Jornal dos Desportos

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Reportagens

Desporto tambm contribuiu para a independncia do pas

Avelino Umba - 11 de Novembro, 2010

Aps a independncia, o primeiro Governo da Repblica Popular de Angola

Fotografia: Jornal dos Desportos

O desporto angolano esteve sempre de mãos dadas às canções revolucionárias, contribuindo, desta forma, para a Independência do país.O futebol, em particular, sem descurar outras modalidades tais como o andebol, basquetebol, atletismo, xadrez, entre outras, era a que mais aglutinava as pessoas de todos os extractos sociais, aproveitando, desta feita, para manifestar o seu desagrado pela forma como eram descriminadas.

Após a independência, o primeiro Governo da República Popular de Angola, presidido pelo seu primeiro Presidente, António Agostinho Neto, ao abrigo da Lei nº 72/76 de 23 de Novembro, no seu artigo 2º, cria o Conselho Superior de Educação Física e Desportos, tendo como Secretário Nacional, o professor Rui Alberto Vieira Dias Mingas.

Ao abrigo da Lei nº 7/79, no seu artigo 2º foi extinto o Conselho Superior de Educação Física e Desportos, dando lugar a Secretaria de Estado de Educação Física e Desportos que funcionou até 1989, tendo sido nomeado Secretário-Geral o senhor Rui Alberto Vieira Dias Mingas.

A 11 de Fevereiro de 1989, ao abrigo da Lei nº 3/89, no seu artigo 1º, foi extinta a Secretaria de Estado de Educação Física e Desportos e, em sua substituição, foi criado o Ministério da Juventude e Desportos (MINJUD) que trouxe uma profunda alteração orgânica de relevo, consubstanciada na introdução de outra dinâmica que veio dar outro nível ao desenvolvimento do sector. Com este novo estatuto surgiram na direcção do referido Ministério as personalidades que abaixo descrevemos:

1989/1992- Marcolino
José Carlos Moco
1992/1993-Osvaldo
de Jesus Serra Van-Dúnem
1993/1994-Justino José Fernandes
1994/1999-José Sardinha de Castro
1999/2008-José Marcos Barrica
2008-Gonçalves Manuel Muandumba


Não jogávamos pelo dinheiro mas para desenvolver o desporto no país

Lourenço Chilombo, antigo defesa central do 1º de Agosto e campeão nacional recorda que naquela altura os jogadores não tinham como objectivo a conquista de bens materiais mas a satisfação de estar independentes e ter um país desenvolvido a nível do desporto. “Nós não queríamos saber do dinheiro. Como sabíamos que estávamos independentes, era uma alegria tão grande que até esquecíamos que merecíamos prémios e outros incentivos. 

Não nos preocupávamos com o dinheiro, mas em ter um país desenvolvido a nível do desporto porque se notava que naquela altura havia qualidade nos jogadores. Hoje as coisas estão melhores, pois conforme o tempo vai passando as coisas vão mudando mas é notável a diferença entre a vontade de antes e a vontade de agora. A vontade de agora é por alguma coisa que os jogadores querem buscar, mas a vontade de antes era de querer aparecer e dignificar o nosso país.

 O nosso tempo passou e preparamos o caminho para estes que estão agora. Paciência, a vida é mesmo assim e não podíamos ter a mesma sorte que os outros têm hoje. Porque uns construíram para os outros depois viverem, isto é mesmo assim na vida”, recordou o antigo jogador que actualmente trabalha com os escalões de formação do 1º de Agosto.

Na altura com 17 anos de idade, Lourenço Chilombo fala com muita nostalgia daquele tempo em que a Independência Nacional tinha sido conquistada. “São várias recordações. Praticamente foi o início de uma nova Nação que estava a nascer. Foi bom porque nós, que estávamos a vir já de um outro campeonato antes da Independência, viemos com um conhecimento que serviu para dar continuidade ao nosso futebol.

 Muitos de nós que estávamos à espera da Independência não sabiam, mas estávamos afinal de contas a prepararmo-nos para que quando ela chegasse aparecermos bem no nosso futebol. Tenho muitas recordações e foi aqui no 1º de Agosto aonde estou até hoje”, disse visivelmente emocionado com uma lágrima no canto do olho.

A situação politico-militar dificultava a disputa do campeonato, pois não era seguro mas nem com isso os jogadores queriam parar de jogar.“Era difícil jogar naquela altura devido situação política e militar. A maioria das viagens eram feitas de avião e não era muito seguro devido ao risco que representava. Viajávamos com o coração na mão porque o avião podia ser atingido a qualquer altura, mas graças a Deus acabávamos os campeonatos”, defendeu o antigo central.

