Jornal dos Desportos

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Reportagens

Eusbio chegou luz h 50 anos

17 de Dezembro, 2010

Pantera Negra atinge amanh uma data histria ao servio do Benfica de Lisboa.

Fotografia: reuters

Cumprem-se hoje 50 anos desde que o jovem Eusébio avistou, pela primeira vez, a “metrópole”, a 17 de Dezembro de 1960, a bordo do voo mais importante que alguma vez saiu de Moçambique, na perspectiva de qualquer adepto benfiquista. “Fui o último passageiro a embarcar no ‘Super Constelation’ da TAP. Nem sequer houve chamada. Os passageiros já estavam todos no avião quando fui levado até às escadas num Volkswagen com matrícula do Exército”, recordou Eusébio, em entrevista à Agência Lusa, por ocasião do seu cinquentenário.

Alarmados pela concorrência do Sporting, os dirigentes benfiquistas recorreram a técnicas ao melhor estilo da Guerra Fria, que conhecia o auge entre os Estados Unidos e a União Soviética, adoptando um nome de código para designar a sua futura “jóia”. Antes de ser o “Pantera Negra” que deslumbrou adeptos de futebol em todo o Mundo, Eusébio foi “Rute”, a expressão utilizada pelos diligentes emissários do Benfica para ocultar a identidade do jogador nas suas comunicações telefónicas e telegráficas.

O Sporting acreditava que estava em vantagem porque o jovem Eusébio alinhava na sua filial moçambicana, o Sporting de Lourenço Marques, cidade onde nasceu em 25 de Janeiro de 1942, mas o Benfica abordou directamente a família e conquistou a sua maior referência. “O Benfica estava à frente porque falou com a minha mãe e o meu irmão. O Sporting fala em rapto, mas eu nunca poderia aceitar ter sido raptado”, observou Eusébio, lembrando as acusações lançadas na altura pelo clube de Alvalade, mais inconformado a cada golo marcado pelo poderoso avançado.

O secretismo manteve-se durante os primeiros tempos em Lisboa, durante os quais foi “enclausurado” no Lar do Jogador do clube da Luz, onde teve no “Bom Gigante” José Torres um anfitrião dedicado, apesar de logo no dia da chegada ter participado num jogo entre equipas de reservas do Benfica e do Atlético. As qualidades ímpares valeram-lhe a entrada directa no “onze” do Benfica no início da nova época, na qual ajudou o clube lisboeta a revalidar o título de campeão europeu, ao marcar dois golos na final com o Real Madrid (vitória por 5-3), construindo uma carreira sem paralelo no futebol português.

Eusébio foi 11 vezes campeão português, vencedor de cinco Taças de Portugal e campeão europeu em 1962. Foi ainda o melhor marcador do campeonato por sete vezes e o melhor “artilheiro” europeu em duas ocasiões, tendo sido distinguido como melhor futebolista europeu em 1965.

Artilheiro da Selecção portuguesa

Na selecção portuguesa, Eusébio foi durante muitos anos o melhor marcador, com um total de 41 golos em 64 jogos, marca apenas batida recentemente por Pedro Pauleta (47 remates certeiros), liderando a “equipa das quinas” rumo ao terceiro lugar no Campeonato do Mundo de 1966. Embora o seu nome tenha ficado intimamente ligado aos êxitos do Benfica, Eusébio passou por vários clubes na recta final da carreira: Rhode Island Oceaneers (EUA), Boston Minute Men (EUA), Toronto Metros (Canadá), Beira-Mar, Monterrey (México), Las Vegas Quick Silvers (EUA), New Jersey (EUA) e União de Tomar, antes de “arrumar as botas”, em 1978.

Pelo meio ficaram duas transferências milionárias goradas para Itália, porque os transalpinos fecharam as fronteiras aos jogadores estrangeiros ou porque Oliveira Salazar, presidente do Conselho de Ministros, o considerou “património nacional” e, portanto, inegociável. Eusébio continuou a maravilhar o Estádio da Luz, mesmo massacrado por sete intervenções cirúrgicas, seis das quais ao joelho esquerdo, e o Benfica prestou-lhe a maior homenagem durante as celebrações do seu cinquentenário, erguendo a sua estátua em bronze em frente à porta principal do recinto, sob o olhar aprovador da águia, símbolo do clube.

Os mesmos sonhos na Mafalala

Há 50 anos, Eusébio deixou a Mafalala, em Moçambique, para ir viver um sonho em Portugal: jogar futebol. Hoje, o mesmo sonho do ídolo é seguido por “craques” de tenra idade no mítico bairro de Maputo. Embora não visite a casa que o viu nascer, no bairro da Mafalala, a figura de Eusébio está sempre presente junto dos populares do local: desde os mais novos aos mais idosos, todos sabem apontar, sem rodeios, a casa e o campo de futebol onde deu os primeiros toques de bola.

