Jornal dos Desportos

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Reportagens

"É complicado trabalhar"

Gaudêncio Hamelay, no Lubango - 20 de Abril, 2010

Secretário-Geral da Associação Provincial de Xadrez da Huíla, António Ernesto

Fotografia: Arimateia Baptista

Como caracteriza o estado actual do xadrez na Huíla?
O estado actual do xadrez na província não é o desejado e não é o que foi há uns sete ou oito anos. Contudo, o xadrez tem a imagem de outras modalidades que, cada uma a seu nível, sobrevivem com aquilo que têm. Normalmente, somos contemplados com alguns recursos, através da Direcção Provincial da Juventude e Desportos, para realizarmos algumas actividades por ocasião das efemérides. Não há um movimento regular por falta de recursos financeiros e de outros meios. Fazemos aos soluços alguma coisa, o que justifica, de alguma forma, o nosso trabalho. Vamos continuar a trabalhar no sentido de encontrar fontes alternativas que possam sustentar a nossa actividade.Está a dizer que o grande empecilho para o desenvolvimento do xadrez na província consiste na falta de verbas?
Sim. Neste momento, o estado do xadrez reflecte a realidade da situação sócio-económica da província. O desporto, de forma geral, e o xadrez, em particular, não pode estar demarcado da situação económica. Os nossos programas de actividades são sustentados pelos factores económicos, apesar de não termos qualquer fonte de rendimento. E a não existirem essas fontes de rendimento, dificilmente executamos os nossos programas. Fazemos o possível para que o xaderz continue a existir. O nosso grande calcanhar de Aquilles está ligado aos meios financeiros.

Qual é a estimativa financeira para que a Associação possa colmatar as dificuldades?
Não dá para avançar uma quantia, porque é preciso efectuar contas. Há despesas com o material, alimentação e transportação. A manutenção do xadrez exige que haja uma pequena logística onde houver uma aula ou competição, como por exemplo, a água fresca, sumo, sanduíche, etc., devido ao desgaste dos atletas. Por isso, urge a necessidade de se efectuar contabilidade. Em tempo oportuno, podemos fazer essas análises, até porque, várias vezes, temos solicitado patrocínios a algumas instituições, mas alegam também estar descapitalizadas. Só para exemplificar: há algum tempo, realizávamos torneios do BCI, ENSA, Angola-Telecom, Sonangol, entre outros, mas, hoje, essas empresas alegam indisponibilidade financeira. Quando empresas de peso como essas não têm dinheiro, imagine-se uma Associação que depende de boa fé de terceiros! É complicado trabalhar; fazemos o possível.

Actualmente, quantos praticantes estão inscritos na Associação?
Temos por volta de cinco dezenas de jovens alistados em núcleos ligados às instituições escolares, mas, infelizmente, não podemos fazer um movimento regular, pelos motivos acima enumerados. Falta-nos jogos, porque não temos relógios, tabuleiros, bibliografia, monitores e apoio moral. Pela sua natureza, o xadrez é meio complexo, a prática é difícil. Se tivermos de ser treinador e árbitro, primeiro temos de aprender a jogar. Se não for o caso, nada se pode fazer. É daquelas actividades de difícil manutenção. Também temos dificuldades por parte dos monitores. Não existem localmente. Para colmatar essa falta, trabalhamos em conjunto com a Secção Municipal dos Desportos Escolares para realizarmos acções de formação.

Qual é o objectivo dessa colaboração?
Os professores de Educação Física devem ser dotados de capacidade para trabalhar também com o xadrez. Constatámos que a maioria dos professores de Educação Física não estão preparados para transmitir o ABC do xadrez. Logo, imagine as dificuldades ao colocar o xadrez nas instituições escolares. E surgem as perguntas: quem vai dar as aulas? A nossa resposta é: professores de Educação Física, mas infelizmente, não estão preparados. Vamos continuar a trabalhar no sentido de realizarmos acções de formação dirigidas a professores e em prol do desenvolvimento do xadrez na província.

Para quando a implementação desse projecto?
Devido à falta de meios financeiros, estamos estagnados. Se tivéssemos de promover uma acção de formação, há custos da responsabilidade da Associação, como trazer monitores para o Lubango, alugar salas, etc. Estamos a equacionar para ver até aonde vamos chegar enquanto Associação, até aonde vai a Secção Municipal dos Desportos Escolares, até aonde vai a Federação, em termos de custos. Tão logo tenhamos as condições criadas, vamos comunicar.

"Massificação é o corpo
da nossa actividade"


Em anos anteriores, a Associação havia elaborado um projecto de massificação. Em que ponto está?
O programa de massificação é o corpo da nossa actividade, porque o nosso programa não se cinge à área técnica. O que dá corpo à nossa actividade é a massificação, é trabalhar com jovens, crianças e adolescentes. Por falta de recursos financeiros, não é possível efectuarmos acções em grande escala, como fazíamos em anos passados. Temos algumas condições criadas, que movimentam jovens e crianças em muitos núcleos formados nas escolas e nos bairros. Infelizmente, não passamos disso. Trabalhamos durante uma época com um pequeno grupo de jovens e, no fim, o atleta precisa de competir, por exemplo, participar num Campeonato Nacional de Juniores, e voltamos ao calcanhar de Aquilles. Como se vai deslocar para a cidade, onde se realiza o campeonato? Não vai por falta de meios. Na época seguinte, acontece a mesma coisa e depois cria-se o espírito de desmobilização, porque não compete além da província. Temos essas dificuldades. Vamos aguardar até que o Governo da província comece a ver um pouco mais a área do desporto porque, da forma como as associações estão, no caso particular a de xadrez, sem meios, fica difícil fazer a manutenção.

