Jornal dos Desportos

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Reportagens

Dunga silencia El Pibe

07 de Setembro, 2009

Nem mesmo a mudança do tradicional Monumental de Nuñes para o “caldeirão” do Gigante de Arroyito, em Rosário, foi suficiente para reabilitar a Argentina nas eliminatórias e impedir a classificação antecipada do rival Brasil ao Campeonato do Mundo de 2010. Diante de imensa pressão e provocações que marcaram a semana, a equipa de Dunga ignorou a história ao vencer por 3 a 1 no último sábado, o que representa o primeiro triunfo verde e amarelo nos duelos válidas das classificatórias do Mundial.
Ao calar o “alçapão argentino” diante dos maiores rivais, os pentacampeões mundiais e líderes na América do Sul alcançam os 30 pontos em 15 jornadas disputadas e já não podem mais ser ultrapassados por outras quatro equipas, já que a Colômbia, actual quinta colocada, tem dez a menos, restando três jogos para o fim do torneio. Enquanto isso, a Argentina, com 22, ocupa apenas o quarto lugar e vive a ameaça de não ir à África do Sul.
No seu primeiro duelo fora de Buenos Aires em toda a história das eliminatórias, a Argentina não manteve o bom retrospecto e viu cair uma escrita de 16 anos exactos. A equipa vizinha não era derrotada diante da sua claque desde o dia 5 de Setembro de 1993, quando caiu de forma humilhante para a Colômbia por 5 a 0, com golos do Rincón e dois do Asprilla. Desde então, os argentinos jogaram 34 vezes em casa pelo torneio, com 25 vitórias e nove empates.
Já do lado brasileiro, a histórica vitória em Rosário, além de garantir a vaga no próximo Mundial e o rótulo de única equipa presente em todas as edições do Campeonato do Mundo, também representa a consagração de Dunga.
Contestado no início, o treinador já acumula títulos da Taça América e Taça das Confederações e agora soma dez vitórias consecutivas. Nos clássicos contra Argentina, em solo inimigo, não sabia o que era vencer o rival em jogos oficiais há 33 anos (três derrotas e um empate).
Com a bola a rolar, os brasileiros deixaram a pressão apenas do lado de fora e mostraram muita frieza para segurar o ímpeto inicial dos argentinos. A provocação rival pôde ser notada com poucos segundos, aos gritos de “olé” quando a equipa da casa tocava a bola. Porém, a estratégia de segurar os primeiros minutos mostrou resultado aos 23min, momento em que Elano bateu falta para a área e o defesa Luisão subiu sozinho para escorar para as redes.
O golo serviu para esfriar os ânimos argentinos e deixou o Brasil ainda mais tranquilo em campo. Com a mesma postura, a estratégia de manter a frieza e fugir do rival, o Brasil voltou às redes através de bola parada e outra falha. Apenas seis minutos depois, depois de falta batida pelo mesmo Elano e cruzamento de Kaká, Maicon pegou a sobra e exigiu boa defesa de Andújar. Na sobra, Luís Fabiano só escorou para as redes.
A surpreendente vantagem no placar logo no início fez até com que a claque brasileira se soltasse em Rosário e devolvesse a provocação dos últimos dias com gritos de “Maradona é nosso rei”. Enquanto isso, os fãs argentinos demonstravam irritação e começaram a criticar alguns nomes do elenco, principalmente, a fragilidade defensiva da equipa. No ataque, quando Messi e Tevez conseguiram sair da forte marcação verde e amarela, pararam na presença do guarda-redes Júlio César, grande figura na partida.
Nos últimos 45 minutos, a tranquilidade brasileira foi abalada com um início de reacção argentina, que voltou com Aguero no lugar de Maxi Rodríguez e cedeu aos pedidos da claque por um triângulo ofensivo. Com a nova formação, aos 19min, depois de esboçar uma pressão nos primeiros lances após o intervalo, Dátolo encontrou liberdade numa das raras vezes e acertou o remate de fora da área, sem dar oportunidade de defesa ao camisa um de Dunga, renovando as esperanças nas bancadas.
No entanto, os brasileiros nem tiveram tempo para se assustar e novamente silenciaram o “caldeirão” de Rosário. Apenas dois minutos depois do golpe, em jogada individual de Kaká, Brasil selou a vitória ao chegar no terceiro golo. O camisa dez brasileiro carregou pelo meio e accionou Luís Fabiano em velocidade. O artilheiro das eliminatórias sul-americana mostrou frieza para tocar com categoria na saída de Andújar, anotar o seu 11º golo nas últimas dez partidas e confirmar o fim do jejum em terras argentinas.

RECEPÇÃO COM FESTA

O dia seguinte à vitória sobre a Argentina e da conquista de uma vaga na África do Sul não poderia ter começado melhor para os jogadores brasileiros. Os comandados de Dunga foram recebidos com festa no desembarque em Salvador.
Visivelmente cansados pela viagem na madrugada, os atletas passaram rapidamente por cerca de duzentos adeptos que acordaram cedo para acompanhar a chegada da selecção brasileira a Salvador. A delegação brasileira seguiu direito para o Hotel Softel da Praia de Itapoã, onde está hospedada nos próximos dias, preparando os três últimos confrontos.

