Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Reportagens

Famosinho ajuda garotos a realizar sonhos

António Junior - 11 de Janeiro, 2016

A escola de Famosinho tem jovens praticantes com dotes que um dia lhes tornarão estrelas de equipas nacionais e dos Palancas Negras

Fotografia: José Soares

Longe vão os tempos, que os terrenos baldios  eram improvisados para  servir de campo para os petizes fazerem o gosto ao pé e começarem, cada um a seu jeito e estilo, a despontar para cobiça ou desafio de representar a equipa do coração ou eventualmente a que melhor proposta viesse a apresentar.

Hoje, a par da ocupação desenfreada de tudo quanto é espaço na cidade e na periferia, aliada às dificuldades financeiras, as poucas escolas de futebol que existiam fecharam as portas, deixando muitos garotos à sua sorte, apesar dos grandes clubes do futebol nacional preencherem esse vazio, mas sem capacidade para absorver todos.

Uma das que sobreviveu e ocupa-se dos tempos livres de alguns garotos - retirando muitos deles da prática nocivas - é a Famosinho Escola de Futebol do Município do Cazenga.

 A  vida no estabelecimento começa muito cedo, com a concentração dos meninos a partir das 7h00 e às 8h00 os pequenos entrarem em cena (treino) para o ensino do A,B,C do futebol.

A reportagem do Jornal dos Desportos deslocou-se ao campo das Manguerinhas, que é o seu Quartel-General, na comuna do Hoji ya Henda, precisamente nas proximidades do antigo Centro Recreativo e Cultural "Mãe Preta" para constatar o dia a dia da estrutura humana (treinador, atletas e equipas de apoio) que lá labutam.

O proprietário e técnico principal da Escola, Eufrasino Mateus Leão,  tratado por "Famosinho", fez as honras da casa. Confessou ao JD que apesar das dificuldades que enfrenta para levar por diante o projecto " faço tudo com muito carinho para ajudar estes garotos", revelou.

Os recursos financeiros, praticamente não existem, mas o sorriso está sempre patente no rosto, a demonstrar que ainda existem pessoas que correm por gosto, "quando estamos apostados numa causa justa, não olhamos a meios", acentuou.

Conta, que o objectivo é tirar os meninos dos maus caminhos, para  abraçarem  um futuro que pode ser risonho, dá-lhes a alternativa de aproveitamento das horas livres, tira-lhes da vadiagem e consequentemente afasta-os do caminho das drogas.

"Tudo por amor à camisola. Gosto de trabalhar com os meninos, ensinar  a jogar a bola e tornarem-se homens de bem no futuro, ainda que a carreira como futebolística não seja o objectivo traçado", começou por dizer o nosso interlocutor algo emocionado.

ADMISÂO
“A prioridade é para os estudantes”

A escola movimenta dois escalões: iniciados e infantis. Recebe meninos a partir dos seis aos 14 anos de idade. Actualmente, movimenta 50 meninos nos infantis e  igual número nos iniciados.

"O meu primeiro grande objectivo e desafio era trabalhar com os meninos na comunidade,  para a  ocupação  de tempos livres, mas no decorrer do tempo o número de pequenos interessados na prática do futebol aumentou e muitos deles,  estão a pensar  muito seriamente na prática de futebol", realçou.

Sublinhou, que ao longo do tempo, com o passa palavra no seio dos garotos, muitas crianças oriundas de outros paragens acorreram em massa para a escola, mas a falta de condições e de algumas limitações "fomos obrigados a restringir, porque não tínhamos capacidade de resposta", lamentou com o semblante triste. 

"São uma centena de miúdos que participam diariamente nos treinos. Eles recebem uniformes, treinam e aprendem os fundamentos do futebol e não pagam nada", esclareceu o proprietário da escola.

Famosinho explicou que não tem sido muito exigente nos requisitos para admissão dos interessados, mas a prioridade recai sobre os estudantes, porque depois dos testes os melhores ficam apurados  e passam a alunos da instituição.

"Para recebermos um menino, precisamos apenas da sua documentação (fotocópia do BI) e depois  com um teste, que se  baseia  na realização de um  jogo, logo  avaliamos as suas qualidades. Devo realçar que a prioridade é para os estudante", precisou.
 
DIFICULDADES
Escola clama por apoios

O mentor do ambicioso projecto e que muito tem contribuído para a pesquisa de talentos, lamenta o facto de não obstante o papel social da agremiação que dirige, não recebe apoio de qualquer força viva da sociedade ou instituição.  "A situação é precária. Para o projecto manter-se de pé,  desdobro-me  para que as crianças não percam a oportunidade de demonstrarem o  talento em busca do sonho que auguram", confessou.

"Falei com os pais dos pequenos, no sentido de uma contrapartida financeira mesmo de valor simbólico, mas não fui bem sucedido por falta de interesse dos mesmos e das limitações que enfrentam, para além das muitas cartas que foram enviadas a determinados organismos a solicitar apoios", apelou.