Existem salas para a prática do xadrez?
A Escola 14 de Abril tem uma. Contamos com uma sala no Pavilhão Multiuso, na Unidade da Força Área e no colégio PSV. Maioritariamente, temos salas nas instituições onde temos núcleos, têm salas, salvo em alguns bairros que não possuem. Por exemplo, no Hélder Neto, na escola da Mecanização Agrícola, possui uma sala que dá perfeitamente para desenvolver o xadrez. Todavia, coloca-se a questão: quem vai dar as aulas? Quem vai preparar os jovens? O xadrez consome muito tempo. Uma aula consome duas horas no mínimo. Dar aulas por dia ou em função do calendário, sem recompensa ou remuneração, no fim de um mês, o monitor cria sente-se desmotivado. Estamos a trabalhar para encontrar o antídoto para essa situação. Enquanto não há solução, realizamos algumas actividades internamente.

Quantos técnicos estão disponíveis para transmitir o ABC do xadrez?
Apenas dois, mas precisam de remuneração. Não digo um salário, mas um estímulo, um prémio. Não são grandes prémios, mas uma coisa mínima, que sirva para pagar o táxi nas deslocações que fazem da residência para o local de treino e vice-versa. Essas dificuldades criam transtornos no nosso seio.

Nacional de Xadrez feminino
pode ser balão de ensaio


Quando a província volta a organizar uma competição nacional?
Temos muita vontade de o fazer, temos a pretensão de trazer à Huíla, este ano, o campeonato nacional de xadrez na classe feminina. Somos das províncias que já realizámos mais de duas vezes tudo o que a Federação de Xadrez tem nos seus programas. Somos a terceira província a desenvolver o xadrez feminino em Angola, depois de Luanda e Benguela. Aquando do primeiro Campeonato Nacional, em 1986, no ano seguinte realizou-se na cidade do Lubango. Eram outros tempos. Queremos revitalizar o sector feminino, porque temos localizadas algumas atletas daquele tempo com vontade de regressar à prática. É esse incentivo que nos leva a candidatar para acolher, este ano, o Campeonato Nacional feminino. Vamos trabalhar conjuntamente com a Federação Angolana de Xadrez e com a Direcção da Juventude e Desportos para equacionarmos a forma de trazer para a Huíla esse evento desportivo nacional. Acreditamos não haver problemas nesse aspecto. Se albergarmos a prova, vai servir de ponto de partida para o relançamento do xadrez em todos os escalões nestas paragens.

A adesão da classe feminina é satisfatória?
Em termos de mobilização, temos algumas interessadas e inscritas, cujos processos estamos a tratar para mandá-los à Federação Angolana de Xadrez. São meninas que precisam de investimento forte sobre o xadrez, carecem de instrução e estão colocadas nas instituições escolares. Quer dizer, começam do zero. Temos 30 candidatas inscritas, mas, seria bom contarmos com todas caso tivéssemos a funcionar de verdade. As meninas não sabem jogar e vamos ensiná-las. E se puxarmos o Campeonato Nacional para a cidade do Lubango, temos algumas atletas, cujos níveis não estão apurados, mas que podem representar a província. Essa é a nossa intenção e queremos concretizá-la.

Os apoios da Federação Angolana de Xadrez são regulares?
A Federação não é obrigada a fazê-lo, mas, beneficiámos de 30 jogos, igual número em tabuleiros e três relógios há três anos.

Sem dinheiro é impossível
voltar à época anterior


Quando a província da Huíla vai ser num grande pólo de desenvolvimento de xadrez na região Sul?
Quando tivermos dinheiro. Entre 1986 a 2000, estávamos no auge com pouco dinheiro. E quando falamos em meios financeiros, não falamos de mundos e fundos. É o razoável; o essencial que dá para fazer algo, como por exemplo, participar nas competições nacionais. O xadrez, por si só, não gasta muito dinheiro, porque um elemento pode representar a província nas competições nacionais ou o país nos eventos desportivos internacionais. Não são grandes verbas. Comparativamente à época anterior, não era muito dinheiro. O pouco aparecia e estávamos no topo do desenvolvimento do xadrez.

Actualmente, o xadrez huilano sobrevive apenas das camadas de formação?
Não, porque também temos os escalões de seniores. Quando me refiro ao núcleo da Força Aérea e à Escola de Sargentos, são seniores. Todos os fins-de-semana, realizamos jogos de xadrez na sala disponível no Pavilhão Multiuso da Nª Srª do Monte, de maneira a preparar os atletas para as competições oficiais. E as camadas jovens são as que recrutamos nos bairros e nos núcleos de instituições escolares.

Além de torneios internos nas efemérides, o que mais a Associação promove para manter vivo o xadrez localmente?
Podíamos fazer as simultâneas, torneios rápidos, semi-rápidas. Há muita coisa que se pode organizar para o desenvolvimento do xadrez, porque tem a vantagem de não precisar de uma grande estrutura para se jogar. Num quintal organizado e limpo, podem realizar-se jogos. Com três ou quatro atletas, podemos fazer uma competição. É fácil a manutenção do xadrez, mas exige algumas condições, sem as quais se criam dificuldades para levar avante os projectos de desenvolvimento na província da Huíla. Há vontade das pessoas praticantes, mas as ajudas nunca aparecem. Entre 1986 a 2000, realizávamos, anualmente, 18 jogos e contávamos com os clubes dos Dínamos, Inter, Ferroviário, Instituto do Tchivinguiro, só para citar esses. Foram bons tempos de xadrez na Huíla.