(Ganhar é muito bom
à Argentina é melhor ainda)

Apesar da actuação apagada no duelo de Rosário contra a Argentina, o atacante Robinho não ficou de fora da festa brasileira. Companheiro de Tevez no Manchester City, Robinho disse que não vê a hora de chegar à Inglaterra para fazer brincadeiras com o argentino, que chegou a dizer durante a semana que sua selecção iria “comer” o Brasil em Rosário.
“Vou tirar sarro. Isso é normal. Será uma brincadeira sadia, até porque ele me encheria o saco se a Argentina ganhasse. Com todo o respeito, vou fazer as minhas brincadeiras e tirar-lhe sarro, que é um grande jogador”, afirmou.
Satisfeito com a exibição da equipa de Dunga, que venceu de forma convincente o maior rival, Robinho não escondeu a alegria com o resultado expressivo. “Ganhar é bom demais. Ganhar da Argentina é melhor ainda”, disse, aos risos.

QUEBRAR TABUS

Aliviado com a classificação antecipada ao Campeonato do Mundo e o fim de um jejum de nunca ter vencido a Argentina em território do rival, o guarda-redes Júlio César valorizou a façanha brasileira, quando saiu de Rosário com uma vitória inquestionável por 3 a 1.
“É bom que este grupo está a quebrar um monte de tabus. Quebramos no Uruguai e quebramos aqui na Argentina também. É muito legal isso”, disse o camisa um do técnico Dunga. “Suportámos a pressão e fomos felizes em bolas paradas”, festejou Júlio César.
O jogador também fez questão de destacar a boa postura da equipa contra a Argentina. “Este grupo mostrou muita personalidade para suportar a pressão adversária, o facto de a Argentina precisar do resultado e estar ao lado da sua claque”, afirmou.
Sem o peso de precisar definir a classificação nas últimas três jornadas, Júlio César alerta para que o grupo não repita o mesmo erro do passado. “Acho que quanto mais cedo (garantir vaga) melhor. É claro que o histórico não é muito favorável ao Brasil, mas vamos mudar isso. Para o Mundial de 2006 nos classificámos também com antecedência e não fomos bem sucedido. Mas o momento da selecção é muito bom, a confiança do grupo é boa”, disse.

ENTUSIASMO BRASILEIRO

Dunga exaltou a volta do entusiasmo no grupo brasileiro. Entusiasmo esse que havia sido perdido depois da fraca campanha para o Mundial de 2006. Agora, o Brasil já está garantido para o Campeonato do Mundo de 2010.
“É uma satisfação ver que o nosso trabalho foi bem feito, de trazer o entusiasmo à selecção, ver jogadores com gosto de jogar e entregam-se de alma à selecção, apesar de serem campeões nos seus clubes”, disse.
Para o treinador brasileiro, a equipa está muito bem entrosada com a comissão técnica e já alcançou a maturidade necessária para disputar um Campeonato do Mundo.
“É uma equipa muito madura. Apesar de serem jogadores jovens, sabem o que querem, têm uma troca muito boa entre a comissão técnica e os jogadores”, completou.

Maradona está com raiva

Bastante abatido após a derrota por 3 a 1, o técnico Diego Armando Maradona assumiu a responsabilidade por mais uma derrota da Argentina nas eliminatórias e já começa a ver a classificação para a Mundial da África do Sul em 2010 tornar-se um pouco mais difícil.
“Vai ser complicado para a Argentina depois desta derrota, mas continuaremos a trabalhar. Perder para o Brasil sempre nos abala, mas temos de seguir em frente, não se pode entregar-se (à derrota)”, disse o ídolo argentino, em entrevista.
Para definir o sentimento após o revés diante da sua claque, o treinador disse que estava “com raiva”, já que havia estudado as principais armas brasileiras, mas não conseguiu neutralizá-las em campo. Por isso, resolveu assumir a culpa pelo mau resultado.
“A responsabilidade pela derrota é pura e exclusivamente minha. Estamos com raiva, porque sabíamos como jogavam, como cabeceavam e tínhamos tudo bem marcadinho. Isto nos escapou”, admitiu Maradona.
O impacto da derrota foi esclarecido pelo El pibe. “Perder para o Brasil sempre é feio. Ainda mais neste jogo, pois tínhamos a esperança de vencer e aproximar da vaga para o Campeonato do Mundo, mas o futebol tem dessas coisas”, disse o treinador decepcionado.
“O Brasil chegou e concretizou, marcámos muito mal as bolas aéreas, mas saímos para buscar o resultado, tínhamos de sair e arriscar”, completou e fez questão de elogiar o adversário. “Dunga está a fazer um bom trabalho e tem muitos bons jogadores, mas não estou amargurado pela derrota. Estou tranquilo com os meus jogadores, isto não me quebra”, afirmou.

(Camisa não pesa)

Agora artilheiro das eliminatórias com nove golos, Luís Fabiano marcou dois na vitória sobre a Argentina. O atacante admitiu que a camisa 9 não está a pesar e festejou a boa fase na carreira.
“Estou a conquistar o meu espaço, sendo o camisa 9 e faço golos. Esse grupo está a provar que é vencedor. A minha vida mudou. Hoje, sou um cara muito feliz. Tenho a oportunidade de vestir a camisa 9 de outros craques e ela não está a pesar”, disse o autor do segundo e terceiro golos.
Para o goleador, o momento é especial com a camisa da selecção. “É um dos melhores da minha carreira e espero continuar assim”, disse.

JÚLIO CÉSAR
ESCAPA A BOMBA


O guarda-redes Júlio César levou um grande susto minutos antes do início do clássico entre Argentina e Brasil. Adeptos localizados atrás de uma das balizas atiraram uma bomba para dentro do campo e por pouco acertariam a camisa um da equipa do técnico Dunga. Assustado, Júlio colocou as mãos nos ouvidos, mas nada de grave aconteceu. Depois, continuou o aquecimento junto ao guarda-redes suplente Victor.