Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Reportagens

Champanhe engavetado

Textos: Francisco Carvalho | Fotos: José Cola - 25 de Outubro, 2010

Interclube só escorregou ao longo de toda a partida, com uma exibição carnavalesca

Fotografia: José Cola

A passagem de testemunho está adiada. Tudo por culpa de Bernardino Pedroto, o técnico português que se fez acompanhar de um petroleiro cheio e o despejou em pleno Estádio 22 de Junho, palco do adversário. Com a relva pintada de petróleo, Interclube só escorregou ao longo de toda a partida, com uma exibição carnavalesca. Sem a bússola orientadora, os polícias sentiram na pele, desde o início da contenta, uma avalanche tricolor que se fez presente com todo o aparato do “on shore”: vuvuzelas, batuques, cornetas e entoarias.

A pressão da claque petrolífera aliada à psicológica desnorteou os miúdos do Álvaro Magalhães. Organizados e com as cores da equipa no peito, o Estádio 22 de Junho mais parecia o campo da equipa do Catetão. O pisa! Aleluia! Euééé! Eram os slogans mais sonantes da bancada Este. Uma bancada pintada com as cores amarela, azul e vermelha, a do Petro de Luanda. Cadenciado pela força"oculta"de um mestre cerimónia, os adeptos gelaram na quadra os comandados de Minguito, o irrequieto capitão da equipa da Polícia Nacional.

O golo de Mabiná esquentou o estádio, os sócios e os adeptos do Petro de Luanda. Um delírio total que se confundiu com a reconquista do Girabola. É muita emoção. Gritos e choros amenizam-se num braço fraternal entre colegas. Trombetas e vuzulelas negam-se a calar numa sintonia harmónica com os batuques. O minuto era do Petro de Luanda motivado por um lugar nas Afrotaças.

Até o arame farpado colocado à volta do campo não foi poupado. A fúria dos adeptos levou-o abaixo. A segurança do estádio teve de ser reforçada sob pena do Petro de Luanda fazer-se alinhar também dos adeptos, empolgados pelo golo. As canções de incentivos aos jogadores tomam o espaço. A claque aparenta ser organizada.

O título de campeão fez-se presente nos olhares dos polícias até ao Intervalo. No rosto de cada jogador era visível o sofrimento provocado pela ansiedade. Uma ansiedade de vestir a faixa de campeão nacional do Girabola’2010. A cada apito de Romualdo Baltazar, os corações dos adeptos petrolíferos saltitam num ritmo frenético. Não pelo empate, mas pela dor de entrega de testemunho. Gely Calunga é um adepto que se sentava a cada livre contra o Petro de Luanda. Diz ser hipertenso, mas estava preparado para ver o sofrimento que o seu clube do coração provocaria ao Interclube.

“Esse árbitro não é imparcial e assinala livres inexistentes”, afirma o jovem. De rádio aos ouvidos, Gely informa que Caála marcou o golo. Os colegas em uníssono vibram de alegria. O ruído exalta a equipa na quadra. O aperto aos polícias era constante. Os rasgos dos laterais atormenta a equipa da Polícia Nacional. A vénia ao campeão do Girabola’2010 tem novo candidato. O conformismo apodera-se do Interclube. Para quando o jorrar do champanhe? Uma questão que só o Estádio dos Coqueiros poderá confirmar no próximo fim-de-semana.

Mantorras
agita criançada


O jogo entre Interclube e Petro de Luanda tem outras histórias. O abraço entre David Dias, ex-treinador do Recreativo da Caála, e Bernardino Pedroto, técnico do Petro de Luanda, no pátio automóvel do Estádio 22 de Junho, suscitou olhares curiosos de muitos aficionados do futebol. Os dois treinadores dialogaram amenamente, após o que pareceu a parabenização de David Dias.

De sorrisos nos lábios, o técnico português Bernardino Pedroto “vendia” abraços a todos aqueles que o reconheciam. A satisfação pelo dever cumprido era motivo de muita alegria. Pudera! Depois de uma semana repleta de promessa, o cumprimento obrigava libertar a energia acumulada.

