Jornal dos Desportos

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Reportagens

Clube Académica Social Escola regressa ao desporto nacional

João Carmo e Manuel Neto - 03 de Fevereiro, 2010

Joaquim Dinis, o Brinca na Areia

Fotografia: Domingos Cadência

A comissão que trabalha para o reaparecimento do Clube Académica Social Escola carece ainda de sede própria. A antiga encontra-se ocupada por populares, que a partir de 1983 se foram fixando no local até o ocuparem na totalidade. Era uma fase em que a colectividade desportiva vivia um acentuado declínio, que culminou com o seu desaparecimento, durante muitos anos.
Ao que parece, a situação da antiga sede está longe de ficar assim parada, pois os actuais responsáveis procuram, junto da Administração Municipal do Rangel, reaver o imóvel para poderem realizar as suas actividades em instalações próprias.     
Actualmente, os responsáveis do Escola arrendaram um apartamento na Avenida Hoje-ya-Henda (no primeiro andar do prédio junto às bombas de combustível da GALP).

É lá onde, maioritariamente aos fins-de-semana, traçam as estratégias para o ressurgimento do clube do bairro do Zangado. Os clubes vivem da cotização dos sócios e os dirigentes do Escola do Zangado sabem disso. Assim sendo, está já a decorrer o processo de angariação de sócios (entre antigos e novos). Para já, regista-se grande adesão de pessoas de diversos estratos sociais. Até ao memento em que fizemos este trabalho, haviam sido entregues mais de 282 fichas de inscrição, restando às pessoas interessadas formalizarem a sua situação perante o clube. A julgar pela popularidade de que o clube gozou há algumas décadas, é provável que muitas pessoas se mostrem interessadas em associar-se. As inscrições podem ser feitas na sede e num núcleo que funciona na comuna do Rangel.

Parceria com a Escola Ngola Mbandi

Os responsáveis do Escola do Zangado estão a trabalhar com a direcção da Escola Ngola Mbandi a fim de se tornarem parceiros no aproveitamento do seu recinto desportivo. Para já, é intenção dos responsáveis do clube reabilitar o referido espaço para aproveitá-lo posteriormente na prática de modalidades de salão. Lourenço Bento, um dos seus responsáveis, disse existir já um acordo verbal com a direcção da referida escola, o que significa que o casamento entre ambas as partes pode acontecer a qualquer momento.
Além do desporto, há a intenção de se implementar outros projectos sociais para servir aos estudantes e moradores do Rangel (o principal alvo) e a população de Luanda, em geral.

Pelo que foi estabelecido, a prioridade este ano vai para a organização interna do clube. Consolidado o primeiro objectivo, vai passar-se para o trabalho desportivo, a começar com os cadetes e juvenis, subindo paulatinamente de categoria, assim que as condições permitirem. A intenção é conciliar a prática desportiva a escolar, sendo uma das condições para a admissão do aluno no clube é o mesmo estar a estudar. O futebol é a modalidade rainha do Escola do Zangado, mas o que se pretende é alargar o leque de disciplinas desportivas. A aposta vai recair no basquetebol, no hóquei em patins, no ténis de mesa, no atletismo, xadrez, o que já está na forja.

Patrocinadores procuram-se

Nesta primeira fase, o Escola vai caminhar com os próprios pés, como se diz. Ou seja, vai contar apenas com recursos financeiros dos seus dirigentes, pois, apesar de tentarem arranjar um ou mais patrocinadores permanentes, nada de concreto se conseguiu até aqui. Existiram até algumas promessas, mas que não passaram disso mesmo. Ao que nos foi dito, a intenção não é formar um clube dependente de patrocínios como geralmente acontece no nosso país. Pelo contrário. O que se pensa é criar fontes de receitas próprias e assim poderem trabalhar sem grandes sobressaltos. 

