Jornal dos Desportos

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Reportagens

Epal quer participação condigna no Mundial de Clubes do Dubai

Manuel Neto - 08 de Maio, 2010

Manuel da Cunha, secretário-geral do Grupo Desportivo da Epal

Fotografia: José Cola

Como decorre a preparação da EPAL com vista a participação no Mundial de Clube de Xadrez, a decorrer em Julho no Dubai?
A preparação está a ser cuidada da mesma maneira que foi o Campeonato Africano. Trabalhamos todos os aspectos ligados à modalidade. Penso que, até ao momento, tudo corre bem. Aliás, desde que regressamos do Campeonato Africano, não paramos, tudo para dotar os jogadores de melhor rodagem competitiva. A última fase da preparação vai decorrer no exterior do país.

Quais são os vossos objectivos?
Este é o primeiro Campeonato do Mundo por equipas. É claro que o continente africano se fará representar por equipas dotadas dos seus melhores mestres. África tem três equipas apuradas: a campeã egípcia e africana, a EPAL (vice-campeã) e a Red Burg da África do Sul. São equipas muito fortes e com mestres com um ranking superior aos dos nossos atletas. Ainda assim, a EPAL, ciente de tudo isso, está a preparar-se para enfrentar todas as adversidades que poderá encontrar. O nosso objectivo é ser a melhor equipa de África e ir o mais longe possível.

Os atletas dão garantias para tal?
O xadrez angolano tem dado bons sinais. O nível de jogo que os angolanos apresentam não condiz com o ranking que possuem. É superior e, por esse facto, acredito que eles farão boa figura na prova. Temos como exemplo o "Africano" recém-terminado, em que fizemos jogos bi-diários com jogadores de ranking superior aos nossos e conseguíamos superá-los com naturalidade.

Os atletas foram formados na vossa escola?
Sim. Trabalhamos com eles há muito tempo e temos vindo a obter muitas glórias. O Grupo Desportivo da EPAL possui uma escola que trabalha arduamente na formação de talentos para o engrandecimento da modalidade, quer no clube quer no país.

Há algum estágio em vista?
Sim. Temos um estágio que, em princípio, seria num país de expressão portuguesa, mas optamos pela Espanha. O mesmo é preponderante para qualquer equipa que esteja na alta competição, porquanto, além de tirar a pessoa do seu habitat normal, uma vez que em Angola não existem boas condições para se trabalhar em grupo, entre outras vantagens que proporciona, une e moraliza o grupo para as empreitadas que vêm a seguir.

Encontra dificuldades no trabalho?
Têm a ver com a falta de material didáctico. Anteriormente, usávamos tecnologias que hoje estão ultrapassadas. Hoje, temos o Fritzes II, um material muito importante para o desenvolvimento do xadrez, uma tecnologia que permite estudar a modalidade de forma mais simples. Infelizmente, até ao momento ainda não o possuímos, mas, dada a sua importância, tudo estamos a fazer para o comprar durante o estágio que teremos na Espanha e oferecermos a cada jogador. O xadrezista precisa de um computador para melhor interpretar as partidas dos seus adversários, pois permite entrar nos sites onde os melhores jogadores do mundo fazem os estudos. Caso apostemos mais em material moderno, mais probabilidades teremos de ombrear com os melhores xadrezistas do mundo.

E quanto a apoios?
No último Campeonato Africano, fomos apoiados por empresas, como a Danado de Bom, a Odebrecht, a Queirós Galvão e a Anglodente. Nos dias que correm, estão a ser feitos contactos para que essas e outras empresas apoiem a equipa nesta grande competição.

Como avalia o moral do grupo?
Está alto, sobretudo pela classificação que tivemos no “Africano”. Desde o ano passado, a EPAL participa em torneios internacionais.

Mais núcleos
vão ser abertos

Pode-se dizer que o xadrez da EPAL está na mó de cima…
Pretendemos abrir o xadrez em todos os lugares onde a EPAL tenha um Centro de Tratamento de Água, como no Cazenga, na Maianga, no Golfe e em Viana. Ou seja, em todos os locais onde a EPAL tenha uma sala para a prática da modalidade, para que os trabalhadores pratiquem com os seus filhos e outros familiares.

Que escalões possuem?
Possuímos iniciados ou infanto-juvenis (que vão dos sete aos 14 anos), juniores e os seniores. Em suma, temos todos os escalões.

Evolução da modalidade parte das escolas

Que opinião tem sobre a Reforma do Ensino Técnico-Profissional, cujo protocolo foi assinado entre o Ministério da Educação, a Academia de Xadrez de Gaia e a Empresa Lusis Equipamentos e Serviços?
Continuamos a seguir as peugadas da Reforma do Ensino Técnico-Profissional, na medida em que estamos a implementar a modalidade nas escolas e institutos. Em pouco tempo, vamos abrir uma sala na escola Ngola Mbandi, por ser uma zona com muita adesão de alunos. Caso tudo corra bem, faremos muito mais para este projecto valioso.