Outrossim, Mantorras continua na lista de prioridade dos atletas mais famosos. Encaixado no interior de uma viatura de vidros “fumados” que transportou Luís Filipe Vieira, presidente do Sport Lisboa e Benfica, as crianças reconheceram-lhe com facilidade. O grito de um petiz serviu de alarme para que a viatura fosse “assaltada” pelos mais pequenos. Uns descalços outros de chinelos aos pés. O nome de Mantorras propagava-se nas ondas frias do Rocha Pinto.

A rua foi invadida pela criançada e a Polícia Nacional teve de accionar os mecanismos de segurança até se perder na rua principal.
Joaquim Camacho tem 11 anos de idade e diz que se inspira no Mantorras sempre que joga futebol. “É o meu ídolo”, diz com muita satisfação. Questionado sobre a equipa de Mantorras, Mariano Manuel, de 12 anos de idade, diz com muita convicção: “é jogador do Benfica de Portugal”. Mantorras continua a inspirar os mais jovens angolanos e confirmou ser a estrela mais cintilante do futebol nacional, apesar de não fazer parte da lista actual do Benfica de Lisboa.

Claque usa palavrões
contra Polícia Nacional


A claque do Petro de Luanda sempre foi tida como a mais indisciplinada em Angola até ao “vandalismo” dos adeptos do 1º de Agosto frente ao Kabuscorp do Palanca. No jogo de ontem, os sócios e os adeptos, emocionados pela vontade de vencer, usaram palavrões nas suas canções contra a Polícia Nacional. O gesto reprovável mereceu a chamada de atenção de alguns adeptos de futebol.

Kiala Massunga, funcionário público e adepto do Benfica de Lisboa, disse que “a atitude dos adeptos do Petro de Luanda é reprovável em todos os sentidos”, porque “demonstra o infantilismo que reina no seio da congregação”. “A Polícia Nacional é uma instituição que merece o carinho de toda a população, inclusive a desportiva, apesar da equipa adversária fizer parte dela”, disse o jovem que acrescentou: “Não se deve faltar ao respeito como se ouviu aqui”.

Maria Morena, adepta confessa petrolífera, lamentou a atitude dos seus colegas: “Isso nunca se diz, nem a brincar”. A jovem comentou: “sou mulher e ouvir palavras obscenas como essas fazem-me sentir mal”. Um mal que também irritou outra mulher. Mariazinha Muquengue. “Chamar de p… a nossa Polícia Nacional é uma falta de respeito que a direcção do Petro de Luanda deve procurar sensibilizar.

É inconcebível que uma equipa com 15 títulos de campeão do Girabola ainda não se adaptou às boas maneiras”. Era um momento de contenção dos rancores para alguns e euforia para outros. Entre a festa e a desordem, há que se acatar as boas maneiras sob pena de se ver “trancado”. O desporto apela a fair play em todos os cenários.

Segurança encanta adeptos

A organização do jogo entre Interclube e Petro de Luanda, ontem, no Estádio 22 de Junho, deixou encantadas muitas pessoas. O aprimoramento na segurança do estádio foi motivo de apreciação de alguns adeptos do futebol. Numa escala de zero a dez, o nove é a média.

João Prata é adepto do Petro de Luanda e diz que “se todos os jogos tivessem sido tomados as medidas de segurança iguais a dessa partida, não haveria casos insolentes iguais ao do 1º de Agosto – Kabuscorp do Palanca”.O jovem diz desconfiado: “talvez tivessem sido tomadas, porque a equipa de casa é da Polícia Nacional”.

Solange Maria, jovem de 25 anos de idade e com as cores tricolores ao peito, foi peremptória: “nota 10 a segurança do estádio. As entradas de viaturas e de adeptos ao estádio iguais a essas só foram vistas durante o Campeonato Africano das Nações Orange-Angola’2010”.Manuel Calengue pede à Polícia Nacional para “caprichar sempre que for chamada a qualquer estádio”, pois “é bonito o cordão de segurança e a organização”. A experiência acumulada durante o CAN Orange-Angola’2010 dá tranquilidade aos angolanos em qualquer parte do país.