Jornal dos Desportos

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Reportagens

Em Portugal Benfica pode sagrar-se hoje campeão nacional

02 de Maio, 2010

Partida aguardada com grande expectativa

Fotografia: Reuters

Porto-Benfica não é de todo um jogo como outro qualquer, até porque pode valer a conquista do título nacional por parte das águias, no caso de conseguirem o singelo ponto que as separa da glória. É um momento de extrema importância, por isso, para a equipa da Luz, a justificar tratamento especial no habitual protocolo de Jorge Jesus.

Ou seja, a lista de convocados deve incluir o nome de todos os jogadores que fazem parte do plantel, que durante o ano, independentemente dos que jogaram mais, menos ou nada, trabalharam juntos em prol de um objectivo que está a um curto passo de ser alcançado. Mais do que nunca, o momento é de união, dentro e fora do relvado, para uma final que com certeza vai parar o País.

Recorde-se que Jorge Jesus adoptou idêntica medida na final da Taça da Liga, também frente ao FC Porto, chamando para o Algarve todo o seu grupo. A excepção, nessa ocasião, foi Jorge Ribeiro, o que pode voltar a acontecer. O esquerdino nunca fez parte dos planos do treinador encarnado e o facto de ter sido inscrito em Janeiro, por falta de colocação, não alterou, na prática, a sua posição no seio da equipa, mantendo-se sempre à margem das escolhas.

O Porto ainda não derrotou esta época os encarnados, mas pode festejar o seu centésimo triunfo em casa. Coisas do destino. Para quem neste clássico parecia nada mais ter a ganhar do que evitar no Dragão a festa do título dos encarnados, o que nesta altura do campeonato, imagine-se, só por si já é altamente motivante, o FC Porto dispõe agora de outro óptimo estimulante para, ao terceiro duelo esta época com a equipa da Luz, vencer: é que nada poderia ser melhor do que comemorar a centésima vitória na casa azul e branca do que com um triunfo sobre o Benfica. Dois em um que faria esquecer, pelo menos por uma semana, a perda dos galões de campeão e... até o terceiro lugar na prova.

Coisa pouca, é verdade, para quem desde que estreou a nova casa, com José Mourinho, treinador que (re)abriu a porta dos sucessos, se habituou a ganhar tudo e a quase todos. E começou a ganhar logo no primeiro jogo oficial. Foi com o U. Leiria, para o campeonato, realizado a 7 de Fevereiro de 2004, e os dragões venceram por 2-1, com Maniche a marcar o primeiro golo a sério, aos 18 minutos, no Dragão. O último foi Falcao, também ausente nesta partida, que apontou o terceiro golo do FC Porto ao V. Guimarães, na 27.ª ronda da Liga. Entre o golo de Maniche e o de el Tigre passaram seis anos e 99 vitórias dos azuis e brancos no Dragão em todas as competições oficiais.

Quarenta por cento de hipóteses
para os encarnados

O Benfica tem 40 por cento de hipóteses de sagrar-se campeão nacional no Estádio do Dragão, tendo em conta as vezes que pontuou em 30 jogos na casa do rival. Em muitos e longos anos de história é esse o resultado de 12 vitórias (16 por cento) e 18 empates (24 por cento) alcançados na casa do rival, que na sua contabilidade tem "maioria absoluta", com 45 triunfos (60 por cento). A precisar no mínimo de um empate para conquistar hoje o trigésimo segundo  título de campeão nacional da sua história, as possibilidades do Benfica aumentam, se comparadas com as vezes em que conseguiu sair do estádio do rival com um triunfo.

Em pouco mais de 75 anos de jogos para o campeonato, sob várias designações (I Liga, Campeonato Nacional, Superliga ou Liga), coube ao FC Porto reinar na sua casa, fosse ela o Estádio do Lima, o Campo do Ameal, o Campo da Constituição, as Antas ou o Dragão. Mas se as probabilidades do Benfica sair hoje coroado do Estádio do Dragão aumentam ao ter-se em conta um passado mais longínquo. Também é verdade que estas diminuem se o filtro se colocar na estatística mais recente.

Com base nos últimos 10, ou mesmo 20 jogos a contar para a Liga, as hipóteses de os encarnados pontuarem diminuem para 30 por cento. Nos últimos 20 confrontos o Benfica venceu 2, empatou 4 e perdeu 14, e nos últimos 10 esses números diminuem para metade (1 vitória, 2 empates e 7 derrotas). Outro olhar sob a mesma realidade e que aumenta as hipóteses do Benfica,  à luz da história e da estatística, é quando a análise se centra apenas nos jogos no Estádio do Dragão, um dos recintos construídos de raiz para o Euro-2004.
Em cinco jogos na sua nova casa o FC Porto venceu apenas dois, empatou outros dois e perdeu um, o que deixaria as águias com maioria (60 por cento) suficiente para se sagrar campeão.

