Jornal dos Desportos

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Reportagens

Cateto eterniza Queirs

Francisco Carvalho - 07 de Novembro, 2010

Carlos de Sousa Queirs mereceu a grande homenagem

Fotografia: Miquias Machangongo

Em meio a azáfama, numa manhã cinzenta de sábado, o nome do treinador dos escalões de formação do Petro de Luanda, Carlos Queirós, foi aclamado por mais de cinquenta dezenas de pessoas, quando Justino Fernandes descerrou a placa à entrada do (novo) campo. Um espaço verde, com dimensões internacionais, para a formação de futebolistas. Era o eternizar de uma “grande estrela” que há 42 anos marca a vida na história do clube tricolor de Luanda.

Carlos de Sousa Queirós, o homenageado da manhã, jorrou champanhe no tapete sintético com sentimento de agradecimento, por quatro séculos de prestação de serviço, que se circunscrevem em derrotas, humilhação, vitórias e homenagem. Sempre de cabeça erguida e convicto de um sonho realizável, Queirós superou as vicissitudes que teriam perigado a carreira. Mas a sapiência, a esperança e a humildade contornaram-no para o caminho inverso. Com olhos no passado, diz que, hoje, o Atlético o fez o homem respeitado e respeitoso.

Para Justino Fernandes, presidente da Federação Angolana de Futebol (FAF), o reconhecimento a Carlos Queirós é um acto merecido e deixa-o satisfeito, pois a inauguração do campo representa o futuro do “nosso futebol”. O mais alto mandatário da FAF apelou a outras agremiações do país a enveredar por políticas de investimento. “É um trabalho de realce e todos os clubes deviam fazer o mesmo”, disse. O presidente do Atlético Petróleo de Luanda diz que a homenagem a Carlos Queirós está enquadrado no âmbito do 30º aniversário da fundação do clube. É uma homenagem merecida, porquanto fez e faz em prol do clube.

“Não se podia esquecer de todos aqueles que fizeram crescer o clube com abnegação, dedicação e muito sacrifício”, disse o dirigente. O grande homenageado da manhã disse que se sente lisonjeado por testemunhar o lançamento do campo com o seu nome. “É uma honra que muito agradeço à direcção do Atlético Petróleo de Luanda”, frisou. De calções e camisolas tricolor, Carlos Queirós exibe o rosto vestido de sentimento de alegria. O trabalho de formação vai consumir mais tempo, o que lhe deixa exultado. “Hoje, temos um campo polivalente que pode suportar sete horas de carga”.

Para quem sempre dedicou a vida ao desporto, primeiro como atleta e depois como treinador, “é um prazer ensinar o futebol às crianças”. O rosto muda de figura e uma melancolia apodera-se dos seus olhos. A voz muda de tonalidade e um eco solta-se roucamente. “É um trabalho que não se vê aos olhos do mundo”, solta o treinador que a completa: “Ninguém vê o alicerce dos prédios, mas a parte mais alta. Não aparecemos”.

É uma manifestação inquietante; uma chamada de atenção aos dirigentes desportivos, que pouco investem no futebol de formação, e um apelo à promoção da base de sustentação qualquer sucesso. Carlos Queirós deixa receita simples pintada de humildade: “O nosso trabalho é bonito, porque os nossos troféus são a projecção dos jogadores”. Um troféu tão simples que engrandece qualquer cidadão de Angola. “Muitas gerações de atletas já passaram por nós, o que nos deixam felizes. Quando atingem à selecção nacional nos sentimos regozijados. O Flávio, Abel, Saavedra são exemplos do nosso trabalho”, conclui. Como milhares de outros atletas, Carlos Queirós incorpora-se na colectividade que marcou os 30 anos de existência da equipa do Catetão. “Temos uma vida feita no Petro de Luanda”.

Uma legião de percursores

A história da legião campeã do Atlético Petróleo de Luanda transborda para além das fronteiras nacionais. São jovens de diferentes gerações que elevaram o nome da agremiação em vários clubes espalhados no mundo. Entre muitos, a direcção seleccionou alguns, “por serem pessoas que um dia suaram as camisolas e deram a grandeza que hoje ostenta”. No 30º aniversário, a direcção do Petro de Luanda homenageou com diplomas e medalhas Nelo Bumba, Bodunha, Luís de Almeida, Moniz, Luís Domingos “Luisinho”, Santo António, Quim Sebas, João Barbosa “Balalau”, Chico Dinis, Guilherme Neto, Ralf, Francisco Afonso “Chico Afonso”, Laika, Zico, Felito, Rasgado, Nejó, Paulo Silva, Marito, Lúcio, Mbiavanga Kapela e tantos outros. São jogadores de diferentes gerações que fizeram a marca tricolor.