Ailton, um futebolista de 14 anos que já ganhou três vezes um torneio juvenil realizado na Mafalala, quando questionado sobre o local onde nasceu Eusébio, aponta, sorridente. “É ali. Sei que ele foi um grande jogador, foi maestro, jogou bem e mostrou aos seus colegas como jogar. Gostava de ser como ele”, diz à agência Lusa. Também Bento, 12 anos, refere-se a Eusébio como tendo sido “um bom jogador”, embora ignore o seu clube na Europa.  “Eusébio foi um bom jogador e esteve cá em Maputo. Gostava de ser igual a ele. Ele foi muito bom jogador, mas não sei para que equipa jogava lá (em Portugal)”, afirma Bento.

Um dos melhores futebolistas de todos os tempos, Eusébio da Silva Ferreira tem agora uma rua com o seu nome em Maputo, bem próxima a um dos poucos campos de futebol que ainda existe na Mafalala. O campo onde Eusébio marcou o primeiro golo da vida é, até agora, um espaço sem relvado, com balizas sem redes, mas é lá que as crianças se divertem diariamente. O antigo craque do Benfica desloca-se anualmente a Moçambique, mas já não fica na residência da infância, onde nasceu. Pela Mafalala, o ex-avançado benfiquista só passa quando vai visitar o amigo e primo Armando Silva, que o acompanhou a Portugal há cinco décadas.

Na “inóspita” casa, vive hoje apenas um seu irmão: Fernando da Silva Ferreira. “Isso está inóspito”, alerta o filho mais novo da família Da Silva Ferreira logo no início da visita que a Lusa fez à casa de Eusébio, mostrando, de seguida, o quarto onde o irmão dormia até ingressar no mundo futebolístico na Europa. No pátio da casa, sem vedação, com capim alto e água turva em redor, há novos amigos da família que não ligam para a história do sítio, importando-se somente com as ruínas para fins comerciais. Um grupo de quatro homens bate blocos de construção, num negócio do Fernando.

“É um negócio que associei com um amigo”, conta Fernando, enquanto apresenta o interior da casa número 208 da zona de Mafalala, localizada numa rua sem nome. “Eu tinha quatro anos quando ele (Eusébio) saiu de casa”, por isso, “não lembro de muitas coisas... Foi em 1966 (1960)”, diz, a seguir, pensativo. Mas Fernando sabe qual é a opinião generalizada sobre o seu irmão: “Todos dizem que é um homem excelente, porreiro e bom”. Sentado sobre um banco no corredor da casa, de boné, t-shirt e chinelos, Fernando lembra os bons momentos de Eusébio, quando visitava frequentemente a família, situação que mudou aquando da morte da mãe.
“Ele já não vem cá a casa. Algumas vezes [apenas] dá um salto à casa do Armando Silva [primo e vizinho]. Isto dói”, lamenta.

Mário Coluna foi o homem
que tomou conta do “miúdo”

Eusébio chegou a Portugal com uma carta da mãe na mão dirigida a Mário Coluna, também moçambicano e futebolista do Benfica. “Tome conta do meu filho”, dizia a carta. E Mário Coluna tomou. Hoje, o antigo capitão do Benfica e o primeiro africano a erguer uma Taça dos Campeões Europeus tem 75 anos e vive em Maputo. Mas recorda muito bem quando, há 50 anos, o miúdo Eusébio chegou a Portugal. Mário Coluna nasceu em Magude, província de Maputo, e quando adolescente vivia no bairro do Alto Maé, na então Lourenço Marques, quando do outro lado, no bairro da Mafalala, Eusébio brincava ainda com outras crianças.

Como Eusébio, jogou com bolas feitas de trapo, como Eusébio a ida para Portugal foi marcada pela competição entre Benfica e Sporting. Numa vinda a Moçambique a equipa de Alvalade falou com o pai de Mário Coluna, um “benfiquista ferrenho”, manifestando interesse no jogador. O sinal para o homem contactar o Benfica e dizer: “Os lagartos querem o meu filho”. A resposta foi imediata: “Mete esse miúdo no primeiro avião”. A ida de Eusébio para Portugal há 50 anos, lembra hoje Mário Coluna, também foi marcada pela rivalidade entre as duas equipas de Lisboa.

A começar na capital moçambicana. Eusébio queria jogar no Desportivo, ligado ao Benfica, mas acabou no Sporting de Lourenço Marques: “O roupeiro [do Desportivo], não sei porquê, disse que não havia mais equipamento para lhe dar e como o Eusébio queria jogar à bola saltou o muro”. Os campos eram pegados e estão hoje quase abandonados, na baixa de Maputo. No meio do relvado, Mário Coluna lembra que foi ali que o jovem jogador “foi crescendo, crescendo, foi-se desenvolvendo”, até que em 1960 “houve uma informação para o Benfica de que havia um jogador que se chamava Eusébio e era bom jogador”.

