Jornal dos Desportos

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Reportagens

Ex-atletas apresentam projectos

Augusto Panzo - 17 de Junho, 2013

Antigo atleta do Petro de Luanda e companheiros estão preocupados com o momento actual da nossa selecção

Fotografia: Jornal dos Desportos

Ghislão Lufemba Juke, ou simplesmente Lufemba, como é conhecido nas lides futebolísticas e uma referência dos anos 80 no plantel do Petro de Luanda, está de regresso ao país 24 anos depois. Em companhia de alguns ex-atletas angolanos radicados na Europa, trouxe na bagagem um projecto ambicioso para resgatar a mística do futebol nacional de alta competição.

Ndongala, Fualuka, Zomi, Nsumbo, Mobezo, Diko, Tavares e Kuba, fazem parte do grupo de compatriotas que pretendem trabalhar com algumas instituições, com o objectivo de resgatarem a mística da selecção nacional no continente africano e quiçá mundial. Em conversa com o Jornal dos Desportos, Lufemba revelou que o objectivo fundamental da visita a Angola é estudarem, com os dirigentes da Federação Angolana de Futebol (FAF), formas que possibilitem trazer jogadores, filhos de angolanos residentes no velho continente, e que jogam em clubes europeus, para representarem os Palancas Negras.

“Estamos aqui para traçar, com os dirigentes da FAF, a possibilidade de encontrarmos soluções que nos possibilitem trazer jogadores, filhos de angolanos residentes na diáspora, e que actuam nas equipas europeias, especialmente em França onde resido, para que estes possam servir a Selecção Nacional”, começou por dizer o antigo craque dos tricolores da capital. O primeiro passo já foi dado num encontro de trabalho que tiveram com os membros da Associação dos Antigos Futebolistas de Angola, uma vez que os dirigentes da FAF estão neste momento com as atenções centradas nos compromissos dos Palancas Negras.

“Em função dos jogos que a selecção nacional tem agendados e pela importância de que os mesmos se revestem, ainda não nos foi possível manter um encontro com os dirigentes da FAF, mas acreditamos que nos próximos dias ele vai efectivar-se”, disse. Além da intenção de trazer jogadores para reforçarem a selecção de Angola, com o propósito de engrossar o leque de opções para os seleccionadores nacionais, referiu que há também a necessidade de se fazer formação de atletas.

“Queremos também atacar a vertente da formação de jogadores, porque, para o futebol atingir os patamares que todos almejamos, é necessário que haja uma boa formação de base, e essa componente faz parte do nosso projecto”, acrescentou.

INICIATIVA
“Pretendemos chegar
 a todas as províncias”

O facto de estarem neste momento em Luanda, não quer dizer que vão limitar-se apenas a defender o interesse de equipas da capital do país. Lufemba sublinhou que o projecto é extensivo a mais províncias, já que o programa prevê ajudar a maior parte de clubes do país, sobretudo naquilo que diz respeito aos aspectos dos escalões de formação. “O nosso projecto é extensivo às províncias, onde também queremos levar essa grande preocupação, que é a formação básica dos jogadores.

Eu e o Ndongala fomos assistir a um jogo amigável entre equipas da Segunda Divisão, em que foram contendores o União Sport Clube do Uíge e o Polivalentes FC, e o que vimos deixou-nos muito tristes. Não há condições para quase nada, desde balneários a outros aspectos”, afirmou Lufemba.  
Por aquilo que constataram, considerou que trabalhar nessa exiguidade de condições não leva a modalidade ao desenvolvimento que se pretende, apesar de reconhecer que também viveram a mesma situação, mas hoje os tempos são outros.

