Jornal dos Desportos

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Reportagens

Êxito dos Palancas Negras depende do apoio de todos

02 de Janeiro, 2010

Selecção Nacional precisa de apoio dos angolanos

Fotografia: Jornal dos Desportos

Manhã de 1 de Janeiro, dia internacional da Paz. Nas ruas de Luanda, o silêncio tomou o lugar do habitual frenesi e o vento alegre ginga-se a seu bel-prazer. As brisas desfloram algumas fraldas brancas penduradas nas cordas e nas janelas ou varandas dos prédios nas diferentes avenidas e ruas apenas se viam as cores das cortinas e das paredes. São as primeiras horas de um ano ainda "virgem". O de 2010. Um ano investido de esperança para os angolanos, após muitos dias de olhos acordados.
No largo do Porto de Luanda, alguns casais e grupos de jovens desfrutam o dia à sombra das árvores nos bancos limpos. Em cada conversa, um sorriso alegre e de felicidade, revelando o amor que os une e por terem chegado a um ano novo. O ano da festa do futebol africano e da Taça Africana da Nações Orange-Angola-2010.
Francisco Domingos, funcionário público, é um jovem angolano que vende optimismo para o ano 2010. “Faremos um campeonato africano acima da média" diz e justifica a seguir: "por jogarmos em casa".
O factor casa é essencial para o êxito? A resposta não se fez esperar. "Se é um dos condicionantes há outros: temos uma selecção mais entrosada e um técnico experiente que inculca aquilo que pode proporcionar um bom futebol".
Júlio Fragoso, estivador do Porto de Luanda, diz que "a Selecção Nacional está a mostrar a forma e não percamos a esperança”. Uma esperança que cada angolano nutre desde os tempos antigos e cravado em cada geração. A actual sabe que “há grandes selecções que estarão presentes na Taça Africana das Nações Orange-Angola´2010 e Angola deve empenhar-se muito para levar de vencida os adversários".
Entre o optimismo e cepticismo há um fosso pequeno que se constrói no íntimo de cada angolano. O futebol é um desporto de multidões com repercussões graves na saúde humana. É por essa razão que alguns estão a precaver-se de algumas anomalias que possa surgir do desenrolar da competição.
Samuel Dengue, técnico de informática e funcionário público, diz que "sendo Angola, país organizador, esperamos por uma boa campanha, apesar de Angola apresentar resultados nada satisfatórios, comparativamente ao tempo de preparação para o Mundial da Alemanha".
O jovem amante do futebol assegura que "o último jogo de Angola foi mais um treino sem grande importância na estatística daquilo que se espera na festa do futebol africano".
Quem também desvaloriza a derrota de Angola é Francisco Domingos. O funcionário público considera "mais um jogo treino, no qual Angola jogou bem na primeira parte”. A derrota não deve afligir os angolanos, porquanto "o sistema táctico de Angola é bom e durante a Taça Africana das Nações Orange-Angola’2010 podemos chegar às meias-finais”.
O sentimento de optimismo é elevado. Tão elevado quanto à tenacidade demonstrada pelos Palancas Negras nas competições africanas. Edmundo Neto, empreiteiro, diz que "a selecção está boa e os jogadores devem saber que o público angolano está sempre ao seu lado".
É essa energia colectiva e positiva que cada angolano deve transmitir à distância ou não aos Palancas Negras. "Em cada gesto de apoio, estamos a demonstrar a nossa cidadania e amor por Angola", diz António Mateus, efectivo de segurança privada. 

