Jornal dos Desportos

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Reportagens

De adeus em adeus...

17 de Novembro, 2009

revelação do número um mundial da indústria automóvel, Toyota

Fotografia: AFP

A debandada começou a 4 de Dezembro de 2008 e, paulatinamente, o número de desertores foi aumentando até à revelação do número um mundial da indústria automóvel, Toyota. Em menos de um ano, a Honda, BMW e Toyota, três dos mais destacados fabricantes, deixaram a F-1, devido à crise económica, a disciplina mais mediática do desporto automóvel, mas não foram os únicos, num cenário de grande recessão. É que também a japonesa Bridgestone, nos dois últimos anos fornecedor único de pneus da Fórmula-1, anunciou que se retira no final de 2010 quando expira o actual contrato com a Federação Internacional de Automóvel (FIA).
Para a FIA, a necessidade de reduzir os custos e de se focar no seu negócio estratégico (fabrico e venda de automóveis) está longe de constituir uma justificação convincente da Toyota.
Desde há algum tempo que se desconfiava da possibilidade de o gigante nipónico, em busca de uma vitória na F-1 desde 2002, seguir o exemplo da Honda e da BMW. Em Julho, a Fuji International Speedway, do grupo Toyota, renunciou à possibilidade de a partir de 2010 receber o GP do Japão no seu circuito de Mont-Fuji, depois cancelou o contrato de fornecimento de motores à Williams, rejeitou fazê-lo a qualquer outra equipa e no fim da época de 2009 não renovou contrato com nenhum dos seus pilotos: Trulli e Glock.
O líder mundial da indústria automóvel garantiu que os fracos resultados da sua equipa de Fórmula-1 não estão relacionados com a decisão do abandono. Um responsável da Toyota assegurou que a decisão não seria diferente se a equipa tivesse ganho a competição em 2009.
Fontes oficiais do maior construtor automóvel do mundo consideraram o abandono da Fórmula-1 definitivo, considerando improvável um regresso a esta competição quando e se as condições do sector melhorarem.
Com os últimos abandonos, apenas três construtores automóveis, nenhum japonês, mantém equipas próprias na Fórmula-1: a Ferrari, a Mercedes e a Renault.

CRONOLOGIA DE ABANDONO

HONDA. A 4 de Dezembro de 2008, no auge da crise económica mundial, a Honda anuncia o seu abandono da Fórmula-1, acabando por vender a equipa ao seu director, Ross Brawn, sem alcançar os resultados que sempre havia ambicionado, depois de ter investido fortemente durante vários anos.
SUZUKI. Em 16 de Dezembro de 2008, ao fim de dois anos no escalão principal do Mundial de Ralis, com o Swift 4WD, decidiu retirar-se por razões económicas, depois de terminar o campeonato na quinta posição, com Per-Gunnar Andersson e Toni Gardemeister.
SUBARU. Uma das marcas mais emblemáticas dos ralis anunciava, um dia depois da Suzuki, um ponto final nos 20 anos de ligação à disciplina, na qual conquistou seis títulos mundiais. Entre muitos outros, teve ao seu serviço pilotos como Markku Alen, Juha Kankkunen, Colin McRae, Carlos Sainz, Tommi Makinen ou Petter Solberg.
MITSUBISHI. Com fortes tradições no mundo do TT (todo-o-terreno), em 4 de Fevereiro de 2009, a Mitsubishi revelou a sua retirada das competições e que já não participaria tanto na Taça FIA de TT como no Dacar, prova em que obteve 12 vitórias, sete das quais consecutivas.
BMW. Contra todas as expectativas, apesar dos resultados bastante modestos alcançados desde o início de 2009, em 29 de Julho, o construtor alemão dava a conhecer que iria abandonar a Fórmula-1, poucos anos depois de ter adquirido a Sauber, com o objectivo de se afirmar de “corpo inteiro” na disciplina máxima do desporto automóvel.
BRIDGESTONE. Chegou à Fórmula-1 em 1997 para combater a supremacia da Michelin na Europa e depois de o construtor francês se retirar, em 2007, passou a ser fornecedor único das equipas, com contrato até ao final de 2010. A 2 de Novembro último, deu a conhecer que não continuaria depois daquela data, alegadamente, por questões económicas e também para centrar recursos no desenvolvimento de novas tecnologias.
TOYOTA. A equipa de Fórmula-1 resistiu até onde foi possível, face a sete anos de fortes investimentos, sempre na linha dos mais elevados da disciplina, sem qualquer retorno em termos de resultados, já que não somou uma única vitória. Os fracos resultados industriais ditaram o... inevitável.

