Jornal dos Desportos

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Reportagens

"Espero dignificar a nossa arbitragem"

GAUDNCIO HAMELAY | NO LUBANGO - 08 de Janeiro, 2018

Jerson Emiliano a maior referncia da arbitragem angolana de momento prepara-se para mais uma vez justificar a aposta da entidade mxima do futebol em frica

Fotografia: Jornal dos Desportos

O ano  inicia com a sua participação em Marrocos 2018, esperava estar presença na prova?
Realmente, fui convidado para estar presente no Campeonato Africano das Nações (CHAN) de Marrocos, prova reservada aos jogadores que actuam nos campeonatos dos respectivos países, e é sempre motivo de alegria fazer parte destas provas, pois, não contava estar presente. Estou feliz, porque vou estar presente na competição com mais um angolano, o Hélder Martins.

Diante de mais este desafio, como é que decorreu a preparação para mais uma vez dignificar as cores do país?
Praticamente não tive pausa, venho de uma época intensa quer a nível nacional como em relação às provas da CAF. Depois do fim destas competições, reduzi os níveis de preparação, mas no início do ano voltei a intensificar. Em função da responsabilidade, vou dar o meu melhor para mais uma vez representar da melhor forma a arbitragem nacional e africana.

Relativamente à sua carreira, além do CHAN, quais são os outros grandes desafios para este ano?
Faço parte do grupo restrito de árbitros e de assistentes do continente, que se cumprir com êxito as várias etapas exigidas pela FIFA, vão estar no Mundial da Rússia que vai decorrer em 2018. Começamos com muitos colegas, agora, estamos com um grupo reduzido de cinco árbitros principais e 12 assistentes. No mês de Março vamos estar sujeitos à penúltima formação, onde vamos ser submetidos a teste físicos, médicos e exames técnicos. Depois veremos como vai ser.

Em função dos colegas que conhece e que estão na corrida, o que o País  espera do Jerson Emiliano?
Caso se concretize a minha presença no Mundial da Rússia de 2018, que falta muito pouco tempo, vou trabalhar para honrar o bom nome de Angola e do continente africano, de um modo geral. O povo angolano e africano devem esperar o mesmo Jerson de sempre, dedicado ao trabalho de árbitro assistente. Tenho um princípio de que quando vou para uma competição, devo dar o meu máximo, para realizar o maior números de jogos.

Na eventualidade de fazer parte dos eleitos, acredita que esteja presente no trio de arbitragem para o jogo da final?
Vou trabalhar para convencer as instâncias competentes para apitar, o quarto, terceiro, a meia -final ou mesmo a final. Como é sabido, o mundial de futebol  realiza-se com o intervalo de quatro anos, e é a principal montra de jogadores, árbitros e assistentes. Se for nomeado, é possível apitar o jogo da final como aconteceu, por exemplo, no Mundial de Clubes. Fomos seleccionados e nunca imaginava que fosse apitar a final de uma competição da FIFA.

São duas competições, que apesar de fazerem parte do calendário da FIFA são diferentes e com grau de exigência...
Lógico, mas o trabalho que apresentamos durante a competição, permitiu que fossemos indicados para o jogo da final. Então, tudo é possível acontecer no Mundial da Rússia. O que digo sempre, e posso garantir à população, é que acreditem em mim e nos árbitros, pois, vamos realizar sempre o melhor trabalho possível.

\"Iniciei a carreira
como futebolista\"

Quando apostou na carreira de desportista sonhava com este percurso e sucesso?
O sonho de ser desportista, começou na infância. Inicialmente, como jogador de futebol, treinei nas escolas do Interclube do Lubango, nos escalões de iniciados e juvenis, mas depois decidi direccionar a minha atenção para arbitragem.

O que o fez trocar a carreira de futebolista para árbitro assistente?
Ainda me lembro do professor Chibinha, que foi meu treinador nos juvenis, entre 1994 a 1996. No Interclube do Lubango joguei nos escalões de iniciados e juvenis. Não consegui ir mais além, devido às condições da família que coincidiu com a fase em que concluí o ensino de base, e as escolas naquela altura eram difíceis. No Lubango, tínhamos apenas o Instituto Médio Friedrich Engels, actual Instituto Médio Economia do Lubango (IMEL), e o Instituto Médio Normal de Educação do Lubango (IMNE). E, para ter acesso a estas duas instituições escolares, não era nada fácil, motivo pelo qual tive de deslocar-me ao município da Chibia (45 kms da cidade do Lubango) para continuar os meus estudos. Essa mudança obrigou a desviar-me do futebol.

Lembra-se ainda dos colegas com quem partilhou as quadras?
Recordo-me que ainda joguei com o Rolf e o Paizinho ,pese embora terem jogado nos escalões de juniores. Joguei também com o Chiquinho, Vivi, Nandinho, entre outros, cujos nomes não me vêem à memória. Os campos  mais usados eram os campos pelados, adjacentes actualmente a Universidade Mandume Ya Ndemufayo, campo pertencente à fábrica Ngola e o do Regimento.