O surgimento da equipa militar ajudou a impulsionar o futebol angolano devido a competitividade que trouxe ao campeonato naquela altura, segundo Lourenço Chilombo.“Foi muito importante aparecer o 1º de Agosto. Ele foi o impulsionador para o nosso futebol começar a mudar. Se o 1º de Agosto não estivesse tão forte como estava não poderiam aparecer outras equipas naquela altura. Havia muita concorrência porque mesmo aparecendo o 1º de Agosto as outras equipas organizaram-se o que tornou o campeonato competitivo ”, afirmou convicto.

Jesus e Alves, entre outros, foram citados como alguns dos grandes avançados que eram difíceis de marcar pelo antigo defesa central militar. “Havia muitos bons jogadores, como Jesus, o Alves porque ele antes de vir para o 1º de Agosto estava no Benfica, Marques, o Arnaldo Chaves, o Arlindo Leitão e outros. No Porto Alexandre tínhamos muitos bons jogadores que vinham de Portugal. Os defesas têm sempre trabalho e na posição onde eu jogava era difícil não encontrar bons ponta-de-lanças porque eles tinham muita técnica. Sempre tive dificuldades em marcar os ponta-de-lanças porque tinham muita inteligência e muita técnica”, lembrou.

Para ele, as grandes diferenças entre os antigos avançados e os actuais reside na habilidade, pois hoje o futebol é muito táctico.“Há muita diferença entre os ponta-de-lanças de hoje e os do meu tempo porque os de hoje não sabem se posicionar e não poupam os seus esforços. O futebol hoje está muito táctico e há menos habilidade dos próprios jogadores.

 Quando o jogador não sabe compensar e não sabe estar no campo acaba por prejudicar a ele e à sua equipa. Naquela altura era difícil as equipas jogarem apenas com um ponta-de-lança, utilizava-se mais o sistema 4x4x2, não havia praticamente outro sistema. Agora existem vários”, concluiu. “Nós não queríamos saber do dinheiro. Como sabíamos que estávamos independentes, era uma alegria tão grande que até esquecíamos que merecíamos prémios e outros incentivos”.

                                             Jorge Neto


Cumpri a tropa
a jogar futebol


Julião Dias, antigo avançado e campeão pelo 1º de Agosto no primeiro Campeonato Nacional da Primeira Divisão no período pós independência nacional faz um historial daquela que foi a primeira conquista no período pós Independência. “Aquilo foi uma mobilização tremenda por parte da chefia das Forças Armadas, na altura chefiada pelo senhor General França Ndalu, pois, havia necessidade deste órgão de defesa ter uma equipa para que o futebol não morresse porque depois da independência muitos clubes começaram a desaparecer, as equipas ficaram sem direcções, então achou-se por bem formar a equipa central das forças armadas, na altura, estávamos abrangidos pela lei e fizemos a nossa tropa jogando a bola.

Naturalmente fizemos a recruta e depois fomos jogar futebol”, recordou.O antigo avançado afirmou que tinham uma equipa muito forte e que ficaram sem perder durante um ano e seis meses, derrotados depois pela formação do Bangú FC. “Tínhamos uma equipa muito forte e vencemos três campeonatos seguidos.

 Nós inclusive, se não estou errado, fizemos um ano e seis meses sem perder um jogo, tanto a nível nacional como internacional. Acabamos por perder o primeiro jogo com o Bangú FC, que era uma equipa muito inferior ao 1º de Agosto, perdemos 0-2, nos Coqueiros, mas daí não parou e continuamos a praticar futebol. Tínhamos muitos craques, tínhamos grandes jogadores da bola, naquela altura. Tínhamos também os jogadores que vieram do campeonato português, do campeonato do Estado de Angola que era o Mascarenhas, o Chimalanga, o Garcia, o Lourenço, o Napoleão, o Ângelo e outros”, lembrou.

A formação do Nacional de Benguela foi o grande adversário no caminho para a conquista do primeiro título de campeão nacional, numa prova jogada com um sistema diferente do actual.“Jogamos o primeiro torneio da Agricultura, foi praticamente um campeonato para experimentar. Foi provincial, ganhamos o campeonato de Luanda em 1978.

Desta prova, apuraram-se todos os vencedores das províncias, primeiros e segundos classificados para formarmos o campeonato nacional. Formou-se por zonas, Norte e Sul, os vencedores jogaram entre si. O vencedor da zona Sul foi o Nacional de Benguela e o da zona Norte foi o 1º de Agosto. O Leste esteve anexado à zona Sul e foi aí que fizemos o jogo da final, no dia 11 de Novembro, na Cidadela, onde ganhamos por 2-1, ao Nacional de Benguela e fomos o primeiro campeão de Angola depois da Independência”, disse o antigo lateral.