“Apesar de reconhecermos que também trabalhámos nestas condições, é necessário diferençar um tempo do outro. É incrível, por exemplo, que, até hoje, ainda existam equipas a treinar em campos pelados. Isso não ajuda a melhorar a qualidade de futebol que se pretende. Tem de se dar condições aos mais jovens, para que essa situação se altere”, advertiu.
AP

ALERTA
“Temos de recuperar
a mística da selecção”

Os antigos craques admitiram que o futebol angolano está cada vez mais a perder qualidade, sobretudo desde o Campeonato Mundial de 2006, na Alemanha, onde Angola marcou a sua primeira presença numa prova daquele calibre. “Não restam dúvidas de que o futebol angolano está estagnado. Se compararmos aquela que foi a qualidade apresentada no Mundial de 2006, na

Alemanha, em relação ao que vimos durante o CAN na África do Sul, e nestas eliminatórias, podemos afirmar, com toda a certeza, que estamos em queda livre. Não houve a evolução que se esperava”, afirmaram em uníssono Lufemba e Ndongala. Justificaram a sua afirmação tomando como exemplo o escasso ponto conseguido no CAN da África do Sul, em Janeiro, quedando-se na última posição do seu grupo, um facto elucidativo do mau momento que a modalidade está a atravessar.

Ainda assim, apesar dos vários contornos que envolvem os dois últimos jogos da eliminatória no grupo J, Lufemba mantém a convicção de que os Palancas Negras podem apurar-se para o Mundial do Brasil. “Sempre disse que no futebol não existe o impossível. Sei que os Palancas Negras dependem de terceiros nesta campanha, para lograrem o apuramento, mas nada me diz que não podem chegar à fase final do Campeonato Mundial de 2014”, considerou.
 AP

“Queremos melhorias na selecção”

Inconformados pelo facto da Selecção Nacional de Angola estar a perder com a não integração de alguns craques que jogam em clubes da Europa e a representarem as selecções locais, decidiram começar por criar a Associação de Antigos Jogadores Angolanos no Exterior, com a intenção de dinamizar o intercâmbio de talentos entre a diáspora e o nosso país.

“Decidimos levar avante este projecto para evitar que situações do género se repitam. Além disso, a mágoa criada pelo desperdício de talentos, a favor de países que praticamente nada têm a ver com as suas origens, obrigaram-nos a isso”, sublinhou Lufemba. “O nosso projecto foi idealizado por mim e mais oito companheiros, todos nós antigos jogadores do Girabola, residentes na Europa. Surgiu da necessidade de um melhor aproveitamento, por parte do nosso país, de jovens talentos”, reforçou.

O aliciamento e a pressão de algumas federações europeias tem feito com que muitos atletas acabem por se comprometer com essas instituições.
“É uma forma de evitar que muito deles se deixem levar por algumas promessas e quererem alinhar por clubes da Europa por força da naturalização, como é o caso de Matuidi e Rio Mavuba, cuja preferência é jogar em selecções europeias, por falta de apoio das autoridades angolanas competentes”, justificou o antigo médio da equipa do Catetão.

Esta situação verifica-se devido à falta de uma ligação directa entre a FAF e algumas instituições que funcionam no exterior do país e que zele pelos interesses dos filhos dos angolanos que estão a despontar fora do país. “Nós, angolanos ex-praticantes e que representamos várias equipas do Girabola, e que hoje residimos em França, sentimo-nos mal quando vemos os nossos filhos a jogar para benefício de outros países, por falta de oportunidade na terra das suas origens.

Pensamos que não se trata de falta de oportunidade, mas sim da ausência de elementos que consigam fazer aquela ligação directa com a FAF”, justificou a antiga “estrela” de futebol angolano. Lufemba adiantou que, para reforçar essa ideia, o grupo de que faz parte está a acompanhar, em França, a evolução de uns cinco ou seis jovens, com a intenção de trazerem para o país os filmes dos jogos em que os mesmos estão presentes, para que os dirigentes federativos angolanos possam tirar algumas ilações sobre o valor destes atletas.