Dos colegas como atleta com quem partilhou o mesmo balneário algum deles  se destacou  como jogador no  Girabola?
Poucos deles tiveram a oportunidade de jogar nas grandes equipas do Girabola. Uns, alinharam na segunda divisão, naquela altura, acredito que o único que despontou foi mesmo o Paizinho, que em 2017 jogou no Clube Recreativo do Libolo.

É conhecido como árbitro assistente,  quem é afinal de contas o cidadão Jerson Emiliano?
Jerson Emiliano dos Santos é um jovem natural do município do Lubango, província da Huíla. Tem 34 anos de idade, é casado e licenciou-se em Matemática, pelo Instituto Superior de Ciências de Educação (ISCED -Huíla) concluído em 2010. Exerce à profissão de professor de Matemática no município da Chibia e é árbitro assistente de futebol.

ASCENSÃO
Juiz cumpre etapas na arbitragem

Disse que a falta de escolas na Chibia forçou à mudança da cidade e que culminou com o abandono da carreira de futebolista. Como é que foi parar no \'mundo\' da arbitragem?

A princípio foi uma mera curiosidade, digo curiosidade porque na altura quando eu comecei em 2004, estava a concluir o ensino médio. Lembro-me como se fosse hoje, foi em Janeiro que ouvi a publicidade que Rádio 2000 (Antena Comercial do Lubango) passava a anunciar o começo de um curso para árbitros e assistentes, organizado pela Associação Provincial de Futebol da Huíla, no anfiteatro da escola do II nível Mandume.

Foi motivado por alguém ou foi iniciativa própria?
Dirigi-me ao local e falei com o Senhor Eduardo Samuel José, antigo árbitro assistente de categoria nacional. Quando iniciei não havia vagas, mas comecei o curso como candidato em lista de espera, e acredito que era o 25º na lista. Assisti o curso todo nesta condição, e no fim da primeira fase quando a formação terminou, dos 105 ou 110 candidatos se não estou em erro, sem os da lista de espera, ficaram 70 pessoas. Logo, havia muita vaga e foi assim que comecei.

Para quem começou na condição de assistente e depois ser repescado e hoje fazer parte da elite A da arbitragem internacional , é um sonho que se torna realidade?
Realmente, é um sonho que se tornou realidade, porque quando iniciei a minha carreira, logo me apercebi dos níveis que tinha de alcançar para consumar o objectivo que perseguia. Daí, que não tinha como não sonhar alto para atingir o patamar. Então, penso que estou na fase da realização dos meus sonhos, relativamente à arbitragem.

Qual a trajectória até atingir a categoria em que se encontra?
Tudo começou em 2004, nas categorias mais baixas da arbitragem, que passa pelas classes de segunda e primeira provincial. Em 2005, ascendi à categoria de primeira provincial, e participei no meu primeiro campeonato nacional em juvenis e juniores, decorridos na Huíla. Neste ano, fui consagrado como melhor assistente do torneio, e acho que a partir daí, começou a caminhada para atingir grandes níveis.

A ascensão ao escalão nacional foi  uma questão de tempo?
Em 2007, tive outra oportunidade e ascendi à primeira divisão como assistente do árbitro internacional Romualdo Baltazar, com quem  trabalho até hoje. Em 2009, atingi a carreira internacional, mas muito antes disso, já tinha realizado muitos jogos a nível nacional, inclusive o meu primeiro dérbi que envolveu as formações do Petro de Luanda e o 1º de Agosto, no ano de 2008 com o juiz principal Fernando Mansão, da província do Huambo e correu tudo bem.

Quanto tempo depois ascendeu à carreira internacional e como é que   foi a estreia?
Em 2009, depois de atingir a carreira internacional, fui logo no ano seguinte, isto é, em 2010, solicitado pela COSAFA para participar no torneio restrito para as selecções da África Austral. No referido torneio, tive a oportunidade de apitar a final. E, assim, comecei a ver que tinha a possibilidade de atingir os grandes níveis à nível da Confederação Africana de Futebol (CAF) e da Federação Internacional de Futebol (FIFA). No ano seguinte, participei na minha primeira formação da CAF, denominada de Hong Talent (Jovens Talentosos) em Junho.

Árbitro assistente sonha com dirigismo desportivo

Como angolano, o que se pode esperar da sua presença dos Palancas Negras no CHAN?

Só me resta desejar boa sorte, dizer que acredito na Selecção Nacional. Sei que vão realizar um bom trabalho, pena é,  eu estar do outro lado e lá é um pouco complicado, porque não podemos ter clubes ou selecções. Mas no fundo do meu coração, como angolano que ama a sua Pátria, estarei a torcer para que os Palancas Negras tenham bom desempenho durante essa fase.

Pela brilhante carreira, como árbitro assistente, augura no futuro abraçar a carreira de dirigente desportivo?
Acredito que é um dos meus principais objectivos. Além de estar ligado ao mundo da arbitragem, recordo-me perfeitamente, que em 2012 quando participamos no nosso primeiro curso de elite, elaborou-se um inquérito em que tínhamos de dizer o que pensávamos, no futuro. E, o que eu escrevi na altura foi de que me comprometeria em ajudar a desenvolver o desporto a nível do meu país, do continente africano e mundial. Então, se tiver a oportunidade de ser um dirigente desportivo, vou dar o meu melhor à semelhança do que faço como árbitro assistente.

