Jornal dos Desportos

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Reportagens

Faia engrossa comitiva de Angola aos JO do Rio

Franvisco Carvalho - 11 de Abril, 2016

Antónia de Fátima está apurada pela quarta vez consecutiva aos Jogos Olímpicos

Fotografia: Jornal dos Desportos

A emoção de disputar uma prova dos Jogos Olímpicos é tão grande e não há alma que resiste ao feito. O coração tem limites e, nessa hora, cede a pressão. Torna-se tão vulnerável que encontra conforto nas lágrimas. De mansinho, jorram no rosto. É a essência do Amor. O prémio de sacrifício. A recompensa do bem fazer.Entre abraços e sorrisos, no pódio, Antónia de Fátima "Faia" exibiu a medalha de bronze à imprensa internacional perante o olhar de tunisinos, que encheram o pavilhão da capital do país. Faia era uma mulher cheia de orgulho de ser angolana.

Acima de tudo, manifestou nas redes sociais o reconhecimento por quem teme e é a fonte da sua alegria: "Meu Deus, obrigada pela qualificação aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro".  Para Faia, o temor a Deus é a chave de sucesso na sua carreira, que vai encerrar nas terras brasileiras. Humilde e persistente no alcance dos sonhos, a melhor judoca angolana vai participar do quarto torneio de judo dos Jogos Olímpicos, depois de ter marcado presenças em Atenas'2004, Beijing'2008 e Londres'2012.

Dona de uma carreira desportiva de luxo, Faia carrega o apreço das pessoas que a ajudaram a erguer-se do chão desde o bairro Cazenga, em Luanda. Com sorriso nos lábios, descreveu nas redes sociais: "Agradeço a todos aqueles que sempre acreditaram em mim".O crédito à qualificação ao Rio'2016 foi lançado pelo Comité Olímpico Angolano. A instituição liderada por Gustavo da Conceição apostou com seriedade em Antónia de Fátima "Faia" e o Fundo de Desenvolvimento Desportivo disponibilizou na época 100 mil dólares norte-americanos para que participasse de diferentes torneios internacionais.

Com as verbas na mão, Faia lançou-se em busca do sonho: terminar a carreira desportiva nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. O percurso não foi uma pêra doce. Realizou os treinos em diferentes palcos do mundo para obter índices qualificativos. O sonho era cada vez mais sonho. As derrotas preenchiam o caminho e tudo se desvanecia. A determinação e o espírito da mulher guerreira alimentou-lhe a alma. A cada prece a Deus, antes e depois de acordar, encontrou as forças para contornar as barreiras.

No Grand Slam de Paris, Antónia de Fátima teve uma participação razoável. A experiência adquirida em França foi ensaiada no Open de Dusseldorf, na Alemanha. Diante de uma das melhores atletas do mundo, Faia resistiu nos minutos iniciais. Quando tudo levava para largos minutos de combate, a atleta britânica Megan Fletcher aplicou um toke-waza que levou a angolana ao dojo e consequente eliminação do torneio.
O sonho do Rio de Janeiro traçou o caminho para Tunis. Era o palco certo para a obtenção do visto de acesso. Depois de eliminar as adversárias directas, nas qualificativas para o terceiro lugar do Campeonato Africano, Faia tirou da cartola toda a experiência da sua carreira. Revestida de forças de mulher angolana, o pensamento estava direccionado à bandeira vermelha, amarela e prata. Era o tudo ou nada. No final, para o gáudio de todos, a medalha de bronze foi "cravada" no peito.
A satisfação do dever cumprido levou as lágrimas aos olhos. Eram olímpicas. Tão redondas quanto aos seios da mulher mumuila. Natural. Africana. Do mundo. A história da menina do Cazenga está completa.

VELA
Tão certo como é a água do mar, a dupla Matias Montinho e Paixão Afonso exibiram as lágrimas após a última prova de vela, da classe 470, na cidade de Cabo, na África do Sul. Os jovens angolanos vão estrear-se nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Os embaixadores beliscam-se todos os dias e não vejam a hora de ver a bandeira de Angola a esvoaçar na pista do Estádio de Maracanã, palco das cerimónias de abertura e de encerramento.

No íntimo de cada um está guardado o desejo e o sacrifício de realizar o sonho. Foram oito anos de espera e de muito trabalho. Decididos a desembarcar no Rio de Janeiro, com as cores da Nação angolana, Matias Montinho e Paixão Afonso despiram-se de todos outros compromissos. Durante longas horas de treinos, aplicaram os conhecimentos que recebiam de treinadores estrangeiros e nacionais contratados pela Federação Angolana de Desportos Náuticos. Valeu o sacrifício e o apoio das entidades desportivas do país.

BOXE   
Dinheiro estrangeiro priva pugilistas


As histórias bizarras de boxe angolano estão engavetadas. A delegação do país já não vai confrontar-se no Rio de Janeiro com "o esquecimento da hora de pesagem" de Tumba Silva. Desta vez, há silêncio. Nenhum pugilista nacional está qualificado para Rio'2016. O sonho ganha nova dimensão: Japão'2020.

No seio da comunidade, a ausência no Rio de Janeiro é "a pior derrota de Angola" no presente ciclo olímpico. Depois da borrada em Londres, em que Angola foi desqualificada por não se fazer presente na pesagem dos atletas, a capital fluminense devia ser o palco certo para se redimir da organização. Entre o desejo e o sonho, a verdade é que o boxe está privado da participação do torneio dos Jogos Olímpicos.