Os grandes adversários também não foram esquecidos. Lembra igualmente dos quatro jogos disputados com a TAAG numa competição muito renhida. “Era a antiga equipa da TAAG, actualmente ASA, o Nacional de Benguela, o Sporting de Luanda, e o Progresso Associação do Sambizanga, mas estas equipas acabaram por ficar no decorrer do campeonato, porque só eram apuradas duas, e foi o 1º de Agosto e a TAAG. Disputamos quatro partidas, duas vezes em Luanda e duas no Lubango.

 Ganhamos a primeira vez em Luanda, perdemos a segunda, fizemos a terceira partida no Lubango e ganhamos, depois viemos para Luanda para decidir quem seria o vencedor do grupo, posteriormente o campeonato nacional e ganhamos a TAAG por 3-1, naquela altura com Jujú, Juca, Rui Gomes e outros”, disse Julião Dias.

Ainda ligado ao clube militar o antigo jogador afirma que tinham uma equipa muito forte que era o suporte da selecção nacional.
“Na altura o 1º de Agosto tinha uma grande equipa, muito forte, a selecção nacional convocava 13 jogadores do 1º de Agosto. A nossa equipa titular era formada por Napoleão, Manico, Lourenço Garcia, Mascarenhas, Mateus César, Zeca, Chimalanga, Sabino, Luvambo, Ndunguidi e eu. Tínhamos uma equipa que dava para o treinador dormir descansado”, pontualizou. 

Naquela altura não recebiam prémios de jogo mas o amor à camisola era tão grande que fazia esquecer esta situação, somente mais tarde começaram a ganhar alguma coisa. “Não havia prémios. Era amor à camisola, depois da Independência então é que não havia mesmo nada. Depois do jogo, almoçávamos e cada um ia para a sua casa, não havia salário.

 Dia seguinte regressava-se aos treinos e começava tudo de novo. A partir de 1981, começou a aparecer um dinheirozito, um     salário, na altura eram seis mil kwanzas, que não era pelo futebol, mas sim, pela tropa, os outros clubes não tinham nada. Depois de fazer o terceiro campeonato eu vou para o Huambo, sou contratado pelo Mambrôa e aí já havia qualquer coisa”, lembrou.

O avançado recorda que fez muitos golos mas que nunca foi consagrado como melhor marcador porque havia outros jogadores com mais faro de golo. “Fiz muitos golos, não me lembro quantos mas foram muitos. O Alves ganhou a bola de prata e de seguida o Ndunguidi, o Barros e eu, a nossa equipa ficou na frente com os quatro melhores marcadores.

 Mais golos marquei também quando fui para o Huambo, no campeonato de 1982, fiz 20 golos e não fui o melhor marcador. O João Machado com vinte e tal golos foi o melhor marcador. Num outro campeonato marco 19 golos e não fui o melhor marcador, foi o Maluca. Houve um outro, em que saio em segundo com menos um golo do que o Jesus. No nosso tempo faziam-se muitos golos não é como agora que se fazem poucos golos e não eram só os avançados toda a gente fazia golos”, recordou.

Alguns defesas marcaram o antigo avançado. A par disso, afirmou que aquela foi uma altura muito difícil devido às condições em que tinham de viajar e até mesmo jogar. “Sim, havia o Jujú, o Chico Afonso, o Santo António. Mas foi doloroso jogar naquela altura, é uma fase para esquecer. Quando jogava pelo 1º de Agosto nós tínhamos uma certa facilidade em viajar para as províncias. 

Havia o avião militar, uma vez fomos jogar ao Cunene e houve tiros depois, e chegamos a pensar que a nossa tropa iria começar ali, felizmente tudo correu bem, conseguimos sair de lá e voltamos para casa. Fomos ao Kuando-Kubango e outras províncias que estavam numa má situação. Quando eu jogava no Huambo e tínhamos um jogo em Benguela, primeiro tínhamos que vir para Luanda e só no dia seguinte viajávamos para Benguela que é ali bem próximo do Huambo. As vezes passávamos todo o dia no aeroporto e o voo estava cancelado. Não foi fácil naquela altura”, defendeu.

Apesar disso, afirma que valeu a pena pelo esforço e agradece a Deus por ninguém ter morrido por aqueles acontecimentos.
“Hoje são outros tempos, já passou. Não vamos aqui chorar pelo leite derramado. Ninguém morreu na guerra, todos estão aí, os que morreram, morreram por outros motivos graças a Deus. Foram 35 anos, hoje continuo no futebol e tenho fortes recordações deste período. Valeu a pena”, finalizou Julião Dias.