Jornal dos Desportos

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Reportagens

Canoagem afundada

Rosa Napole?o - 13 de Fevereiro, 2017

Fortunato Pacavira e Nélson Henriques obtiveram o passe para os Jogos Olímpicos de Beijing nos Jogos Africanos do Quénia em 2006. Conseguiram chegar às meias-finais

Fotografia: AFP

A canoagem angolana abriu páginas em todo o mundo em 2008, quando Fortunato Pacavira e Nelson Henriques inscreveram o nome de Angola nos Jogos Olímpicos de Beijing. Era o auge dos desportos náuticos nacionais. A presença de Fortunato Pacavira na meia-final do torneio olímpico foi notícia no mundo. A imagem de Angola pintou écrans de televisores em milhares de casas em todo o planeta. Era o orgulho de ser angolano.

Quatro anos depois, a mesma dupla ousou levar a Londres'2012 a bandeira nacional. Fortunato Pacavira e Nelson Henriques não tiveram o mesmo brilho dos Jogos Olímpicos de Beinjing. Razões diferenciadas influenciaram no rendimento dos atletas. Angolanos e Angola contentaram-se com a participação.

Quando se esperava a terceira presença no Rio'2016, o silêncio tomou conta da canoagem. As inquietações não tinham respostas. No Brasil, Fortunato Pacavira e Nelson Henriques eram "histórias" para se contar. Em busca da verdade, apenas assistiu-se a transferências de atletas de um clube para outro e mais tarde para um outro. Passado um ano, a voz ecoou do mar. É a verdade imergida que se liberta do fundo do mar: as relações pessoais "matam" a canoagem angolana.

Fortunato Pacavira lidera uma lista extensa de atletas marcados pela Federação Angolana de Desportos Náuticos. Os jovens atletas estão a pagar alto preço por buscarem uma equipa que ofereceu as condições de trabalho. A própria federação angolana decidiu acelerar a aposentação dos atletas, num momento que Angola ainda pode contar com a força e a abnegação desses filhos.

Fortunato Pacavira, Nelson Henriques, Fátima Antónia, Nazaré Neves, Janet Diamantino e Alério Paulo constituem a elite da canoagem angolana. São os responsáveis da glória de Angola em diferentes campeonatos internacionais. Infelizmente, desde 2014, estão marcados na lista negra da Federação Angolana de Desportos Náuticos. A liderança de Diamantino Leitão, presidente da instituição, apregoa políticas que "matam" a canoagem nacional.

Os atletas manifestam o descontentamento e são retaliados com punições severas que prejudicam a imagem de Angola nas competições internacionais. O responsável pela qualificação de Angola aos Jogos Olímpicos de Beijing'2008 e Londres'2012, Fortunato Pacavira, revelou que tudo começou em 2013, quando o grupo decidiu abandonar o Clube Naval de Luanda por causa da situação financeira, que apertava.

"A nossa saída do Clube Naval criou um mau-estar nos dirigentes. Antes, apelamos à direcção no sentido de nos aumentar a quantia da ajuda de custo. Na altura eram apenas 10 mil kwanzas. O pedido foi recusado e não tivemos outra alternativa senão aceitar a proposta do Clube Onda Sport que prometia setenta mil kwuanzas", explicou. O grupo de atletas é composto por pessoas comprometidas com famílias. O dinheiro que o Clube Naval de Luanda pagava, não cobria as despesas das famílias.

"Estávamos a passar uma fase difícil. Todos desejamos uma vida melhor. Os dirigentes conhecem a situação do nosso país. Não faltamos com respeito a ninguém, nem tão pouco violamos a lei desportiva. Por pedir transferência, somos alvos de um processo disciplinar que perdura até o momento. Há três anos, não somos absolvidos de um crime que desconhecemos", disse.

