Jornal dos Desportos

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Reportagens

Convocados do Huambo falam da primeira Selecção Nacional

17 de Junho, 2015

São Tomé e Príncipe, mas que acabou por não se disputar, o conjunto nacional como recurso, defrontou uma equipa de santomenses residentes no país

Fotografia: Jornal dos Desportos

Arlindo Leitão, Manecas, Zeca e Mascarenhas foram jogadores que desde os primeiros anos da Independência Nacional, sempre estiveram presentes na formação das primeiras selecções nacionais, que representaram o país. Na edição de 4 de Julho, o Jornal de Angola inseriu entrevistas com esses convocados do Huambo para a Selecção Nacional, que tinha  compromisso com a selecção de São Tomé e Príncipe, mas que acabou por não se disputar, o  conjunto nacional como recurso, defrontou uma equipa de santomenses residentes no país, de que retiramos alguns extractos.

LEITÃO: Há uma província que neste momento domina o futebol de Angola:Luanda. Acho justo, portanto, que para já seja Luanda a base da Selecção. Isso, claro, devido aos vários problemas que afectaram o país. Ainda em minha opinião, acho que há jogadores aproveitáveis no Huambo, Benguela e Lubango que podem vir a ser escolhidos.

MASCARENHAS: Fiquei admirado com a forma como se fez a convocatória, foi numa reunião entre o camarada Nicolau e elementos do Huambo. Disseram-nos que a característica fundamental da equipa era política e não competitiva. Que cada província ia fornecer quatro elementos. Como acho que não há grandes disparidades de valores, considerei que desse modo não se feriam susceptibilidades. Isso acabou por não se verificar, embora eu aceite o ponto de vista do seleccionado -treinador. Se agiu como agiu deve saber o que está a fazer, embora tenha entrado em contradição, pelo menos aparentemente, com o que foi estabelecido pela Direcção Geral da Juventude e Desportos.

ZECA: De facto, devia ter-se cumprido o que estava estabelecido, pois a província da Huíla dispõe de elementos valorosos.

MANECAS: A Selecção da Huíla não estava representada no Huambo, mas todos sabemos que nas zonas libertadas ainda existem problemas, que não se podem solucionar com a rapidez que se deseja. Não considero aceitável, portanto, que não se tenha convocado jogadores da Huíla, só por causa dessa falta de comparência. Há jogadores que não fizeram parte dos quadrangulares e apareceram na Selecção. Verifiquei, aliás, através de uma entrevista do seleccionador -treinador em que tenta demonstrar-nos, que para além do aspecto desportivo, interessa o aspecto político. Todos sabemos que era possível a representação das quatro  províncias sem haver grande desnível na Selecção. No entanto, aceita-se a teoria do critério adoptado, pois só na prática se podem corrigir os defeitos.

FIGURA
JORNALISTA DESPORTIVO
GERALDO QUIALA


Geraldo Quiala é um dos rostos do nosso jornalismo desportivo. Jornalista da Agência de Notícias Angop, é no Desk Desportivo onde "cresceu" e se tornou no profissional maduro que é hoje. Também dá uma perninha no dirigismo desportivo, fazendo de momento parte do elenco directivo da Federação Angolana de Andebol. É a nossa FIGURA de hoje em "Angola 40 Anos". O seu pensamento sobre o que tem sido o nosso desporto e que caminhos deve desbravar está expresso nas linhas que se seguem.
Onde estavas no dia 11 de Novembro de 1975?
Não estava nascido. Devia estar sim nos pensamentos e planos dos meus pais. Pois, com a independência a esperança era maior em proporcionar uma vida melhor aos filhos. Nasci um pouco depois, mas sei que já estava nos planos dos meus pais.

