Jornal dos Desportos

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Reportagens

Canogem navega em dificuldades

Rosa Panzo - 10 de Maio, 2011

Canoagem vive momentos difíceis, segundo Francisco Freire, seleccionador nacional

Fotografia: José Soares

As condições em que se treinam os atletas da selecção nacional de canoagem são pouco condizentes com a figura de quem chegou aos Jogos Olímpicos de Beijing e se impôs diante de feras mundiais. Na manhã de segunda-feira, 2 de Maio, o “Jornal dos Desportos” acompanhou mais uma sessão de treinos e pôde constatar a frustração dos atletas e do treinador.

A falta de alimentação adequada e de transporte para os atletas e outros aspectos inerentes à preparação da selecção mancham o programa de preparação, visando diferentes torneios, como Jogos Pan-africanos, Taças do Mundo e qualificação aos Jogos Olímpicos.
"Trabalhamos com canoas impróprias para o tipo de competições em que vamos participar", referiu Francisco Freire, o seleccionador nacional, indignado com a qualidade do equipamento.

O técnico mostra-se triste, pois pretende manter o nome do país entre os principais concorrentes do continente. Angola, diz, “tem uma imagem e responsabilidade granjeada com muitos sacrifícios”, o que, deixando orgulhoso qualquer atleta ou treinador, contrasta com as condições que lhes são oferecidas para treinar. O que mais aflige o seleccionador nacional é o material que têm à disposição.“Os adversários de Angola, nos Jogos Pan-africanos, a realizarem-se em Setembro, em Moçambique, trabalham com material de última geração”, refere o técnico.

Entre as diferentes classes nas competições internacionais, Angola tem a possibilidade de medalhar nas classes C1 e C2. Francisco Freire justifica: "em pouco tempo, conseguimos atingir os títulos absolutos no Campeonato Africano, em 2009, na Côte d´Ivoire, nas Além dessas distâncias, a pujança dos angolanos também subiu ao pódio nos 200m, em que obtiveram o segundo lugar. Por essa razão, “apostamos nessas classes, porque as características dos nossos atletas provaram, até ao momento, nas competições internacionais, que têm adaptação rápida".

A vontade dos angolanos sobrepõe-se à dos adversários, que praticam a modalidade há mais tempo, o que lhes permite competir, mas os seus objectivos podem ver-se gorados devido à falta de condições.Angola não tem canoas dessas classes para uma preparação condigna, que permitisse aos atletas aperfeiçoarem-se nos treinos. A selecção absoluta dispõe apenas de "novos remos", adquiridos pelo presidente da Federação Angolana de Desportos Náuticos.

O olhar de Francisco Freire perde-se no horizonte. “Continuamos a treinar com canoas antigas". Para animar o espírito abatido, o técnico revela: "a única canoa de última geração do país é a do Fortunato Pacavira, que a trouxe dos Jogos Olímpicos de Beiging".N uma altura em que se apregoa a aposta nas modalidades individuais, a realidade é de decepção. A selecção atravessa imensas dificuldades para cumprir o programa de preparação, que prevê treinos diários. Nem uma garra de água (doce) ou um refrigerante há depois dos treinos”, revela Francisco Freire.

"Trabalhamos com canoas impróprias para o tipo de competições em que vamos participar", referiu o seleccionador nacional, indignado com a qualidade do equipamento.“Os adversários de Angola, nos Jogos Pan-africanos, a realizarem-se em Setembro, em Moçambique, trabalham com material de última geração”

Atletas
querem preparação adequada


No seio dos atletas, o descontentamento era notório pela falta de boas condições para os treinos. Clamavam por apoios para o cumprimento das suas obrigações em três competições internacionais. Em tom irónico, os jovens atletas afirmam que se dedicam à canoagem “por amor à camisola”, porque “as condições de trabalho não são das melhores; o material à disposição serve para remediar, visando a representação da Nação nas diferentes competições, com destaque para os Jogos Pan-africanos”.

Joelson Contreiras, do Clube Naval de Luanda, afirmou à nossa reportagem que trabalha com os colegas porque gosta do que faz. E justificou: “Não é a primeira vez que nos preparamos para as competições internacionais em péssimas condições de trabalho”.
Mas a situação não o deixa de todo desanimado. Perante as dificuldades, as esperanças continuam intactas.