A Reforma pode contribuir para o resgate da mística que a modalidade gozou nos anos 70 e 80, em que despontaram atletas como Alexandre Gourgel, Marcolino Meireles, Francisco Brifel, João Francisco, Mário Sillas, entre outros?
É certo que, no passado, o xadrez fez história, porquanto esteve ligado à maior parte das escolas de Luanda. Os talentos que frisou não fugiram à regra, pois saíram das escolas Mutu ya Kevela, Makarenko, Ngola Kanini, etc. Caso este projecto corra como se planificou, vamos resgatar a mística do xadrez angolano. Não temos dúvidas de que a evolução da modalidade parte das escolas.

No geral, que avaliação faz da modalidade no país?
Está no bom caminho. Infelizmente, a Federação ainda se debate com muitos problemas. Por exemplo, há dias, ouvi, através da Rádio Nacional de Angola, que a participação nas Olimpíadas da Rússia estava ameaçada. Isso demonstra que as coisas não estão bem definidas, pois o xadrez, a par das modalidades paralímpicas, tem as olimpíadas à parte do futebol, do basquetebol, do andebol, etc.

Acha que a federação pode fazer mais?
Sim. Apesar disso, a Federação tem sabido cumprir o seu papel. Gostaríamos que ela fosse mais apoiada, aumentando a fatia que lhe cabe para prestar mais apoio aos clubes, sobretudo em provas nacionais. Há clubes que quase não têm condições para as competições nacionais, o que torna difícil para os atletas atingirem os níveis dos melhores do Mundo. A Rússia tem cerca de 200 grandes mestres e o número total de praticantes no nosso país nem atinge esse número.

Em termos de ranking, como estão os nossos xadrezistas?
O ranking dos nossos atletas nada tem a ver com o nível de jogo que produzem. Isso é devido à pouca participação em torneios internacionais, uma vez que os rankings são avaliados por torneios. É certo que, apesar de estarmos mal posicionados no ranking, temos um jogo forte, motivo de admiração de muita gente. Sobretudo em véspera de jogos, momento em que os adversários, na sua maioria fortes, procuram saber da posição dos nossos atletas, quando se apercebem, ignoram-nos, mas, durante os jogos, são surpreendidos.

"Os prémios são aliciantes"

A competição interna serve para dar rodagem competitiva aos xadrezistas?
Sim. Mas a Federação precisa de realizar clinics e seminários com formadores, sobretudo de expressão portuguesa, já que em termos potencial humano estamos bem.

Pode-se falar em prémios aliciantes?
Os prémios que a Federação dá são aliciantes e não vemos noutros países africanos. Por exemplo, ficamos em segundo lugar no último Campeonato Africano e o nosso prémio foi apenas avaliado em mil dólares, ao passo que em competições nacionais, como a Taça Cuca, por exemplo, o prémio do terceiro classificado pode ficar em sete mil dólares.

As províncias estão bem servidas?
O xadrez em Angola já foi praticado em quase todas as províncias. O apoio de que a modalidade necessita é extensivo às províncias para que o xadrez volte a brilhar. Não é apenas o xadrez que precisa do apoio das empresas. Pelo contrário, é preciso que as empresas vejam que o xadrez pode servir para um grande marketing e uma via de comunicação para as mesmas. As empresas devem prestar mais apoio à modalidade, pois tem poucos custos, o material pode durar três a quatro anos, ao contrário do futebol, andebol ou basquetebol. É preciso que haja uma boa política a nível das empresas, das delegações provinciais do Desporto para que apareçam mais apoios para a massificação da modalidade nas províncias.

O que diz da classe feminina?
Há 10 anos, altura em que em Luanda existiam equipas como a Cuca, Nocal, Dínamos, 1º de Maio de Benguela, Académica do Lobito, entre outras, o xadrez praticava-se em quase todo o país. Tínhamos um campeonato feminino com cerca de 20 equipas, com jogadoras de bom nível técnico. Actualmente, a classe está um pouco atirada ao abandono. É preciso que os clubes tenham o xadrez feminino para que a classe acompanhe a passada dos masculinos. Atenta a isso, a EPAL possui um leque de atletas que dá um valioso contributo à modalidade.

Que razões estão na base desse abandono?
Julgo que tem a ver, em primeiro lugar, com as políticas dos clubes, na medida em que deviam incluir o xadrez feminino nos seus programas. Por outro lado, deve haver um forte investimento na formação dos treinadores. Hoje, com o acordo que o Ministério da Educação celebrou com a Federação Angolana de Xadrez, é possível fazer mais, como abrir um núcleo feminino.

Futebol pode alargar leque de modalidades

Além do xadrez, que modalidades a EPAL movimenta?
A EPAL possui também o futsal, modalidade que este ano tem como meta lutar pelos três primeiros lugares, o andebol (nas categorias de iniciados juvenis e juniores) e o golfe.

Como estão em termos de instalação desportivas?
Estamos a trabalhar para melhorarmos cada vez mais a nossa componente desportiva na empresa.

Quando voltarão a ter ciclismo?
O ciclismo deixou de existir por falta de dinheiro. As bicicletas eram caras, o que nos levou a optar por outras modalidades. Em breve, voltarão a vê-las circular, pois já temos contactos muito avançados com a Federação da modalidade.

Não pensam ter o futebol de onze?
A maior parte das pessoas que pertencem à direcção da EPAL é desportista. Gostam muito do futebol e do basquetebol. O surgimento dessas modalidades é um aspecto que está em estudo e quando tivermos saúde financeira, vamos pensar no assunto.