Confiança e cepticismo
moram no seio dos adeptos

Quando faltam oito dias para o pontapé de saída da Taça Africana das Nações Orange-Angola´2010, alguns nomes continuam a soar entre as bocas dos treinadores de bancada. O "puto maravilha” do Petro de Luanda, Job, é um dos jogadores, a par de Gilberto, a quem muito se espera. A sua última actuação deixou divididos alguns prosélitos, que se convergiram no "bom".  A explicação encontrada varia entre o fim da época desportiva em Angola e o cansaço acumulado.
António Mateus, diz que "vimos uma Angola diferente da habitual". E as suas justificações são simples: "O estágio em Portugal, nessa época, não beneficia em nada, porque o comportamento dos atletas na quadra ressentiu da chuva e do frio no último jogo".
Outro argumento encontrado assegura que "a maior parte das selecções que vão desfilar-se na Taça Africana das Nações Orange-Angola´2010 estão a estagiar no nosso continente. Isso prova a importância que se dá à influência da temperatura no corpo humano".
Se o impacto da temperatura ambiental influencia no comportamento humano, é também verdade que o Estádio 11 de Novembro pode constituir-se num “bicho” para os futebolistas angolanos. Quem assim diz, é Samuel Dengue.
"Angola vai apresentar um monumental estádio (o de Luanda) que vai encher em todos os jogos. E muitos dos atletas angolanos serão inimigos de si mesmos, atendendo a força da plateia. São cinquenta mil almas sentadas. Um espectáculo nunca visto no futebol angolano. Para quem desconhece os hábitos dos povos africanos, vai encontrar nesse ambiente o seu pior inimigo. No primeiro jogo, da era Manuel José, efectuado na Cidadela Desportiva, foi visível isso. Alguns atletas sentiram-se traídos pelo aspecto psicológico provocado pela enchente dos espectadores".
Edmundo Neto diz que "há falta de jogadores com qualidades elevadas na Selecção Nacional e abaliza é elo mais fraco”. A sustentação assenta no último jogo: "houve falha na defesa e Manuel José deve velar por esse sector, sob pena de sermos goleados no jogo de abertura".
Edmundo vai mais longe: "O patrão da defesa (Kali) demonstrou a perda de ritmo, pois a rescisão que fez com o seu antigo clube está a pesar agora. Era muito rápido e possante e no último jogo viu-se um Kali diferente e lento na recuperação”.
Francisco Domingos defende posição inversa: “Angola não ganhou o jogo por falta de sorte, porque chegámos muitas vezes à baliza adversária. Os nossos atacantes foram perdulários; não houve eficiência nos remates; jogámos muito bem, principalmente na primeira parte".
Samuel Dengue acusa a falta de ligação entre os sectores intermédios e ataques: "houve momentos que Manucho Gonçalves teve de ajudar o meio campo. Isso só prova que Angola está a ressentir da perda de Makanga naquela posição".
Se o meio-campo é uma dor de cabeça sem remédio nessa fase, há que se encontrar alternativas. "Gilberto é a pessoa ideal para municiar o ataque e Manuel José deve velar por esse sector. A par de Gilberto está o Chara, do Petro de Luanda. São os dois jovens para colmatar a ausência de Makanga".

Vitória na final
é uma crença

A conquista do troféu da Taça Africana das Nações Orange-Angola’2010 é a maior prenda que os Palancas Negras podem oferecer ao povo, cuja estabilidade política e económica é um exemplo mundial.
António Miguel vaticina que "Angola tem de ganhar no jogo de abertura, apesar de defrontar uma forte selecção (Mali), cujos atletas actuam nas melhores equipas do continente europeu". A vitória no jogo de abertura “não é uma vitória qualquer; é o lançamento para o título; é o embalo para o troféu".
Samuel Dengue demonstra um cepticismo encravado na sua alma. Contrariamente ao seu compatriota, o funcionário público diz que "a conquista de título é pedir demais e o seu alcance é utopia". Que razões lhe levam a definir como um pedido utópico? "Se Angola chegar à segunda fase da competição é um milagre, pois pela qualidade do seu futebol não vejo como vencer as duas selecções mais fortes do grupo: Mali e Argélia".
Questionado se com as preces dos angolanos e a energia de todos no Estádio 11 de Novembro, os objectivos deixariam de ser obtidos. Com os olhos pendurados na bandeira de todos os angolanos, uma frase solta escapou: "Se Deus for angolano é possível. No futebol tudo é possível e auguramos o melhor. E esse melhor que se chame Angola".