 Fortunato Pacavira lamenta o estado actual da canoagem que a cada ano está a decair. "É triste a situação da canoagem. Atletas, como nós, estão impedidos de constar das convocatórias da selecção nacional. Por exemplo, no ano passado, estávamos ansiosos por competir nas provas qualificativas para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, mas não fomos tidos nem achados nas convocatórias. O resultado veio a tona. O país não conseguiu a qualificação e ficou de fora da grande competição olímpica", disse.

Há três anos, a canoagem não consegue atingir um nível aceitável. A pergunta fica sem resposta, mas o amor pela modalidade e pela bandeira fala mais alto. Pacavira, de 37 anos de idade, questiona os dirigentes da Federação: "Até quando a situação vai continuar? Onde está o fair play?".

O melhor canoista angolano de sempre destaca que "o desporto é para todos e não se pode vetar aqueles que estão dispostos a trabalhar em prol do desenvolvimento nacional". Os atletas afastados da selecção reprovam a gestão de Diamantino Leitão. Acusam-no de vetar o progresso da canoagem desde a sua aparição à frente da modalidade.

"O presidente dificulta a nossa vida e não aceita os pedidos dos atletas. Queremos expor as nossas inquietações e não somos ouvidos. Alega que só fala com os dirigentes de clubes", disse. Pacavira e amigos apelam ao Comité Olímpico Angolano a ajudá-los a encontrar as respostas. "Precisamos ao menos saber até quando vai a nossa punição e o que é preciso fazer para sermos absolvidos?", questionou.

Fortunato Pacavira revelou que estão impedidos de usar os meios de trabalho para manter os níveis de competição desportiva. "Nem sequer podemos tocar nas embarcações para treinar. Isso não é justo. Estamos tristes com essa situação. Temos tudo para levantar a canoagem, mas somos impedidos de o fazer", reclamou. 

DIFERENDO
Nelson Henriques pede apoio a Minjud


Com semblante carregado, Nelson Henriques não consegue esconder a mágoa que carrega no coração. A falta de contacto com as embarcações está causar dores na alma. Revoltado com a situação, o parceiro de Fortunato Pacavira em Londres'2012 manifesta-se descontente com as injustiças que sofre, fruto do castigo aplicado pela Federação Angolana de Desportos Náuticos há três anos.

Nelson Henriques revelou que a dor é mais intensa, quando se lembra que as embarcações proibidas resultaram das conquistas que o grupo suspenso obteve com muito sacrifício. "Dizem que as embarcações pertencem à selecção nacional e não podemos treinar nelas, mas no tempo em que pertencíamos ao Clube Naval usávamo-las sem constrangimentos. Agora, que somos atletas do 1º de Agosto estamos proibidos. As pessoas estão a agir de má fé", disse com mágoa.

Nelson Henriques revelou que a gestão da Federação Angolana de Desportos Náuticos deve rever os procedimentos de actuação na canoagem. "No ano passado, não tivemos o campeonato nacional e isso nos deixou tristes. Treinámos a época inteira e não mostrámos o que valemos", reiterou.
Nelson Henriques garante que não vai desistir da canoagem por constar da lista de fundadores no país. 

"Começámos com a canoagem e não vamos desistir. Competíamos com os clubes e não havia nenhuma Federação. A instituição resultou do nosso empenho e dos bons resultados que conseguimos. Todos temos de interagir e ninguém pode monopolizar a canoagem. Onde está a união de que tanto falam?", questiona.

O atleta diz que trabalha por "amor à camisola" e apela à intervenção do Ministério da Juventude e Desportos para manter o bom nome que o país conquistou através da canoagem em África e no Mundo. Nelson Henriques sugere inspecção ou inquérito para evitar que mais atletas abandonem prematuramente a canoagem.