Perante o também interesse do Sporting, o representante do Benfica na então Lourenço Marques levou à mãe do jogador o dinheiro que esta pedia para deixar que o jovem fosse para Lisboa. Em troca recebeu uma carta assinada em que a mãe de Eusébio autorizava o filho a jogar em Portugal, mas só no Benfica. Na altura, a mãe do jogador escreveu uma segunda carta, esta dirigida a Mário Coluna. “O Eusébio chegou lá e entregou-me a carta que era da mãe. Eu abri a carta à frente dele, li e quando acabei dei-lha para ele ler.

O Eusébio leu a carta [e disse]: ‘A mãe está a pedir para o senhor Coluna tomar conta de mim, que aqui não conhecemos ninguém’”.
Mário Coluna assim fez. No dia seguinte levou-o à Caixa Geral de Depósitos para preencheram os formulários de abertura de conta. “Eu é que fiquei com a caderneta. Todos os meses, quando ele recebia, íamos juntos à Caixa fazer o depósito e eu dava-lhe 500 escudos”.
Seguiu-se outra etapa obrigatória:

“Depois levei-o ao meu alfaiate e mandei fazer dois fatos para ele. Mandei que ele escolhesse, para ele andar vestido igual aos colegas”. Mário Coluna foi padrinho de casamento da mulher de Eusébio e foi também ele quem lhes arranjou casa, perto de onde morava na altura, em Linda-a-Velha. “(Depois do casamento) Convidei-os para irem jantar lá em casa e depois do jantar sentámo-nos na sala, trouxe a caderneta e disse: vocês agora são chefes de família, a partir de agora são vocês que vão orientar o vosso dinheiro no banco”, recorda. O resto faz parte da história.

Eusébio e Mário Coluna continuam amigos até hoje e encontram-se sempre que o “Pantera Negra” está em Maputo.  Em Lisboa, “nesses tempos”, Coluna ia às escondidas beber um whisky, porque “não podia levar o miúdo”. Em Maputo, hoje, costumam encontrar-se na Associação Portuguesa, sentam-se sempre na mesa do canto e bebem “um copo”. Coluna e “o miúdo”.

Perfil
Nome: Eusébio da Silva Ferreira.
Data de Nascimento: 25 de Janeiro de 1942.
Naturalidade: Lourenço Marques, actual Maputo (Moçambique).
Posição: avançado. Principais características como jogador: facilidade e potência de remate com ambos os pés, capacidade técnica, sentido de oportunidade, velocidade e facilidade de “drible”.
Primeiro clube: Sporting de Lourenço Marques (1959/60).
Principal clube: Benfica (de 1960/61 a 1974/75).
Outros clubes em Portugal: Beira-Mar e União de Tomar.

Clubes no estrangeiro:
Rhode Island Oceaneers (EUA).
Boston Minutemen (EUA).
Toronto Metros (Canadá).
Monterrey (México).
Las Vegas Quick Silvers (EUA).
New Jersey (EUA).
Jogos no Campeonato Nacional: 294.
Golos no Campeonato Nacional: 316.
Títulos de campeão nacional: 11 (1960/61, 1962/63, 1963/64, 1964/65, 1966/67, 1967/68, 1968/69, 1970/71, 1971/72, 1972/73 e 1974/75).
Jogos na Taça de Portugal: 60.
Golos na Taça de Portugal: 97.
Vitórias na Taça de Portugal: 5 (1961/62, 1963/64, 1968/69, 1969/70 e 1971/72).
Jogos pela selecção AA de Portugal: 64.
Golos pela selecção AA de Portugal: 41.
Jogos pela selecção militar de Portugal: 12.
Jogos pela selecção da FIFA: 2.
Jogos pela selecção da UEFA: 12.
Total de golos: 1139 (907 em jogos oficiais).
- Taças Europeias de Clubes (pelo Benfica):
Jogos: 78.
Golos: 59.
Títulos: campeão europeu em 1961/62.
- Campeonatos do Mundo:
Participações em fases finais: 1 (1966 - Inglaterra).
Melhor classificação: terceiro lugar.
Jogos: 22 (incluindo qualificações).
Golos: 22 (incluindo qualificações).
- Campeonatos da Europa:
Participações em fases finais: 0.
Fases de Qualificação:
Jogos:
14.
Golos: 4.
- Troféus pessoais em Portugal:
Melhor marcador do Campeonato Nacional: 7 vezes - 1963/64 (28 golos), 1964/65 (28), 1965/66 (25), 1966/67 (31), 1967/68 (42), 1969/70 (20) e 1972/73 (40).
Futebolista português do ano: 2 vezes.
- Troféus pessoais internacionais:
Melhor marcador do Campeonato do Mundo:
1 - Inglaterra 66 (9 golos).
Melhor marcador europeu (“Bota de Ouro”): 2 vezes (1967/68 e 1972/73).
Melhor futebolista europeu (“Bola de Ouro”): 1 vez (1965).
Segundo melhor futebolista europeu (“Bola de Prata”): 2 vezes (1962 e 1966).