeu parte do espaço e edificou um estaleiro na maior parte do recinto, em sentido contrário ao que tinha sido acordado, antes da assinatura do contrato de exploração.

Como resultado, a delinquência tomou conta da zona. Os jovens e moradores estão preocupados com a situação, pois, o Cariango deixou de ter um espaço para a prática do desporto-rei. Afonso Cláudio, 24 anos de idade, residente naquela circunscrição, disse ao Jornal dos Desportos que o campo serviu sempre muita boa gente, principalmente para os mais jovens.

“Não estamos a perceber nada com a construção do estaleiro dentro do campo, um local para a prática do futebol, a julgar pela falta de espaços que Luanda atravessa. Nesta altura não temos mais nada. A delinquência aumentou. Há muito roubo e há doenças”, explicou.
Para o jovem, aos domingos, a juventude encontrava-se no local da área de lazer e hoje as coisas tornaram-se mais complicadas.
“Tínhamos o local para fazer alguma coisa. Jogar a bola ou ainda praticar outras modalidades, o que hoje não se pode fazer. Por esta razão, muita juventude aqui está mergulhada no alcoolismo”, referiu. 

De acordo com Afonso Cláudio, a construção do estaleiro no  referido local significava o "fim do campo para prática desportiva". 
"Se vão fazer uma ponte na linha férrea e até porque é em benefício da sociedade, com um prazo de dois anos, mas agora aumentaram para quatro anos. Aliás, as obras, como dizem, vão ser na linha férrea e lá tem muito espaço. Por que razão não colocaram o estaleiro nos Caminhos-de-ferro? Esta, na minha visão, foi a forma encontrada para acabar com o campo”, concluiu o jovem bastante indignado.

Iracelma Manuel, 21 anos de idade, residente no Tala Hady, diz não concordar com a instalação de estaleiro naquele local de prática do futebol.
“É um local para a prática do desporto pelos meninos aqui residentes. Hoje o espaço está transformado num estaleiro sem sabermos de que se trata. Ninguém sabe ao certo que vai ser feito naquele espaço. Chegaram aqui, montaram máquinas e fizeram o estaleiro. Inicialmente, era uma parte, agora, tomaram conta do campo todo. Estou muito triste porque os meus irmãos também jogaram aqui”,  disse.


JAIME AGUIAR
"Vamos manter o campo"


O antigo guarda-redes do Grupo Desportivo do Cazenga, Jaime Aguiar, disse ao Jornal dos Desportos, terem sido apanhados de surpresa com a intenção de alguns antigos praticantes e moradores de realizar uma “manifestação” contra a empresa Carmon Reestrutura, responsável pela instalação do estaleiro no referido espaço.
De acordo com Aguiar, o pior não aconteceu, devido à intervenção dos demais elementos, pois como disse, tudo está claro e nada de anormal está previsto para o campo.

 "Fomos convocados para participarmos de uma reunião, do qual fez parte a Administração Municipal, representado pelo seu adjunto para área técnica. Desta reunião, a empresa Carmon Lda, adjudicada para a colocação de uma ponte na linha férrea, solicitou o campo para um estaleiro de apoio às obras, que por sua vez dispôs-se a requalificar o campo que já carece de obras de melhorias, como terraplanagem, pavimentação, reabilitação dos balneários, entre outros acertos", disse, e mais  acrescentou que a Administração Municipal não deu qualquer passo sem primeiro contactar uma das partes.

“Tivemos um encontro liderado pelo senhor administrador adjunto para área técnica, com os responsáveis da obra, onde abordamos a questão. Para além de nós, alguns moradores foram também notificados a participar da mesma, mas não se fizeram presentes. O que nós acordamos, é que o campo não pode desaparecer, embora reconheçamos que o estaleiro seria necessário para fazer uma obra que muito interessa a sociedade no geral e o município em particular”, sublinhou.

Com a falta de espaços baldios, de acordo com Jaime Aguiar, o único local encontrado para instalar provisoriamente um estaleiro, foi o campo do Areais. "Eles vão permanecer no espaço durante dois anos. Vamos ter o nosso campo devidamente tratado. Nessa altura já estão a reabilitar o balneário e acreditamos que dentro de poucos dias poderemos vir a ter um espaço melhor”, disse.

Ainda de acordo com Jaime Aguiar, inicialmente foi-lhes proposto a construção de um campo comunitário, o que foi negado, pois o local tem as dimensões para um campo internacional.

"Vamos manter o nosso campo. Achamos correcto desde que tenhamos um campo com as condições necessárias para a prática de futebol", referiu.

CONTRATO
Carmon Reestrutura promete melhorias


O contrato que dá poderes à Carmon Reestrutura para usar o campo do Areias como estaleiro, assinado a 13 de Março, atesta que a construtora compromete-se tão logo terminem as obras, a desmobilizar e  retirar todo o equipamento utilizado. A empresa compromete-se igualmente, de acordo com o ajustado em reunião, fazer benfeitorias sociais para os jovens desportistas do Cariango, a saber:

Demarcação do campo com as medidas 45 x 90 a 120 metros (largura x comprimentos), fornecer balizas novas com as dimensões 7.3 x 2.4 metros, incluindo redes, reforma dos balneários, fornecimento de equipamentos, fornecimento de dois equipamentos para crianças dos sete aos 12 anos, dois equipamentos para adultos,  dois apitos e três bolas.

COMISSÃO DE MORADORES
Antónia Agostinho tranquiliza  jovens


A coordenadora da Comissão de Moradores e membro da Velha Guarda do Cariango, Antónia Pinto Agostinho "Nina",  esclareceu ao Jornal dos Desportos que participou de uma reunião com as instâncias afins, no sentido de cederem temporariamente o campo do Areias, a uma empresa (Carmon Reestrutura) para instalação de um estaleiro de apoio à construção de uma passagem de nível, entre o Cazenga e o Rangel. 

De acordo com Antónia Agostinho, a empresa fez o levantamento do campo e ficou com uma parcela, mas sem prejuízo para os praticantes de futebol do bairro, garantiram que depois, em forma de agradecimento, fazer arranjos no campo e colocação de balizas, para além de fornecer equipamentos desportivos para os jovens.

“Hoje, a grande preocupação dos munícipes é que eles começaram a erguer o estaleiro e a reabilitação do balneário para uso da empresa, enquanto que o contrato era primeiro mexerem  no campo para beneficiar os praticantes,”  disse, acrescentando que o engenheiro que assinou a proposta, disse que em função das chuvas tinha toda a necessidade de organizar o estaleiro e fim das chuvas, começavam o espaço para a pratica de futebol, o que não aconteceu.

Ainda assim, a responsável da Comissão de Moradores tranquiliza os munícipes e utilizadores do campo do Areias de que o mesmo não vai ser desapropriado, pois quando chegar o período acordado, a empresa construtora vai devolver o espaço aos "verdadeiros donos".