Fortunato Pacavira e Nélson Henriques obtiveram o passe para os Jogos Olímpicos de Beijing nos Jogos Africanos do Quénia em 2006. Conseguiram chegar às meias-finais na prova dos 100 metros. Para os Jogos Olímpicos de Londres'2012, a dupla Fortunato Pacavira e Nélson Henriques obteve a medalha de prata na classe C2 (canoa para duplas) nos décimos Jogos Africanos realizados na capita moçambicana, Maputo, em 2011.                                                       

CAIAQUISTA
Nazaré tem saudades de Sanches

O caiaquista Nazaré Neves, da classe K1 e K2, lamenta a punição que lhe foi aplicada há três anos por ter mudado de clube. "É triste o que temos passado. Gostaria de saber das pessoas mais informadas sobre as regras do desporto, se um atleta deve sofrer uma punição da Federação, quando decide mudar de clube por qualquer razão. Isso é um crime?", questiona.

O atleta do 1º de Agosto, que iniciou a carreira aos 11 anos de idade, lamenta a forma como a Federação despreza os assuntos dos atletas da canoagem. Nem mesmo as competições internas como campeonatos nacionais se realizam na íntegra.  "Nenhum atleta fica satisfeito em treinar todo o ciclo desportivo e não competir para mostrar ou testar o seu nível competitivo.

No ano passado, ficámos sem o Campeonato Nacional e até agora  ninguém justificou as razões. Se as coisas continuarem assim, estamos a condenar a canoagem ao fracasso. Não culpamos o seleccionador pela não convocatória. Estamos parados há muito tempo. Não conseguimos treinar sem as embarcações, porque o 1º de Agosto não as tem", disse.

O atleta admite sentir saudades do tempo do presidente Rui Sanches. Naquela época a canoagem estava no auge com resultados surpreendentes no continente e noutras partes do mundo. "Estávamos nos lugares mais altos da classificação em África, porque os dirigentes apostavam na modalidade e permitiam a nossa saída para estágios pré-competitivos que nos fortaleciam e nos preparavam para as provas internacionais.

Foi assim que conseguimos a qualificação para os dois Jogos Olímpicos (Beijing'2008 e Londres'2012) com o Fortunato Pacavira e o Nelson Henriques", justificou. Nazaré Neves mostra-se ansioso pela realização de renovação de mandatos na Federação Angolana de Desportos Náuticos. Gostaria de ver outra direcção no comando da FADEN para ver as coisas a melhorar na canoagem.

O Jornal dos Desportos procurou ouvir a versão oficial da Federação Angolana de Desportos Náuticos, mas não teve sucesso. O presidente da instituição Diamantino Leitão alegou indisponibilidade por se encontrar fora do país e não indicou qualquer responsável para esclarecer os factos.  
                                 
MATEUS AFONSO
“É a pior Federação
de todos os tempos”

O seleccionador nacional de canoagem, Mateus Afonso, afirma que a Federação Angolana de Desportos Náuticos é gerida a partir do exterior do país e os dirigentes confundem-na com o Clube Naval de Luanda. Os jovens de sub-23 conquistaram nove medalhas no primeiro campeonato africano e até hoje desconhecem o aperto de mão do presidente da Federação.

O que está na base da fraca actuação da canoagem nacional?
Penso não ser o termo certo. Infelizmente, temos pouca competitividade por falta de um calendário de provas cumprido à risca. Os atletas treinam muito, mas competem pouco. Quem treina, quer competir para avaliar a sua performance.

Fortunato Pacavira e Nelson Henriques levaram Angola aos Jogos Olímpicos em duas ocasiões. Porquê falharam a participação no Rio de Janeiro'2016?

É de felicitar os dois grandes atletas pelo feito inédito no desporto angolano. Conseguir duas qualificações Olímpicas em ciclos seguidos é sinónimo de muito trabalho e dedicação não só dos atletas, mas de toda a equipa que contribuiu para a realização do sonho. Aqui o destaque recai para os clubes, treinadores e o COA, que conseguiu vários protocolos de cooperação com as congéneres do Brasil e Portugal. Estas instituições facilitaram estágios antes, durante e pós-Jogos Olímpicos de Beijing'2008. Por outro lado, destaco também o primeiro elenco da FADEN presidida por Rui Sanches.

