Jornal dos Desportos

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Reportagens

Das pistas à lavra

Sardinha Teixeira - 11 de Novembro, 2010

Isabel Domingos André está esquecida no historial do atletismo angolano

Fotografia: Nuno Flash

Para essa apaixonada, não importaram as dificuldades, as barreiras e as distâncias. Nas pistas de atletismo dentro e fora do país, Tia Belita promoveu o amor do povo angolano pelo desporto. Como ela mesmo disse, “a bandeira do país é o que move todo o desportista a superar metas e marcas. É um símbolo que desperta sentimentos e que mexe com o coração de todos nós. Cada assinatura nessa bandeira vem com uma carga histórica. Significa o reconhecimento de todo o esforço e trabalho do atleta”.

O destino a pôs nas mão do treinador Ângelo Nunes, que soube ter a paciência e sensibilidade para transformar um diamante bruto em uma jóia preciosa. Isabel André, ou simplesmente, Tia Belita transformou-se numa máquina perfeita de devorar pistas. Ela não só ganhou o ouro e a prata, mas também causou o maior alvoroço batendo sempre novos recordes. Velocista dos 100, 200 metros e ainda, especialista de salto à distância, Isabel André, além de ser uma heroína desportiva, sempre mostrou sua virtude como ser humano.

Tia Belita era excepcionalmente veloz e alta. Ganhou as provas por sua inteligência e graça, pelo seu estilo e suas reacções rápidas. Durante a sua carreira desportiva, Isabel André, ergueu a bandeira de Angola no Mundial de 82, na Espanha, bem como, noutras competições realizadas na RCA; ex-RDA e URSS, Portugal, etc., trazendo consigo na bagagem medalhas de prata e bronze.

Interrogada sobre o que falta para o país ter mais atletas de qualidade, ela afirmou que, “ o que falta é incentivo. Já existem trabalhos nessa área, inclusive no atletismo, mas ainda é pouco. Acredito que o desporto é uma boa ferramenta para a educação e inclusão social”, disse. Mais adiante acrescentou que, “ quando o desporto entra na vida de uma criança ele trás muitos benefícios.

O desporto actua eficazmente na área da saúde, educação e até na segurança pública. São muitos os benefícios para o poder público, o que faz acreditar que é necessário investir nessa política, formar campeões não só do desporto, mas da vida. Está faltando então é implantar mais escolas e investir na base. São lacunas muito grandes, diferentes do que acontece no futebol. O segredo do futebol está nas escolinhas de base. Isto é o que falta no atletismo”.

Tia Belita considera que o país tem bons nomes no atletismo e com futuro promissor. “O atletismo é um desporto que necessita de pouco recurso para ser praticado, um ténis, um shorts e uma camisola. São poucas as exigências. Acima de tudo é necessário a força de vontade. As crianças gostam da dinâmica do atletismo”, sublinhou. Na verdade, a atleta deixou as pistas no auge da sua carreira. Tudo porque não via nada para além dos troféus. “ Eu passei por situações difíceis. Sentia fome.

O desporto na época não rendia nada. O Petro Atlético, meu clube; de promessas não passava. Então tomei a decisão de trabalhar com o atletismo de outra maneira. Abandonei e fui para o campo”, disse. Hoje, fora das pistas, a ex-atleta do Petro de Luanda, trabalha como agricultora no Icolo Bengo, e sente ainda saudades da falta de competitividade que o desporto lhe proporcionava. “Sempre gostei de competir e ser a melhor”, acrescentou.

A ex-atleta deixa um conselho para atletas sobre o doping: “um bom atleta deve cuidar da sua saúde e se manter longe de substâncias que caracterizem doping. Já para as crianças eu aconselho a não entrarem no mundo da droga. Porque a educação e o desporto são meios para vencer na vida”. Recorde-se, que a atleta antes de ingressar no Petro de Luanda, correu pelos clubes, 1º de Agosto; CDUA, Sporting de Luanda e Interclube.