Jornal dos Desportos

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Reportagens

Despromoo provoca inquietao aos adeptos

Jlio Gaiano, em Benguela - 03 de Dezembro, 2009

despromoo das equipas benguelenses do Girabola

Fotografia: Jornal dos desportos

O clima é de pura tristeza. Ninguém quer acreditar, mas a verdade está patente e não há como negar. Em 2010, a província de Benguela vai estar ausente do Girabola. “Parece anedota”, como reconhecem os prosélitos da bola. Os benguelenses vão estar longe dos acontecimentos do Girabola.
Quem diria! A coisa está feia do lado das direcções dos clubes da Académica do Lobito e do 1º de Maio de Benguela. Duas agremiações desportivas com longas e ricas histórias do futebol nacional.
Apesar de a Direcção Provincial da Juventude e Desportos e o Comité Organizador do Campeonato Africano das Nações (COCAN) local serem alvos de culpas, os amantes do desporto-rei, sobretudo, atribuem maior responsabilidade aos próprios clubes que, na sua óptica, pecaram na estratégia montada na fase preparatória do Girabola, originando daí a crise de liderança e, consequentemente, a despromoção da fina-flor do futebol angolano.
“Demitam-se, camaradas (!)”. É o grito de insatisfação que se ouve nos últimos tempos no seio da massa apoiante dos respectivos clubes. Um pedido, infelizmente, ignorado pelos responsáveis dos clubes alvos. Pelo contrário, dão-se por inocentes. Mesmo assim, demitir-se por esse ou aquele motivo mal concebido não faz parte da cultura angolana. “Não me demito, porque fui eleito em Assembleia-Geral pelos sócios (…)”. Essa é a resposta em jeito de desculpas evocadas pelos visados.
Infelizmente, é desta maneira que os dirigentes “falhados” reagem diante das intempéries criadas à sua volta. Vergonha ou falta de coragem de assumir o fracasso, em causa está o seu ego. É mau diante de milhares de adeptos que sofrem com as derrotas e rejubilam-se com as vitórias dos seus clubes.

ACADÉMICA DO LOBITO
ESTEVE NA BERLINDA

O que se passou na Académica Petróleos Clube do Lobito foi deveras humilhante para os naturais e amigos do município. Treinadores e atletas digladiavam-se contra a direcção pelo simples facto do atraso salarial. E como se não bastasse, foram os próprios atletas (sob a agitação de algumas pessoas bem identificadas) que forçaram a demissão do seu presidente (Paulo Rangel). Que pouca-vergonha viveram os apoiantes do futebol no Lobito!
Ainda assim, procuram atribuir toda a culpa ao COCAN e ao Governo local, a quem acusam de impedir a realização da maior parte dos jogos em casa e diante do seu público. Pura hipocrisia! Muitos sabiam, de antemão, das coisas más que se passavam no interior desses clubes. Aliás, as saídas em catadupa de dirigentes de proa da Académica do Lobito, casos como Lino Cipriano e Horácio Kumandala, vice-presidente desportivo e secretário-geral, respectivamente, e mais tarde de José Maria Tchakussanga, director para o futebol, evocando problemas de relacionamento com o presidente Paulo Rangel, explica tudo. Daí que fica mal buscar culpados, quando o problema há muito está identificado.

Cadência da "desgraça"
abraça os proletários


No Estrela Clube 1º de Maio de Benguela, a situação pareceu mais grave, na medida em que os dirigentes protagonizaram grandes balbúrdias, tudo porque alguns não quiseram trabalhar com certas pessoas na direcção.
A crise atingiu o ponto mais alto com a retirada do empresário Bartolomeu Dias, do cargo de presidente de direcção, por alegada incompatibilidade das suas actividades profissionais. Foram momentos de muita agitação no seio dos adeptos e sócios que procuram a direcção encarnada para saber das reais causas que estiveram na base da retirada do seu presidente, numa altura em que o clube precisa mais dele. A intenção tem sido gorada, pois os homens contactados não estavam habilitados a tecer qualquer declaração a respeito.
E quando tudo apontava para um acerto a nível da direcção do clube, os apoiantes do futebol benguelense viram-se confrontados com a saída de mais duas figuras de peso. Fernando da Trindade Jordão, vice-presidente para o futebol de formação, e Jorge Pinto Leite, director do gabinete de futebol de alto-rendimento, abdicaram dos respectivos cargos, para permitir o regresso de Rui Eduardo de Araújo, vice-presidente para o futebol sénior, que condicionara a sua inclusão na direcção proletária com a ausência dessas figuras desportivas da província de Benguela.
Com a retirada dessas personalidades desportivas do clube da rua Domingos do Ó, a crise agudizou-se ainda mais, afectando negativamente no comportamento da equipa principal de futebol em campo, onde foi somando derrotas atrás de derrotas.
Os dinheiros para saldar as dívidas salariais escassearam e os atletas optaram por uma resistência passiva, dificultando (dentro das quatro linhas) a tarefa dos técnicos que mais tarde foram convidados a fazer as malas e mandados embora, tudo porque os resultados tardavam a surgir.