Federação Internacional
estuda processar Toyota

Terminou a epopeia da Toyota na Fórmula-1. A decisão da quinta classificada no Mundial de construtores da competição não é pacífica. A Federação Internacional de Automóvel (FIA) ameaça interpor uma acção judicial, tendo vindo a público pedir uma “clarificação urgente” à marca japonesa, pois há poucas semanas a Toyota tinha-se comprometido a permanecer na Fórmula-1 até 2012.
A FIA deseja uma “posição legal sobre o campeonato”, afirmando, em comunicado oficial, que o abandono da Toyota pode ter um efeito directo “na entrada de uma 13ª equipa”.
A opção da multinacional nipónica, segundo a FIA, relança, uma vez mais, a necessidade de estabelecer um tecto orçamental, algo que desagrada à maioria das equipas e que causou bastante contestação durante a época recém-terminada. Inclusivamente, as equipas chegaram a pensar em criar um campeonato alternativo.
A acção judicial pensada pela FIA tem como base o Acordo da Concórdia, pacto assinado há algumas semanas pela FIA e pelas equipas. Nesse documento, é claro que se alguma equipa se retirar antes de 2012 incorre numa ilegalidade.

GASTOS MILIONÁRIOS PARA... NADA

Foi em 2002 que a Toyota, o número um da indústria automóvel mundial, decidiu envolver-se de corpo e alma na Fórmula-1, tendo colocado um ponto final na sua bem sucedida longa carreira no Campeonato do Mundo de Ralis.
E desde a primeira hora que a estrutura sediada nos arredores da cidade alemã de Colónia, até então o seu “quartel-general” dos ralis, dispôs de elevados recursos financeiros para formar uma equipa (engenheiros, mecânicos, pilotos, etc.). Se é verdade que nunca faltou o essencial (dinheiro), o mesmo não se pode dizer da gestão operacional, cujos resultados, em sete anos (139 GP), se traduziram em zero vitórias, três pole positions, três voltas mais rápidas e um total de 278,5 pontos conquistados. Demasiado pouco para uma das equipas que chegou a ter orçamentos históricos na Fórmula-1. Só em 2008 investiu 300 milhões de euros (cerca de 38,4 biliões de kwanzas) em busca da vitória.
Quanto a pilotos, não hesitou, por exemplo, em dar 13 milhões de euros (cerca de 1,7 biliões de kwanzas) por ano a Ralf Schumacher.

Sauber ocupa vaga

Com o adeus da BMW, Peter Sauber fez todos os possíveis para manter em actividade a sua antiga equipa com a ajuda, também, do construtor germânico, nada interessado em deixar no desemprego mais de três centenas de colaboradores.
O aparecimento de um investidor, neste caso a fundação suíça Qadbak Investments, representante dos interesses de diversas empresas do Médio Oriente sedeadas em território europeu, que chegou a acordo com a BMW para a compra da equipa, foi o primeiro passo, mas restava o seguinte: garantir o lugar no plantel do Mundial-2010.
A Federação Internacional de Automóvel havia já dado “luz verde” à entrada de novas equipas (Campos, Manor, Lotus e USF1) para um total de 14. O adeus da BMW veio complicar tudo, mas o da Toyota não. “A saída de uma equipa é a maneira mais fácil de entrarmos”, disse Mario Theissen, ex-director da BMW.

Novas equipas em 2010

Campos/Meta: Liderada pelo ex-piloto Adrian Campos e sediada em Múrcia, torna-se na primeira equipa espanhola na história da Fórmula-1. Já assegurou os serviços de Bruno Senna, sobrinho do malogrado Ayrton Senna.
Manor/Virgin: Com um historial de sucesso nas classes de promoção, como a Fórmula-3, na qual fez alinhar Lewis Hamilton, tem assegurado o patrocínio da Virgin e assinou contrato com o brasileiro Lucas di Grassi.
LOTUS: É a partir da Malásia que Tony Fernandes (filho de mãe portuguesa de Malaca), o proprietário da Air Asia, com financiamento local, procura relançar uma das equipas mais emblemáticas da Fórmula-1.
USF1: Nascida nos Estados Unidos, sob a batuta de Peter Windsor e Ken Anderson, vai ter a sua base operacional no complexo de Motorland, em Alcañiz (Espanha).