Jornal dos Desportos

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Reportagens

Danny moldado a goleador

Manuel Neto - 20 de Março, 2010

Danny Angunyo, jogador zambiano do 1º de Agosto

Fotografia: Jornal dos Desportos

"Ganhei forças para fazer golos"
Danny Angunyo, jogador zambiano do 1º de Agosto, luta pela conquista da "bota de ouro" do Girabola´2010, cinco anos depois de desembarcar no Rio Seco. A revelação foi feita em entrevista a este jornal momentos antes da partida para o Mali, onde a equipa angolana defronta o Olympic local. O jovem polivalente diz não ter sido fácil adaptar-se ao futebol angolano, porque "desconfiava de toda a gente". Hoje, mantém o sonho de ingressar na selecção do país natal, porque quer vestir e sentir na alma as cores da bandeira. Quanto ao nível do futebol zambiano, Danny diz que está a regredir, enquanto o de Angola está numa posição vantajosa.

Marcou os golos da vitória sobre o Petro de Luanda e na terceira jornada do Girabola já vai com dois. É prenúncio da conquista da bota de ouro?
Os três golos que marquei contra o Petro de Luanda têm-me motivado bastante para os jogos que enfrento, sobretudo, por terem sido marcados na baliza de uma grande equipa, que é o Petro de Luanda, e resultou na conquista da Super-Taça. Desde aquele momento, ganhei motivações e forças para fazer golos em qualquer jogo. Estou consciente que devo trabalhar bastante, porque existem muitos jogadores interessados nesse troféu.

Depois de um início brilhante, a equipa baixou de rendimento.
Concordo consigo. Baixamos um pouco de rendimento, mas não vamos chorar pelo leite derramado. Temos um bom grupo de trabalho, continuamos a lutar para que, nos próximos jogos, saiamos vitoriosos. Acredito que será possível. Aliás, ainda temos muitos jogos pela frente e apelo aos adeptos do 1º de Agosto a ficarem calmos.

Que avaliação faz do ambiente no 1º de Agosto, durante os cinco anos como ‘residente’?
Desde o primeiro dia, fui bem recebido quer pela equipa técnica, quer pela direcção, assim como pelos adeptos, que puxam muito por mim em qualquer campo. O ambiente é dos melhores e desse modo, o clima só me leva a dar o meu máximo para o bem do clube.

Teve de se empenhar muito para se adaptar ao futebol angolano ou teve de fazer apenas meros ajustamentos?
Foi muito difícil, porque nada sabia sobre Angola, naquela altura, sobretudo, a cultura do povo, via a vida cada vez mais difícil. Durante os treinos não conseguia comunicar-me com os colegas e desconfiava constantemente de toda a gente que conversava entre si. Perante o triste quadro, no ano seguinte, resolvi regressar ao meu país. Aconselhado por alguns colegas, fiz uma melhor reflexão e conclui que o futuro dependia de mim. Foi assim que comecei a esforçar-me cada vez mais e hoje tudo virou felicidade.

É bem pago?
Sim, porque o que recebo dá para sobreviver e ajudar a minha família na Zâmbia. Não tenho nada a reclamar nesse aspecto. O 1º de Agosto é uma grande equipa e deve ser exigente com todos. Quando um atleta cumpre os seus deveres, a direcção também procura fazer a parte reservada para o bem dos atletas e do clube.

Já recebeu algum convite de uma outra equipa?
Já fui convidado por várias equipas (não adianta citar nomes), mas tudo ficou por um fio de conversa. Devo adiantar que, no ano passado, deveria transferir-me para o Interclube, mas à última hora desisti e preferi continuar no 1º de Agosto até ver, porque as condições que oferece ainda me satisfazem.
Joga habitualmente no extremo direito, mas na época presente está a ser adaptado a ponta-de-lança.

Como se sente nesse lugar?
Sou extremo de raiz, mas jogar como ponta-de-lança não é novidade. No meu primeiro ano, no 1º de Agosto, fiz cerca de cinco jogos nessa posição e, um ano depois, variei, ou seja, jogava como extremo-direito ou esquerdo e como ponta-de-lança. Com a lesão do Bena e do Love Cabungula, o treinador pediu-me para voltar a jogar como ponta-de-lança. Julgo que a minha actuação é feita com certa normalidade e nos próximos dias será melhor. É só uma questão de paciência.

"Futebol angolano
está no bom caminho"

Qual é a avaliação do estado de futebol angolano?
Está num bom caminho. Com o aumento do número de equipas no Girabola, o que perfaz um total de 16, creio que vai ser cada vez mais competitivo e vão surgir jogadores com boas qualidades para representar qualquer equipa em África e no mundo. Há talentos que vão sair deste campeonato. Apelo às pessoas de direito para prestarem mais atenção às camadas de formação, por serem o futuro da selecção sénior.