A delegação angolana não participou do torneio qualificativo realizado de 11 a 19 de Março, em Yaoundé, Camarões, a última oportunidade para obter o passe. Enrique Carrion, o seleccionador nacional, os pugilistas Pedro Gomes, o melhor angolano; Ferdinando Pedro, Raiumundo Gaieta, Menayami Mbimbi e Carlos Masiya verteram lágrimas de tristeza. Era tão grandes que não cabiam em cada um dos cinco círculos que compõe o símbolo olímpico.

Depois de longos meses de preparação, os afectados apregoam que "foi duro ouvir o cancelamento" da participação da selecção nacional no torneio qualificativo de Yaoundé. Pedro Gomes frequentou uma academia na Europa, em regime de estágio pré-competitivo, com vista o torneio de Yaoundé. Os restantes colegas trabalharam com tenacidade no país. A sorte não esteve ao lado do grupo. As dificuldades económicas "chumbaram" a delegação.

O cenário de desistência estava desenhado há muito tempo. Carlos Luis, presidente de direcção da Federação Angolana de Boxe, chegou a admitir a ausência do grupo nos Camarões. "Só uma ordem superior" salvaria a selecção. Infelizmente, este calou-se. Para agravar a situação, as divisas recusaram-se a sair do banco em troca dos kwanzas que estavam às mãos de Carlos Luís. Com a ausência no Rio'2016, o boxe angolano vai contentar-se no seu historial com a primeira participação nos Jogos Olímpicos em Moscovo'1980 e a "meia presença" de Tumba Silva, em Londres'2012. 
FRANCISCO CARVALHO

SELECÇÕES
Preparação depende
da evolução da crise


A poucos menos de quatro meses para o acender da tocha olímpica no Estádio de Maracanã, no Rio de Janeiro, as selecções apuradas para os Jogos Olímpicos estão com trabalho de preparação atrasado.

O andebol é a única modalidade do desporto colectivo com presença garantida. As restantes dominam o desporto individual, na especialidade náutica, concretamente, a vela, remo e natação. Associada a esses desportos, está o judo.Com a apresentação do novo seleccionador de andebol feminino, Felipe Cruz, a Federação Angolana da modalidade garante a existência de meios de trabalho para uma participação condigna. Pedro Godinho, presidente de direcção da Federação Angolana de Andebol, havia manifestado que não fazia sentido convocar a selecção nacional para os Jogos Olímpicos e nomear o seleccionador se não houvesse garantia financeira e logística.

No desporto náutico, a realidade é diferente. Os atletas qualificados para Rio'2016 estão a abraços com dificuldades financeiras para custear a preparação. Face à importância e o nível da competição, a selecção de vela da classe de 470 precisa efectuar estágio no estrangeiro. A interacção com velejadores de outros níveis é fundamental para elevar as performances dos atletas Matias Montinho e Paixão Afonso. Por outro lado, o reconhecimento das águas com antecedência evita surpresas na hora de avaliar a velocidade dos ventos.

Num momento em que várias selecções estrangeiras estão no Rio de Janeiro a estagiar, com vista os torneios dos Jogos Olímpicos, as equipas angolanas nem plano de preparação estão divulgado. A condicionante financeira é apresentada como o principal motivo de atraso. Os custos de preparação são da alçada do Comité Olímpico Angolano, instituição que já veio a público reclamar de verbas para suportar as diferentes selecções apuradas. O vice-presidente Mário Rosa assumiu, recentemente, que estão desprovidos de dinheiro para comprar barcos (vela e remo) para os atletas nacionais.

A preparação também pode afectar o judo e a natação. Antónia de Fátima "Faia" e Pedro Pinotes vão precisar de dinheiro para efectuarem estágio em diferentes palcos mundiais com vista a elevar os níveis competitivos. Com o aperto financeiro, o COA liderado por Gustavo da Conceição deve abrir a mão às instituições internacionais para apoiar o Estado angolano.Nuno Gomes, da Federação Angolana de Desportos Náuticos, defende que todos os agentes desportivos devem estar solidários com o Estado nesse momento difícil da nossa economia.
 FRANCISCO CARVALHO/ ROSA PANZO


GINÁSTICA
Acrobacia financeira impede sonho


Depois de "lançar a pedra" da modalidade, a ginástica angolana elevou-se entre as melhores da zona austral do continente africano. O presidente da Federação Angolana de Ginástica, Auxílio Jacob, tinha como meta a presença nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro'2016. O evento está às portas. E o sonho não passa de sonho. É hora de auxiliar a transferência para Japão'2020.

À semelhança de outros desportos, a ginástica sentiu a pressão forte proporcionada pelo novo modelo de gestão financeira no país. A participação no Campeonato Africano das Nações, realizado de 23 a 26 de Março, na Argélia, ficou condicionada à aquisição de divisas. As moedas estrangeiras "estão a seleccionar" as mãos que as pode receber. Ganharam autonomia de escolha. E as de Jacob...precisam de auxílio. Perante o cenário, só mesmo lágrimas.

A medalha de ouro na Taça de Mundo realizado em Lisboa foi obra de muito trabalho e aspiração de um colectivo. Agora, Paiva Pedro e Márcio António Silapulsa, duas estrelas de momento, devem ser orientado para os Jogos Olímpicos Japão'2020. É a transferência de sonhos.
A ginástica requer muita "ginástica" para lograr o título continental. Angola está no encalço do resgate do título africano obtido em 2014 na Namíbia. A missão é espinhosa. Depois de coleccionar no primeiro troféu seis medalhas de ouro, 12 de prata e cinco de bronze, o resgate vai exigir mais. Muito mais que um grupo de 24 atletas. Pelo número, os custos gritam da banca.
 FRANCISCO CARVALHO