Mudança de técnico
piora estratégia

O antigo internacional do clube e da selecção nacional, Fusso Nkosi, chamado a ocupar o vazio deixado pelo professor José Luís Borges, este que substituira do cargo, o português João Almeida, não trouxe nada de novo. Pelo contrário, piorou ainda mais as coisas. A equipa não carburou na Liguilha; perdeu na jornada inaugural diante do Futebol Clube de Cabinda, por 0-1, resultado que foi fatal para as contas finais.
A formação do 1º de Maio de Benguela terminou na terceira posição com sete pontos, fruto de duas vitórias, um empate e uma derrota. Apenas duas equipas se apuraram para o Girabola’2010 que será disputado por 16 equipas. Para tristeza dos benguelenses, a província vai ficar sem equipa alguma.
É a crise que se instalou no futebol benguelense e que cabe aos nativos e amantes da cultura desportiva local procurarem formas de ultrapassar este mal que desprestigia o futebol da província.

Governo de Benguela
assume mea-culpa

O Director Provincial da Juventude e Desportos de Benguela, Pedro Garcia, admitiu parte da culpa do que sucedeu com as equipas da Académica do Lobito e do 1º de Maio de Benguela por ter permitido que efectuassem parte dos jogos fora do seu reduto, visto que a nível local não existia um campo relvado, tal como é exigido pela Federação Angolana de Futebol (FAF), no que diz respeito aos jogos do Girabola.
Para o director dos Desportos de Benguela, a posição tomada pelo Governo da província visou melhorar as infra-estruturas desportivas, respectivamente, os estádios de futebol da província que reclamavam pela sua remodelação.
“Não podendo os clubes resolver esse problema, tivemos de optar por esta saída, correndo os riscos como aquele que resultou na despromoção das nossas equipas do Girabola’2009, infelizmente”, justificou o professor Pedro Garcia, acrescentando que “em momento algum o Governo da província pretendia com a medida tomada na reabilitação dos estádios locais prejudicar os clubes”.
Na óptica do governante, o que aconteceu com as equipas de Benguela no último Girabola, foi resultado de uma programação mal concebida pelas respectivas direcções, já que apesar de realizarem as suas partidas fora do seu ‘habitat’, contaram sempre com o apoio financeiro e moral do executivo da província, pelo que “não faz sentido, os seus responsáveis virem a terreiro queixar-se da falta de apoio”.
E diz mais. Os problemas internos vividos nas direcções dos respectivos clubes contribuíram, negativamente, na fraca prestação das equipas ao longo da prova. “Por exemplo, o 1º de Maio de Benguela perdeu a soberana oportunidade de se manter no Girabola ao baquear em casa com equipas, aparentemente, do seu campeonato. Foram três derrotas consecutivas que o afundaram, logo não tem como culpabilizar o Governo e tão-pouco o COCAN. Pelo contrário, deve queixar-se de si próprio por não ter sabido aproveitar o factor casa de que sempre se bateu”, lembrou.

APOIO AOS CLUBES
NA SEGUNDONA

O Director provincial da Juventude e Desportos de Benguela, Pedro Garcia, assegurou que o Governo provincial vai continuar a apoiar material e institucionalmente os clubes benguelenses, com maior realce, os que vão competir na Segundona no sentido de regressarem o mais depressa possível ao Girabola.
“Para nós, o regresso de equipas benguelenses ao convívio dos grandes do nosso futebol constitui uma prioridade. Para isso, contamos com a colaboração de todos os clubes que têm de se organizar internamente. Caso contrário, nada feito. Retiramos a nossa ajuda e apoiamos outras agremiações desportivas que, do ponto de vista organizacional, se apresentarem melhor”, informou.
Na Segundona, a província de Benguela vai participar com três equipas, mormente, a Académica do Lobito, o 1º de Maio e 17 de Maio, ambos de Benguela. Esta última, afecta à Administração Municipal de Benguela, depois de militar por 11 anos no Girabairro local, fez a sua estreia na época transacta. Apesar de terminar na última posição da Série B, o seu vice-presidente, Leão Ngoma, considerou positiva a sua participação em prova oficial.

Clubes desordeiros
têm dias contados

O Director da Juventude e Desportos, Pedro Garcia, alertou aos clubes benguelenses que a sua direcção, como órgão reitor do desporto na província, não mais vai tolerar actos que atentam com os Regulamentos do associativismo desportivo. O que aconteceu na Académica do Lobito (os atletas juntaram assinaturas para destituir o presidente eleito) é inconcebível.
“Enquanto continuarmos neste cargo, jamais aceitaremos que se repita esta prática. Por mais contestado seja um dirigente eleito em Assembleia-Geral, cabe aos sócios decidirem pela sua continuidade ou não em reunião magna convocada pelo presidente da Mesa da Assembleia-Geral. Não fazendo isso, impugnamos e penalizamos os prevaricadores, pois ninguém pode subverter os Regulamentos”, avisou.
De recordar que em função dos maus resultados alcançados em campo, a massa associativa exigiu da direcção mudança de atitude, o que passaria pelo afastamento da equipa técnica liderada por José Alberto “Tramagal”.
Não acedendo à petição do público, o presidente Paulo Rangel foi a principal vítima dos atletas que forçaram a sua saída num clima de muita confusão. Movidos por forças estranhas, os futebolistas protagonizaram a cena inédita do desporto angolano: o empregado a despedir o patrão. É coisa que dá lugar a uma profunda reflexão!