Está a querer  dizer  que há pouco investimento nas camadas de formação?
Não é isso. Apesar de não assistir constantemente ao futebol jovem, nos poucos jogos que assisto, noto pouco apoio a essa franja importante para o desenvolvimento de qualquer equipa. Os clubes que trabalham razoavelmente nesses escalões são o 1º de Agosto, Petro de Luanda e algumas escolas, com particular realce para a JocaSport e Norberto de Castro. Desse modo, apelo às entidades de direito para se trabalhar mais nessa faixa etária, para o engrandecimento do futebol angolano, aproveitando, da melhor maneira possível, os campos e os estádios construídos para o CAN´2010.

Quanto ao dirigismo no futebol angolano, o que se lhe oferece comentar?
Não gosto falar muito sobre isso, mas ainda assim, acredito nalguns dirigentes, sobretudo, naqueles que têm passado pelo 1º de Agosto. Aliás, nunca tive problemas com dirigentes, quer dentro do clube, quer fora. Por isso, sempre fui bem sucedido e não tenho razões de queixa.

Como avalia a adesão do público aos campos?
Está a mudar para melhor, sobretudo, após a realização do CAN. Antigamente, apareciam poucos espectadores. Espero que continuem a comparecer em massa nos campos, como aconteceu no "Africano", para motivação dos atletas e o engrandecimento da festa da bola.
Estreia-se nas Afrotaças neste fim-de-semana.

Qual é o vaticínio do jogo entre 1º de Agosto e Olimpyk do Mali?
Não conheço bem o adversário, mas vai ser um jogo difícil. Nos dias de hoje, já não existem equipas fracas. Vamos trabalhar arduamente para jogarmos com cautelas, no sentido de fazermos um bom resultado, que passa por uma vitória.

"O sonho ficou por terra"

Na Zâmbia, jogou sempre nas equipas da primeira divisão?
Sim. Pertencia a uma equipa militar, afecta à Força Aérea da Zâmbia. Estive sempre na divisão de honras, na qual tencionava jogar ao mais alto nível numa equipa estrangeira. Felizmente, surgiu o convite do 1º de Agosto e, pela boa proposta apresentada, não vacilei. Hoje, encontro-me aqui a dar o meu contributo para a felicidade de todos que me acompanham, com destaque para a minha família.

Algum dia foi chamado à selecção da Zâmbia?
Desde que abracei o futebol, nunca tinha sido convocado. Ouvia alguns comentários sobre a minha convocação. Este ano, o convite foi feito por telefone e orientei a Federação da Zâmbia para que a oficializassem por escrito no sentido da Federação Angolana de Futebol e o 1º de Agosto terem conhecimento, mas infelizmente a Federação zambiana não cumpriu. Mais uma vez, o sonho ficou por terra.

Ainda tem esperança de jogar pela selecção?
Sim. O sonho mantém-se vivo, porquanto todo o atleta profissional luta para um dia ingressar na selecção do país. Não fujo à regra, continuo a trabalhar arduamente para merecer a oportunidade de vestir as cores do meu país pelo menos uma vez.

Visita regularmente a Zâmbia?
Sim. No final de cada época, visito os meus familiares. Todos vivem lá.

Como tem sido a recepção?
Sempre que nos encontramos pessoalmente ou falamos por telefone, apoiam-me moralmente para continuar a dar tudo de mim, porque do meu sucesso também depende a melhoria das condições sociais deles.

"Futebol zambiano
está estagnado"

Que avaliação faz do futebol zambiano?
Está a regredir e não se pode equiparar com o futebol angolano, porque o de Angola está a um nível mais avançado, enquanto o zambiano se encontra estagnado por glórias do passado, concretamente, dos anos 70 e 90. A Zâmbia não tem um estádio de grande porte, que abarque grandes jogos internacionais. Esta falta prejudica o desenvolvimento do nosso futebol. Apesar de termos bons atletas, por causa disso, a maior parte acaba por abandonar mais cedo, pelo facto de não ver o futuro com bons olhos nesse desporto.

Um comentário sobre a exibição da Zâmbia no CAN-Orange´2010...
Fez uma boa exibição, o que não basta. O mais importante seria conseguir bons resultados que justificassem o bom momento de forma do grupo e a conquista de lugares cimeiros nas competições africanas.

África está
no bom caminho

Como avalia o futebol africano no seu todo?
Está em franco desenvolvimento, fruto do investimento dos países da África branca, nomeadamente, Egipto, Tunísia e Argélia, que apresentam um futebol do tipo europeu, resultante das boas condições de trabalho, das infra-estruturas e ainda da aposta nas camadas de formação. Isso não acontece com outros países do continente.

Que apreciação teve do CAN-Orange´2010?
Foi um dos melhores que já assisti em África, tendo em conta a grande capacidade organizativa e o trabalho feito em infra-estruturas, nomeadamente, vias de circulação e estádios. Lamentamos o incidente que aconteceu com a equipa do Togo, que poderia estragar a festa, mas felizmente tudo correu bem. O futebol africano saiu a ganhar.