O porta-voz da Associação dos Antigos Jogadores de Futebol do Girabola a residirem no estrangeiro considerou a perda destes jogadores para outros países um enorme prejuízo para uma nação como Angola, em função da qualidade que estes jogadores oriundos ou descendentes de angolanos já demonstraram. “Já pesquisámos alguns jogadores e é nossa intenção seguir a carreira dos mesmos, para depois trazermos para cá os filmes dos respectivos jogos. Já perdemos muitos atletas e não queremos que isso volte a repetir-se, uma vez que reconhecemos o valor que muitos deles têm”, adiantou.
AP

RECONHECIMENTO
“Petro faz parte de outro projecto”

A par do projecto de pesquisa de jogadores para representarem as cores da Selecção nNcional de Angola, Lufemba confidenciou ao Jornal dos Desportos, existir o mesmo projecto, mas a título individual, na prospecção de talentos para representarem e reforçarem o plantel do Petro de Luanda.
“Por aquilo que o Petro fez por nós, eu e o Ndongala, na qualidade de antigos jogadores desta equipa, temos o projecto de ajudar a divulgar a imagem desse grande clube angolano e africano em França, preparando estágios para alterar a ideia que muita gente tem de que Angola é só Portugal, Brasil ou África do Sul.

Queremos criar corredores para que o Petro passe a realizar estágios e torneios naquele país da Europa”, salientou. Lufemba garantiu que o primeiro contacto com a direcção do Petro de Luanda já foi feito e, neste momento, falta apenas acertarem alguns pormenores para concretizarem o projecto.

“Conseguimos manter um contacto com o presidente e o vice-presidente do Petro de Luanda, os senhores Mateus de Brito e Abreu Neto, no sentido de os pormos ao corrente daquilo que é nosso projecto em relação ao clube que nos projectou a partir daqui. Estão quase a aderir ao nosso programa, se bem que faltam alguns acertos, uma vez que eu fico aqui até dia 15 de Julho e o Ndongala permanece para lá dessa data”, especificou.

Quanto à possibilidade dessa ideia se concretizar, Lufemba disse ter quase a certeza, em função da resposta que obteve dos dirigentes petrolíferos, que manifestaram a sua satisfação.  “Por aquilo que ouvimos do presidente do Petro de Luanda e do seu vice, tenho quase a certeza de que a nossa ideia tem a aceitação daqueles dirigentes. Se assim acontecer, ficamos muito contentes com isso, pois vamos ter a oportunidade de acompanhar alguns desses estágios, desde que estejam direccionados para a França”, revelou.                  
AP

DIÁSPORA
“Atletas devem fazer
diferença nos Palancas”


Lufemba defende não ser justo convocar jogadores que jogam em clubes estrangeiros, para depois não serem alinhados, porque muitos deles trazem uma elevada experiência no capítulo da disciplina táctica, um dos elementos fundamentais para um jogador de alta competição.  “Para mim, que já joguei fora do país, acho que chamar um atleta para a selecção, para depois não ser utilizado, é um erro grave, porque esses jogadores têm um factor a seu favor, que é a disciplina táctica, um dos elementos fundamentais na prática de futebol”, declarou.

Para reforçar esta ideia, deu como exemplo o jogo com o Senegal, onde este elemento não foi bem aplicado durante a partida. “A prova mais que evidente disso foi aquilo que vimos no jogo frente aos senegaleses, onde esse elemento não funcionou devidamente, deixando os jogadores um pouco perplexos, praticamente sem a devida coordenação”, disse. Lufemba avançou ainda outro factor negativo que pode advir dessa situação, que é a perda de credibilidade dos atletas dentro da equipa em que jogam, na medida em que o clube pode perder a confiança depositada neles.

“A não utilização desses atletas, muitas vezes leva à perda de confiança da direcção do clube para com o jogador e pode mesmo originar dúvidas sobre como um jogador que não tem lugar na selecção do seu país pode merecer um lugar cativo na equipa”, alertou o antigo nº 11 do Petro de Luanda.