CONFISSÃO
“A reacção dos jogadores não difere do campeonato”


Não se sentiu pressionado na sua primeira experiência internacional, ao lado de grandes estrelas mundiais, comparado com os nossos girabolistas?
Normalmente, a reacção acaba por ser a mesma. É uma reacção momentânea, em que os jogadores esperavam que o árbitro decida a seu favor, porque devia ser assim e acontece de forma diferente. Assim, acaba por protestar, mas sempre na base de um respeito pelo árbitro. Então, acredito que não diferi muito dos nossos jogadores a nível nacional.

O facto de ascender \"muito cedo\" ao escalão máximo da arbitragem internacional, não pesou no seu comportamento em alguns jogos?
Confesso que não contava, são nove anos de internacionalização, mas creio que a minha dedicação e trabalho, permitiu que estivesse presente na elite da arbitragem internacional. Entre mais de 1000 árbitros a nível de África e estar nesse grupo, penso que foi uma surpresa inacreditável, porque as oportunidades que me foram concebidas, aproveitei-as da melhor maneira.

Qual foi o jogo mais importante que apitou ao longo da carreira?
Neste momento, digo que foi a final do mundial de clubes, entre o Real Madrid e Oklahoma do Japão, em que os espanhóis venceram, por 4-2. Foi um jogo difícil, porque recorreu-se ao prolongamento. Durante os 90 minutos, as duas formações estavam empatadas  duas bolas. Acho, que foi esse o jogo mais importante, que vai ficar para sempre na minha  memória.

Sente que é muito conhecido a nível internacional, pelos jogadores e alguns dirigentes?
Penso que não. Alguns jogadores eu conheço, mas não creio que eu seja muito conhecido por eles. As equipas ou selecções que já apitei temos algumas relações e trocamos alguns e-mails com um ou outro jogador, mas acredito que não sou muito conhecido.

AVALIAÇÃO
“ Nossa maior qualidade
é a condição física”

A arbitragem nacional costuma ser alvo de críticas de dirigentes, técnicos, atletas e adeptos no país, mas no exterior a imagem parece ser diferente. Como avalia o trabalho da classe?

A arbitragem angolana está em grande nível. Temos poucas oportunidades a nível de África, acredito que estamos num nível bastante positivo. Digo isso, porque sempre que um árbitro angolano é chamado para uma competição da CAF ou da FIFA, permanece até ao final da competição e principalmente nas provas em África, em que estão sempre no jogo das meias-finais ou da final. Então, isso acaba por ser positivo para nós, e  afinal de contas  a arbitragem angolana não é tão fraca como se diz por aí.

Ao contrário da boa imagem em África, a nível interno as coisas parecem não correm muito bem?
E, como prova disso, temos o caso recente do João Goma que participou na COSAFA e que esteve também no jogo da final, assim como o Hélder Martins, no jogo do terceiro e quarto lugares. Pessoalmente, estive presente no CAN e no jogo da final. Estamos a apitar os grandes jogos das competições africanas para as meias-finais e quartos -de -finais. Então, quer dizer que para árbitros internacionais, estamos bem. A nível nacional acredito que conseguimos apitar no Girabola Zap que terminou recentemente, e como prova disso falou-se pouco da arbitragem. Por tudo isso, acredito que estamos a um bom nível.

Ainda assim, não acha que falta algo para os árbitros angolanos terem mais oportunidade nos jogos internacionais?
Para que os árbitros angolanos terem mais oportunidades a nível internacional faltam mais jogos. Quando a CAF nomear mais árbitros angolanos, mais oportunidades a gente pode ter a nível africano. Caso isso aconteça, deve ser positivo para os árbitros angolanos internacionais e para outros que ascenderem no futuro.

Qual é a imagem no exterior sobre a qualidade da arbitragem angolana?
Normalmente quanto estamos em formação, partilhamos muita informação entre colegas e sempre falam dos árbitros no geral e dos africanos em particular. E, não deixam de particularizar a arbitragem angolana e a nossa maior qualidade, é a condição física. Não sei se é por causa do clima que temos em África, mas isso acaba por nos favorecer em relação aos colegas dos outros continentes. Eles acreditam que os árbitros angolanos têm essa boa capacidade física. Então, esse é um dos pontos fortes que os árbitros angolanos têm e no geral, os árbitros africanos.

O que gostaria de ser concretamente para ajudar a desenvolver o futebol angolano?
Ser instrutor técnico era para mim suficiente para contribuir pelo desenvolvimento do futebol angolano, porque só assim  transmitia os meus conhecimentos aos árbitros mais jovens. Quiçá, um dia ser dirigente a nível provincial e nacional, bem com fazer parte dos quadros da CAF, como instrutor técnico ou físico.