“Sempre conseguimos dignificar o nome de Angola”, disse convicto em manter a bandeira nacional no mastro mais alto.A brisa bate-lhe no rosto e leva consigo o sonho. A alegria estampada no rosto desvanece e um olhar melancólico toma-lhe o espaço. “A verdade é que os nossos adversários estão a preparar-se em condições condignas, enquanto nós nos estamos a remediar com velhas peças de museu”.

Com o reconhecimento das diferenças nas condições de trabalho, a qualificação aos Jogos Olímpicos de Londres’2012 pode estar tremida. “Não sei se vamos alcançar os nossos objectivos”, disse. A Selecção Absoluta de Canoagem ambiciona a qualificação para os Jogos Olímpicos de Londres. Composta por 12 atletas, dos quais dois femininos, tem também como objectivo principal a conquista do maior número possível de medalhas nos Jogos Pan-africanos.

O grupo orientado pelo seleccionador nacional Francisco Freire treina na Baía de Luanda, defronte ao Clube Naval, em sessões bi-diárias, das 5 às 7h00 e das 15 às 16h30, nas classes C1 e C2 (canoagem) e K1 e K2 (Kayake). Já em SLALOM, classe disputada em águas paradas com obstáculos, o seleccionador prepara dois elementos: um para a classe C1 e o outro em K1.

Para a empreitada de Maputo, integram a lista, na classe C1 os atletas: Fortunato Pacavira, Nelson Henriques, Nelson Pumba, Alério Victor e Fátima António; na classe Kayake: Joelson Samul, Picasso Andrade, Nazaré Neve, Jair Domingos e Josimar Andrade; na classe SLALOM: José Chimbungo, em C1, e César Fidalgo, em K1.   

Confirmação do Ministério

O Director Nacional dos Desportos, Raimundo Ricardo, confirmou a recepção do documento da Federação Angolana de Desportos Náuticos para a área de canoagem e afirmou que está a cumprir o processo de tramitação. O documento deu entrada no passado dia 21 de Março de 2012. Raimundo Ricardo referiu que o valor disponível no Ministério da Juventude e Desportos não permite a cabimentação de estágios pré-competitivos. "A organização de eventos coordenados pelo Ministério está sensível à resolução de estágios inerentes aos Jogos Pan-africanos, embora algumas Federações careçam de apoio de instituições privadas", disse.   

O responsável realçou que o Ministério da Juventude e Desportos "está a trabalhar com responsabilidade" no sentido de fazer o melhor para "as nossas participações nos Jogos Pan-africanos". Raimundo Ricardo garantiu que a participação de Angola no Campeonato do Mundo da Hungria, em Agosto de 2011, está confirmada junto da Federação Internacional, fazendo-se representar com dois atletas. "Os pagamentos já estão feitos", disse.

Angola falha Taças do Mundo

A Selecção Absoluta de Canoagem pode falhar as Taças do Mundo, a decorrerem na Europa de 20 a 22 do corrente mês, na República Checa, e de 27 a 29, na Alemanha, por falta de apoios financeiros, depois de falhar a Taça da Polónia, de 6 a 8 do corrente, cujo vencedor foi Portugal. Para o seleccionador nacional, as possibilidades da delegação nacional embarcar para a Europa são remotas, porque a Federação deu entrada do programa preparatório e do orçamento no Ministério da Juventude e Desportos, mas o despacho não consta a comparticipação financeira para a deslocação da delegação de canoagem.

A participação do combinado nacional na Polónia, República Checa e Alemanha tinham como um dos principais objectivos observar e testar os adversários directos nos Jogos Pan-africanos de Maputo, em Setembro. O treinador adiantou que a participação traria “efeitos positivos" ao grupo, porquanto permitiria “tirar ilações da evolução dos outros países e os seus pontos fracos”. Se o programa está comprometido, o moral dos atletas continua alto.

O grupo está unido em torno dos objectivos preconizados. "Estamos a trabalhar de cabeça erguida a fim de perseguirmos os objectivos preconizados", disse Francisco Freire. As Taças do Mundo da Polónia, República Checa e Alemanha serviriam para avaliar a capacidade dos adversários e dar-lhes a oportunidade de testar equipamentos de última geração, visando os Jogos Pan-africanos, qualificativos aos Jogos Olímpicos de Londres´2012.