Que acontecimento desportivo mais lhe marcou nestes 40 anos de independência que o país assinala?
 Nestes 40 anos de independência, desportivamente falando, tenho acontecimentos que me marcaram bastante. Difícil escolher o mais importante. Porém, o apuramento de Angola no Mundial FIFA 2006 foi de facto marcante. Não só pela estreia dos Palancas Negras, mas principalmente por ter feito parte da caminhada. Vivi de perto os problemas da Selecção Nacional, as artimanhas adversárias para tirar Angola do Mundial. Nunca vi algo semelhante à chegada dos Palancas Negras depois do apuramento em Kigali. Vendo imagens da independência, a 11 de Novembro de 1975, embora sejam a preto e branco, em Outubro de 2005 o país parou para receber os seus heróis do Rwanda. Nunca vou esquecer esse momento. Outro marcante foi a estreia, de facto, na Alemanha. Depois destes que citei, posso igualmente assinalar as conquistas do andebol e do basquetebol.

O que gostava que tivesse acontecido no nosso desporto, mas que no entanto não aconteceu nos 40 anos em que o país está independente?
Depois da independência, gostaria de ver muitos projectos sair do papel e colocados em prática. No futebol, já deveria haver condições para a criação da Liga de Clubes. Deveria haver maior aposta no fomento de escolas de formação para sustentar o futuro dos clubes e das selecções nacionais. Teríamos neste momento uma base sólida de talentos. O combate à corrupção no desporto. O que se vê hoje nos nossos campos, embora haja alguma melhoria em muitos sectores também, não precisa de Replays para se desconfiar que algo funciona mal. Já deveríamos sair do estágio "dirigentes desportivos" para "gestores desportivos". As infra-estruturas deveriam ser rentabilizadas e não transformadas em betão abandonado, entregues a outros fins, menos ao desporto. As pessoas deveriam servir o desporto e nunca o contrário. Em Angola, o desporto já deveria ser uma máquina de fazer dinheiro, uma verdadeira indústria. Mas a realidade mostra que aqui desporto é sinónimo de despesas, gastos apenas. Todos esperam do dinheiro do Estado para enriquecer e quase nada fazem para multiplicar ou duplicar o orçamento para o bem do desporto. Temos potencial para mudar o rumo do desporto em Angola, mas tudo passa pela mudança de mentalidade do nosso "dirigente desportivo", que deveria pensar e agir como "gestor desportivo".

Como jornalista de reconhecida classe como avalia o seu contributo no desenvolvimento do nosso desporto?
De uma forma geral, sinto-me impotente por não ter feito mais do que devia para o crescimento desportivo do país. Mas, dentro das limitações possíveis, fiz alguma coisa. Em termos jornalísticos, levantei algumas discussões, com sugestões em fóruns próprios, embora no momento não tivessem sido levadas em consideração, apesar de poucos anos mais tarde ter-se confirmado o que se defendia. Refiro-me a questões ligadas com a adulteração de idades, um fenómeno que vem de longe; a necessidade de promover os escalões de formação em todas modalidades; discutimos diversas vezes em congressos formas de acudir e sair da actual situação menos favorável para o desporto angolano; promoção do futebol feminino, sobretudo na década de 90.





Fui pioneiro na organização daquelas maratonas matinais aos sábados na capital do país e que mais tarde, com mais de 40 equipas e dois escalões, foi entregue à APF de Luanda. Com muita mágoa, observo o desaparecimento do futebol feminino. Vejo com tristeza o desaparecimento de muitos campos, hoje transformados em lixeiras, e outros interesses. Enfim, sinto que fiz pouco, embora reconheça que posso fazer muito mais. Aliás, só por isso empresto o meu pouco saber ao andebol nacional. O que não serviu para o futebol, digo com toda franqueza, serve hoje para o andebol. Sinto que há modalidades que podem servir de modelo para que todos saiamos a ganhar. A comunicação social tem uma palavra importante a dizer no processo de desenvolvimento desportivo do país. E deve jogar o seu papel na divulgação, mudança de mentalidade, e trazer ao debate tudo que tem a ver com o bem do desporto em Angola