Cada um a seu jeito empurrou para o pódio a equipa mais titulada do Girabola. São 15 títulos que demonstram a entrega profissional de jovens (alguns dos quais) formados nas Escolas do clube. Quim Sebas disse que “é com muita alegria merecer o reconhecimento público da actual direcção, pois foram muitos anos de entrega e dedicação ao clube”. O antigo futebolista agradece o gesto da equipa liderada por Pereira Cardoso. “Ajudamos a desenvolver o Atlético Petróleo de Luanda e a homenagem é bem-vinda”, disse.

Paulo Silva, o defesa que se transformou em ponta-de-lança, no fim da carreira, disse que “é uma felicidade muito grande granjear o reconhecimento da direcção”. O ex-dono do canhão esquerdo abonou que passou a maior parte da sua vida nos centros de estágios e campos de futebol vestido com as cores do Petro de Luanda. “É salutar saber que alguém reconheceu os nossos efeitos dados com carinho, satisfação e abnegação”, completou.

Rasgado, um nome marcado na Cidadela Desportiva e nos Coqueiros, gaba-se por fazer parte da equipa que ostenta cinco títulos consecutivos e tantos outros alternativos. “Sinto-me feliz e muito bem com essa homenagem, porque pertenço à equipa com cinco títulos consecutivos. Foi uma obra feita com humildade, dedicação e muito sacrifício”, disse. O ex-atleta afirmou também que com a realização da homenagem pública, a “família petrolífera procura unir-se para fazer um clube grandioso nos próximos tempos”. Uma promessa que não se pode duvidar, porque “todos vão ver”.

O actual membro da direcção técnica e antigo defesa Nejó argumentou que é de louvar o gesto da direcção do Petro de Luanda, porque o enche de alegria. Entre abraços e sorrisos, os laureados da manhã dividiram a emoção entre o presente e o passado. A nostalgia e o desejo confundiam-se nas conversas avulsas que se perdiam nos ‘grupos’ improvisados, ante o olhar incrédulo das crianças de diferentes escolas de futebol.

Quem é Carlos Queirós

Carlos de Sousa Queirós nasceu na Quibala, circunscrição da província do Kwanza-Sul, no dia 31 de Março de 1946. Iniciou a carreira desportiva aos 16 anos de idade no Atlético de Luanda, em 1962, onde fazia dupla categoria: juvenil e junior. Em 1965, subiu à categoria júnior e no ano seguinte tornou-se campeão nacional e considerado o Melhor Jogador do Campeonato de Luanda. Com a ascensão a sénior, Carlos Queirós integrou várias vezes as selecções provinciais (ultramarinas) nos torneios e jogos amistosos contra clubes portugueses, entre os quais Varzim e Belenenses.

Na época de 1973/74 foi proposto para trabalhar nas categorias de formação, onde colecciona títulos nos escalões de iniciados, juvenis e juniores. Em 1981 fez um estágio de superação no Brasil durante 30 dias e no Benfica de Portugal. No ano seguinte, fez o curso de treinador de futebol na Escola de Educação Física do Exército em S. João da URCA no Rio de Janeiro, Brasil. É treinador profissional desde o ano de 1983, quando assumiu as funções de auxiliar do brasileiro António Clemente no Atlético Petróleo de Luanda. Em 1984, assume a liderança da equipa e afastado a meio do Girabola por maus resultados.

Em 1985, é chamado outra vez e em 1986 torna-se campeão do Girabola como adjunto de Carlos Silva, um prestígio que se repete nos de 1987 e 1988. Em 1989 e 1999 assume a liderança como técnico principal e conquista os títulos de campeão do Girabola. Em 1991 foi indigitado pela FAF como seleccionador da equipa Olímpica. Do seu currículo consta o treinamento das equipas Petro de Luanda, Benfica do Huambo (Mambrôa), Grupo Desportivo da Nocal, Académica do Lobito e Benfica do Lubango.