Helton ou Beto na baliza?

Até à edição deste trabalho Jesualdo decide ainda não havia decidido a quem entrega as redes portistas. Prevalecendo a lógica, o brasileiro Helton estaria indicado para defender a baliza do FC Porto no jogo hoje, partindo do princípio mais elementar que norteia as escolhas de Jesualdo Ferreira desde o início da temporada: Helton para o campeonato, Beto para a Taça de Portugal e Nuno para a Taça da Liga. É apenas salvo raríssimas excepções, normalmente a ocorrer devido a indisponibilidade física do brasileiro, que esta hierarquia não é respeitada.

Há, no entanto, uma série de factores a implicar com esta regra, o mais essencial dos quais relacionado com o facto de Helton estar parado desde 18 de Abril. O internacional brasileiro lesionou-se na fase de aquecimento do encontro com o V. Guimarães, devido a um problema no dedo polegar da mão direita, e logo saltou Beto para a titularidade. Helton tem recuperado satisfatoriamente, mas a sensibilidade da lesão não joga muito a seu favor e não há garantia total de recuperação plena e efectiva.

«É triste o Falcão não poder jogar»

Radamel Falcão está fora de combate no clássico de hoje e esse foi um facto já lamentado por Reinaldo Teles, Jesualdo Ferreira e Rolando no final do encontro de Setúbal. Todos os companheiros de equipa vão sentir a falta do internacional colombiano, em especial um: Hulk. O brasileiro, de 23 anos, vinha formando com El Tigre uma dupla de respeito no ataque dos dragões, contribuindo para o bom momento da equipa na Liga e Taça de Portugal. Consciente de que outra solução terá de ser encontrada, nada mais restou ao "Incrível" do que manifestar a sua desilusão pelo afastamento do goleador.

"É triste o Falcão não poder jogar. É um grande jogador, tem ajudado bastante o FC Porto e, se não fossem os 3 ou 4 golos mal anulados, já seria actualmente o melhor marcador do campeonato", considerou o brasileiro, ele que há menos de um mês tinha assegurado que iria trabalhar para tornar Falcão no máximo concretizador da Liga. Hulk não ficou por aí nos elogios ao companheiro de equipa. O avançado recordou-se das barreiras que o colombiano necessitou de ultrapassar para atingir o patamar onde se encontra.

Não tem a certeza de que El Tigre seja a grande figura da Liga 2009/10, argumentando que não seguiu todas as equipas com a devida atenção, mas não tem dúvidas em relação ao nome do protagonista dos azuis e brancos. "Não acompanhei todos os jogos, pelo que não posso dizer qual foi o melhor jogador do campeonato. Mas posso dizer qual foi o do FC Porto. Por aquilo que lutou e pela forma como foi punido, o melhor jogador do FC Porto foi o Falcão", apontou Hulk, sem hesitar na escolha.

Com os 31 golos apontados por Falcão na sua época de estreia na Europa, dificilmente a opção do "Incrível" poderia recair sobre outro companheiro. Uma cumplicidade ofensiva que deu bons resultados na primeira metade da época, mas que foi interrompida durante três meses. O brasileiro voltou à competição ainda com mais força e tornou-se no aliado perfeito do colombiano. Os golos e as assistências foram surgindo com naturalidade e os dois passaram a formar uma das duplas mais eficazes do futebol português.

A ansiedade de Luisão

"Pela grandeza do clube, é uma semana muito decisiva. Temos de fazer um ponto para sermos campeões e pode acontecer no estádio do rival. O pessoal está muito ansioso.», disse Luisão à Globo. O central, que recebeu em sua casa o correspondente da estação, falou também do Mundial na África do Sul, no qual deve marcar presença: «Vai ser uma grande festa se ouvir o meu nome na lista de convocados. Vou comemorar, juntar os amigos e a família e comemorar com samba e feijoada.»

Há sete anos a viver em Portugal, Luisão até brinca com a situação. «Já é muito tempo, até já tenho passaporte. Costumo brincar que para virar português só me falta o bigode... É um bom país, que me acolheu muito bem ao longo destes anos», sublinhou, sem perder a boa disposição ao comentar o elevado número de compatriotas no plantel encarnado, sobretudo esta temporada. «Há muitos brasileiros, os estrangeiros são os portugueses...» Ficou também a prova de que o espírito que reina no grupo, independentemente das nacionalidades, é de união. «Costumamos reunir-nos, comer uma feijoada e ouvir um samba.»