A canoagem não conseguiu o passe para o Rio'2016, porque dentro da própria Federação a modalidade foi relegada para o terceiro plano, depois da Vela e Remo. Não participámos em torneios internacionais chaves e nem tivemos um circuito de preparação que permitisse melhorar os tempos dos nossos atletas mais destacados.

Mal termina um jogo, arranca-se automaticamente com a criação de condições para o ciclo olímpico seguinte. Coisa que não aconteceu depois de Londres'2012, onde a única modalidade náutica representada foi a canoagem com Fortunato Pacavira e Nelson Henriques em C2 (canoa de 2 tripulantes).

Os atletas alegam cumprir uma acção disciplinar. É do conhecimento do seleccionador?
Tenho conhecimento que os atletas foram simplesmente penalizados por abandonar um clube e entrarem noutro que lhes ofereceu melhores condições de treino, possivelmente, o lado salarial. A maior parte dos atletas seniores da canoagem já têm famílias constituídas e é sua responsabilidade escolher o melhor para si e os seus. Qualquer processo disciplinar deve cumprir uma série de fases. Infelizmente, nada foi dado a conhecer aos atletas que têm todo o direito de defesa. Repito, que só foram penalizados por abandonar um determinado clube que muitas vezes se confunde com a Federação - FADEN.

Atletas alegam estar descontentes com a presente direcção federativa. Há razões para isso?

Não são só os atletas descontentes com a direcção da FADEN. Essa federação não soube congregar os clubes e vários agentes desportivos que são os verdadeiros impulsionadores das modalidades náuticas em Luanda. Nesse momento, a província de Cabinda é outra que pratica a Vela e não recebe qualquer apoio do elenco da actual direcção da Federação Angolana.

Porquê a sanção dos atletas não é revogada?
Não sou especialista nessa matéria. Sei que todo e qualquer processo tem um tempo estabelecido. E de acordo com a data dos acontecimentos, a tal sanção há muito que foi revogada.

A selecção nacional de canoagem deixa de fora atletas como Pacavira, Nelson, Nazaré, Nete, Antónia e Aleiro nas convocatórias. É verdade?
Qualquer atleta deve cumprir uma série de requisitos se quiser fazer parte da selecção nacional em qualquer modalidade. Na canoagem não é diferente. Se os atletas não treinam nos seus clubes e nas suas especialidades, não têm como cumprir com os testes periódicos para conseguirem uma vaga na selecção. Com excepção de Nazaré Neves, os outros são todos especialistas em canoa, embarcação que não têm no seu clube actual.

Alguns desses atletas, como é o caso do Fortunato Pacavira, Nelson Henriques e Nazaré Neves, foram chamados e fizeram parte da maior selecção nacional que participou no Campeonato do Mundo de Milão em Outubro de 2015, de forma a integrá-los nas competições internacionais por terem sido afastados injustamente sem qualquer processo por parte da FADEN.

Como avalia o mandato do actual presidente da FADEN?
 Será que a federação tem andado de mãos dadas com os clubes e atletas ouvindo as suas preocupações?

É a pior Federação de todos o tempos. Muitas vezes se confunde com o Clube Naval de Luanda.
A Federação é dirigida do estrangeiro. O presidente e os seus colaboradores directos nunca estão no país. Assim nunca vamos ter modalidades náuticas saudáveis e com bons resultados.

A título de exemplo, a selecção nacional júnior de Sub-23 conquistou nove medalhas no primeiro campeonato africano disputado na Tunísia. Os miúdos conseguiram o feito para o país, mas continuam à espera até hoje  de um aperto de mão do presidente da Federação. Isso para não falar de prémios estabelecidos por Lei. Infelizmente, não se fez absolutamente nada para a massificação da canoagem e, não só. Angola dispõe de tantos recursos hídricos e não são aproveitados para o bem da população.                                                                                                               
RN