Uma história de várias décadas

O Clube Académica Social Escola (vulgarmente conhecido por Escola do Zangado) foi fundado a 3 de Fevereiro de 1963 por amantes do desporto e jogadores de clubes da baixa e dos musseques de Luanda daquela época.O Campo dos CTT (vulgo Campo dos Correios) era a sua base e, no geral, de outras formações do bairro do Zangado. O seu aparecimento deu-se num contexto em que pontificavam equipas de renome, como o Benfica do Marçal, o Académica do Ambrizete, no Sambizanga, o Atlético de Icolo e Bengo, no bairro do Cemitério Novo.

Um grupo de pessoas depressa arregaçou as mangas, juntou vontades, fundou a agremiação, arregimentou jovens praticantes e providenciou equipamento. Em seguida, deu o pontapé de saída com a realização do primeiro jogo de futebol contra o Oriental do Andúri (na altura, campeão do torneio de promoção), em Abril de 1963. O resultado saldou-se numa vitória de 4-,1 a favor do Escola.
Entre as décadas de 1960 e 70, o Escola do Zangado atingiu o auge, muito por conhecer a arte de bem jogar, arrastando multidões. Possuía uma claque barulhenta, no bom sentido da palavra, e jogavam tanto em campos pelados do musseque quanto no mítico Estádio dos Coqueiros.

O brilho de antigas estrelas

O futebol praticado pelo Clube Académica Social Escola, cedo conquistou o coração da população dos musseques e da zona urbana de Luanda. Os dias em que o Escola jogava, eram dias de festa, com o arrastar de gente vinda de todos os cantos de Luanda, ávida de ver e vibrar com os toques de dar inveja das suas estrelas. A habilidade com que construíam os lances fazia inveja a atletas de outros clubes do país. Destes artistas, destacavam-se o estremo esquerdo Joaquim Diniz (Brinca na Areia), Firmino Dias (o pé canhão), Quim Machado (ponta de lança), o defesa central Artur da Cunha (Máquina), o médio central Lourenço Bento, o estremo direito Antoninho “Parte os cornos”, Carvalho Nascimento (lateral esquerdo), e muitos outros.

Apesar de naquela altura jogarem sem qualquer recompensa material, os futebolistas entregavam-se de corpo e alma para felicidade dos amantes da modalidade, o que levou alguns dirigentes de clubes nacionais e estrangeiros a contratarem-nos: Lourenço Bento foi para o Futebol Clube de Luanda, Artur da Cunha transferido para o Ara da Gabela. Mas foi Joaquim Diniz quem atingiu o patamar mais elevado ao ingressar no ASA e, posteriormente, no Sporting e Futebol Clube do Porto de Portugal, chegando mesmo a representar a selecção de honras daquele país europeu.

Diniz, a marca da agremiação

Joaquim Dinis, o Brinca na Areia, é uma figura carismática do memorável clube do Marçal, muito por levar o seu nome para fora do país. Dinis começou a carreira aos 13 anos de idade, jogando futebol no Marçal, o bairro que o viu nascer. Pernas arqueadas, corpo franzino, boa altura, drible aturado, velocidade, engodo pela baliza eram os seus principais atributos. Por esses requisitos, foi levado por um colega da Escola Comercial a testar na equipa do ASA. Na altura com apenas 15 anos, chegou, viu e venceu.

Ficou no escalão de juniores e, dois anos depois, apesar da idade, é promovido ao escalão de seniores, onde se torna numa das melhores unidades do conjunto. Os "olheiros" logo notaram a qualidade do garoto. Não demorou a ingressar no Sporting Clube de Portugal, tendo, ao serviço daquela equipa, conquistado dois títulos de campeão e duas Taças de Portugal. Representou as Selecções de Esperanças e de Honras daquele país. Dinis regressou a Angola depois da independência, com 28 anos, e voltou a fazer alguns jogos pelo seu inesquecível Escola. Representou a Selecção de Angola e terminou a carreira ao serviço do Clube 1º de Agosto.