Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Reportagens

"É preciso ter dom e vontade para ser treinadora de futebol"

Manuel Neto - 22 de Abril, 2010

Lurdes Lutonda, treinadora de futebol

Fotografia: M. Machangongo

É a única mulher treinadora de futebol em Angola. Como se sente numa profissão dominada por homens?
Assim que terminei a carreira como futebolista, pensei em enveredar pela carreira de treinadora. Contactei os senhores Julito e Pedro (funcionários da Federação Angolana de Futebol) e algum tempo depois, frequentei um curso no Brasil, durante dois meses.


Que modalidades praticou?
A minha carreira desportiva começou aos 14 anos, quando joguei futebol nas equipas do Progresso do Sambizanga e nos Blocos da Terra Nova, agremiação que me lançou na primeira Selecção de Angola e em que pontificavam atletas como a Guigui, a Fofa, a Kapa, a Jujú, a China, entre outras. Algum tempo depois, não encontrei razões para continuar a jogar futebol e fui para o andebol, concretamente nas equipas da Bolama, do Ferroviário de Luanda, no ASA e, finalmente, no Sporting de Cabinda. Mais tarde, retirei-me do andebol e passei a praticar judo, durante dois anos. Depois regressei ao futebol, modalidade em que terminei a carreira como desportista.


Qual foi a primeira equipa que treinou?
Comecei no escalão de formação da Ultrak de Viana e, posteriormente, treinei a equipa feminina do Benfica de Luanda, durante um ano. Com a extinção do futebol feminino no Benfica de Luanda, fui convidada a fazer parte do Progresso do Sambizanga, no qual exerço, actualmente, a função de treinadora adjunta da equipa feminina de seniores.

Foi a única mulher que frequentou recentemente o curso de treinadores sob a égide da FIFA.
 O que diz sobre isso?
Senti-me muito feliz por contar com o apoio dos 30 rapazes que frequentaram o curso. O carinho que recebi fez-me perceber que os rapazes estão de mãos dadas com o futebol feminino. Aprendi muitas coisas e penso implementar na minha equipa.

O que esteve na base da pouca participação feminina na formação?
Em parte, tem a ver com a falta de interesse por parte da camada feminina, aliado à falta de incentivos. Não basta ser treinadora ou jogadora. Devemos ter dom e vontade de exercer a actividade.

O que se deve fazer para surgirem mais mulheres a exercerem essa actividade?
Deve haver mais incentivo por parte dos dirigentes desportivos, sobretudo fazer mais convites às mulheres que estão nos clubes e outras iniciativas capazes de encorajar mais as mulheres

Encontra dificuldades na sua actividade pelo facto de ser mulher?
Tem graça que isso não acontece comigo. Desde a primeira vez que surgi na figura de treinadora, incuti na mente das minhas atletas que sou irmã e amiga delas, fora e dentro dos campos. Entre nós, deve prevalecer um respeito mútuo, sob pena de levarem punição disciplinar, dentro do regulamento de disciplina em vigor no clube. Graças a Deus, aqui tudo tem corrido a preceito.

Como a família encarou a sua profissão?
Tenho o apoio dos meus pais, irmãos, filhos e esposo. Este último tem mostrado grande disponibilidade, até porque teve a amabilidade de me oferecer um curso de treinador.

Recebe apoio de dirigentes desportivos?
Estou nesta luta e noto que os dirigentes desportivos podem fazer mais pelo futebol feminino, sobretudo em termos de infra-estruturas e na formação de atletas e treinadores, componentes imprescindíveis para o desenvolvimento do nosso desporto.

Concretamente, que tipo de apoio gostaria de receber?
Gostaria de mais apoio no que toca à formação, já que só temos os escalões de juniores e seniores. Infelizmente, vemos jovens de 16 anos a jogarem com senhoras de 40, o que é errado.

Filho segue peugadas do pai

O facto de ser esposa do basquetebolista Miguel Lutonda serve-lhe de alento à profissão que exerce?
Sinto-me muito feliz. Por vezes, sou interpelada por isso. Felizmente, estou habituada a esta vida e vou gerindo a situação sem sobressaltos.Quando o Lutonda vence um jogo ou outro prémio, é motivo de grande alegria, tanto para mim, como para os nossos filhos. Quando perde, ficamos tristes. É curioso que o nosso primeiro filho joga basquetebol no escalão de juvenis do Petro de Luanda.

É fácil conciliar o desporto,a família e a escola?
É muito difícil, mas remedeio graças a uma boa programação.

Competitividade
aumentou bastante


O Progresso ganha quase todas as competições internas, facto que revela alguma fragilidade das outras equipas. Concorda?
Isso faz parte do passado. Hoje, as equipas estão cada vez mais fortes e o Progresso já não consegue dar as goleadas de outrora, vence por uma ou duas bolas.Isso espelha bem a evolução de agremiações como o Mártires, a Fagek, a Terra nova, entre outras.

O salário que recebe é satisfatório?
É muito difícil ganhar salários altos em equipas femininas, mas o que recebo dá para viver.

E quanto às condições de trabalho?
São as melhores que podem existir no futebol feminino e nesse capítulo, não temos razões de queixa. O mesmo digo do ambiente de trabalho. O técnico principal é o senhor Ferreira Pinto, ele que está nesta luta há muito tempo e tem-me dado grande ajuda.

O plantel que possui dá garantias  para o futuro?
Não. Acho que deve ser renovado, pois há aqui meninas que estão em fim de carreira. Muitas são do meu tempo e já é momento de darem lugar às mais novas. Enviamos uma proposta que entregamos à direcção do clube e, tão logo seja anuída, vamos dar mais qualidade à equipa.

Massificação deve
chegar a todo o país


Que avaliação faz do futebol feminino em Angola?
O futebol feminino pode fazer melhor, mas para tal é necessário que se aposte nos escalões de formação. Se assim não for, nunca teremos boas equipas nem boas selecções.

Os apoios surgem?
Na medida do possível. Gostaria que aparecessem mais apoios de outras instituições, em vez de deixarem a federação a lutar sozinha.

O que diz das infra-estruturas?
São as que o país tem. Aliás, já se nota uma grande preocupação por parte do Estado, no sentido de se prestar mais atenção a esse aspecto.

A competição interna é suficiente para dar rodagem competitiva às atletas?
Nem tanto. Penso que o futebol feminino deveria estender-se às instituições públicas e privadas para que, no futuro, colhamos bons frutos.

Concorda que o futebol feminino está confinado a Luanda?
Sim. Penso que já é tempo das pessoas de direito massificarem o futebol feminino ao nível do país, para que no futuro sejamos uma potência em África, já que existe bom potencial humano para o efeito.

\"Vamos acabar com os preconceitos\"

Que avaliação faz do número de mulheres no dirigismo desportivo?
Penso que já é tempo de se dar mais oportunidades às mulheres, pois está provado que elas nada ficam a dever aos homens. Noto alguma abertura, mas pode-se fazer muito mais. É muito bom ver uma mulher a ombrear com um homem em questões de trabalho.

Em que sector do desporto gostaria que elas estivessem mais?
Em todas as áreas desportivas. Poderia começar-se por actividades como a de massagista, seccionista, sobretudo em equipas e selecções femininas.

Acredita que as mulheres têm capacidade para exercer essa actividade com êxito?
Esse é um dos receios que prevalece na cabeça de muitos homens. A mulher é um ser humano semelhante ao homem. Também experimenta sentimentos e faculdades que lhe permitem ter coragem, audácia e competência. Por isso, vamos acabar com os preconceitos.