É com alguma nostalgia que se recorda de um episódio que o deixou muito constrangido: "Um dos atletas esteve doente e  com o objectivo de o ajudar no tocante  ao tratamento, solicitei uma contribuição de AKz 50.00  por  cada, nem todos ajudaram com a  alegação de não estarem disponíveis", contou.

Dada a quantidade de jogadores à sua disposição, devia haver algum apoio ou incentivo da sociedade, porque considera ter chegado altura das pessoas reconhecerem  o que tem feito em prol do país.  A única viatura que possui e transporta os atletas  para o jogo que disputa  com outras equipas, no quadro de intercâmbios com os outros clubes para dar alguma rodagem competitiva aos miúdos, foi adquirida com os seus recursos.

"Tudo o  que faço para o bem destas crianças, é com os meus recursos,  com o objectivo de ajudar os meninos na compra de equipamento e outros materiais para viabilizar o seu funcionamento, desde bolas, cones, redes, coletes, camisolas, meias, calções, botas e muito outros materiais que para os adquirir são precisos recursos financeiros, sem descurar a alimentação, no caso de lanches e almoços nos dias dos jogos", completou.

AMOR À PROFISSÃO
Duas décadas e meia
em prol da formação


Fundada em 27 de Janeiro 2001, por Eufrasino Mateus Leão, conhecido por "Famosinho", treinador e dono do clube é formado em Educação Física pelo Instituto Nacional de Futebol de Federação de Futebol do Chile.

Ao longo da  carreira participou em várias palestras, cursos de refrescamento e actualização, com destaque para a Formação e Desenvolvimento Multi-forme do Atleta, Frequência na Primeira Jornada Técnica Desportiva Comunitária realizada pela Anateno -ONG.

Participou ainda no I Seminário Nacional de Treino para Jovens, organizado pelo Santos Futebol Clube de Angola e em alguns congressos internacionais.
Da experiência e ensinamentos que adquiriu ao longo da  formação e na carreira como técnico, permitiu-lhe lançar no mercado futebolístico nacional alguns jovens com talento e que hoje integram algumas equipas de top do futebol nacional.    

Adiantou, que os atletas que se destacam ao longo da época, a escola transfere para os clubes com maior condição, de formas a possibilitar que os jovens dêem continuidade à carreira nos clubes com melhores condições.

SONHOS DOS PETIZES
“Quero ser profissional”

Visitar uma escola de futebol e não presenciar uma sessão de treinos para testemunhar a qualidade e o nível dos atletas que ali evoluem, é como ir a Roma e não visitar o Vaticano.  A reportagem do JD foi agraciada com esse "privilégio" e ficou encantado com que o viu.

Talento é o que há de mais naquela escola e acreditamos que com apoio e acompanhamento, eles podem num futuro breve dar muitas alegrias ao futebol angolano. Com uma assistência considerável, o atacante "Cadon" com oito anos de idade fez as honras da casa. A jogar na posição de ponta de lança, o garoto é uma “maravilha” e demonstra ter alguma intimidade com a bola.

"Quero jogar e aprender muito mais, para me tornar no futuro um grande futebolista profissional. A minha inspiração é o atacante Ary Papel", revelou.
Josef Contreiras é outro jovem, com 12 anos de idade, que se tem  evidenciado na Escola Formosinho FC. Confessou que o seu objectivo é trabalhar com dedicação para subir na vida, mas reconhece que é necessário sacrifício.

"Tenho um sonho e pretendo realizar, mas estou ciente que é necessário muito trabalho, empenho e dedicação para concretizar esse objectivo", reconheceu.

PROJECTO
“Trabalho para formar
homens e bons atletas”

Com a falta de apoios e com o agravar das dificuldades financeiras que o país enfrenta, receia que as coisas nos próximos dias possam complicar-se ainda mais,  teme o futuro de alguns jovens que têm talento e podem enveredar nas práticas nocivas.

"É um projecto sério e o objectivo é que à medida que o nosso futebol precisar destes jovens, eles estejam disponíveis. Para além disso, trabalhamos para formar  cidadãos para o futuro, mas se as coisas se complicarem temo o futuro deste garotos", assinalou.

Admitiu que a Escola Famosinho é já uma referência na província de Luanda e não só, tem recebido o apoio moral de muita boa gente, que faz uma avaliação positiva do seu trabalho. Disse que nos torneios em que participa, a nível da capital e no interior do país, tem obtido bons resultados.

"Não tem sido fácil gerir 100 crianças sem um suporte financeiro, porquanto, tudo depende do parco salário que recebo a partir da Educação onde sou professor de educação física", salientou.

Por falta de verbas, o "manager" e técnico da agremiação recorda que no principio eram três, mas com o decorrer do tempo e  face às dificuldades, os outros abandonaram o projecto. "O pouco que consigo é para garantir o lanche dos petizes e a compra do material. Não estou em condições de pagar outro técnico", clarificou.