Jornal dos Desportos

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Reportagens

Federao realiza campanha de captao de novos valores

Jlio Gaiano, em Benguela - 21 de Setembro, 2010

Prospeco de talentos para o futebol passa por Benguela

Fotografia: Jornal dos Desportos

Uma campanha de prospecção e captação de valores para posterior enquadramento nas convocatórias das distintas selecções nacionais foi realizada, recentemente, pela coordenação das selecções nacionais da Federação Angolana de Futebol, nas cidades de Benguela e Lobito e na vila da Catumbela. Por razões do calendário, a actividade limitou-se às três localidades, podendo, numa futura empreitada (ainda sem data), estender-se aos demais municípios, nomeadamente, Baía-farta, Chongorói, Caimbambo, Cubal, Ganda, Balombo e Bocóio, dado o movimente crescente do futebol nos escalões infanto-juvenis que ali se faz sentir nos tempos que correm.

O Jornal dos Desportos soube de fontes próximas da Associação Provincial de Futebol de Benguela e de clubes locais, que apesar de bastante curto, o trabalho realizado em terras benguelenses foi proveitoso, pois serviu para mostrar aos responsáveis pelas camadas de formação (Sub-17 e Sub-20) as potencialidades da província em termos de atletas em fase de formação.

Durante quatro dias, ou seja, de quinta-feira a domingo, a equipa técnica liderada pelo francês Laurent Bonadei e integrada por Miller Gomes, Nzuzi André e Manuel Costa, além de outras individualidades ligadas à FAF, visitaram as escolas dos principais clubes da província, como a Académica Petróleos Clube do Lobito, Electro Sport Clube do Lobito, União Desportiva e Recreativa da Catumbela, Estrela Clube 1º de Maio de Benguela, Nacional de Benguela e Sporting Clube de Benguela.

Treinador em baixa
na liderança dos palanquinhas

Desde que assumiu o comando técnico da Selecção de Futebol em Sub- 17, Manuel Costa (Nelinho), somou mais derrotas que vitórias, tornando-se numa "presa" fácil para os seus adversários da nossa região. O respeito e a cautela há muito transformaram-se em prazer para defrontar os nossos Sub-17. De competidores, passaram a meros participantes em Torneios Regionais da COSAFA. Conquistar provas passou a ser um sonho dos "palanquinhas". 

E, para assombrar ainda mais o quadro, nas duas presenças que marcaram no Torneio da Lusofonia (no Brasil, 3º classificados e em Moçambique, 4º classificados), a presença dos Sub-17 foi um autêntico desastre. Mesmo jogando mal, nos referidos torneios, o técnico atirou as culpas aos árbitros. Na visão de Raimundo Waposoka, agente de futebol, tudo isso tem a ver com o menosprezo que os técnicos indicados para orientar as selecções nacionais, com grande realce os das camadas jovens, dão aos outros atletas que evoluem em campeonatos das outras provínciais, limitando-se aos que competem em provas da capital.

"A continuarem nesta senda, dificilmente teremos uma selecção forte e vencedora", concluiu o interlocutor, acrescentando que a FAF não está alheia a essa situação, pelo que devia ser a primeira a ser responsabilizada, já que ficou provado que tem dado pouca atenção às selecções de formação.

Projecto vai se estender
a outras províncias do país

O projecto, lançado na província de Benguela, pode estender-se, já nos próximos tempos, a outras províncias do país de forma a alargar o leque de jogadores seleccionáveis."Descongestionar" a cidade capital (Luanda) que, por razões óbvias, tem sido a principal fornecedora de atletas para representar o país, é o que os técnicos das distintas selecções nacionais pretendem. Observadores atentos ao evoluir do futebol nacional asseguram que, os repetidos deslizes que o país tem somado nas diferentes frentes internacionais estão associados aos critérios aplicados nas convocatórias de atletas para representar o país em provas de carácter internacional.

Os mesmos dão primazia aos que evoluem em campeonatos luandinos, muitos dos quais menos dotados atlética, táctica e tecnicamente, que os que evoluem em campeonatos das demais províncias.Por isso, são de opinião que o sucesso esperado com a materialização desta acção, em deslocar-se, regularmente a outras províncias, depende das condições colocadas às associações provinciais, de forma a realizarem um trabalho profícuo junto dos clubes, onde forem detectados atletas seleccionáveis para as referidas camadas de formação.

Nesse trabalho a desenvolver no interior do país, defende-se o envolvimento, além das entidades desportivas afectas ao futebol, outras forças vivas ligadas a distintas esferas da sociedade das respectivas províncias, como empresários, governantes, professores, entidades eclesiásticas e tradicionais.

Agentes contrariam
declarações de Nelinho

As declarações proferidas pelo técnico da Selecção Nacional de Futebol em Sub-17, Manuel Costa "Nelinho", segundo as quais, a nível das províncias o futebol é menos competitivo, sendo essa a razão de se ter, repetidas vezes, recorrido aos atletas que evoluem em campeonatos provinciais de Luanda, foram refutadas pelos agentes do desporto em Benguela, que as qualificaram de infundadas.

Após o empate dos Sub-17, diante das Ilhas Reunião (2-2), que ditou o seu afastamento à corrida ao Campeonato Africano das Nações a decorrer no Ruanda no ano que vem, o professor Manuel Costa, para além de lamentar o desaire da nossa selecção, considerou normal o sucedido, visto que tudo foi feito às pressas, sem o tempo necessário para preparar uma equipa forte e capaz de proporcionar uma exibição diferente daquela que resultou no seu afastamento da referida eliminatória. 

Ainda assim, além de reconhecer as dificuldades que enfrentaram ao longo dos preparativos, revelou desconhecimento dos trabalhos realizados fora do circuito luandino. "Temos informações de que nas províncias a competição é fraca e pouco se trabalha nas camadas de formação", havia dito.

O momento foi aproveitado para anunciar à imprensa a deslocação às províncias, com o objectivo de se inteirar do trabalho realizados nos clubes, sobretudo nas camadas de formação. Inclusive prometeu encontros com os respectivos técnicos. "Precisamos de alargar o leque de convocados para as selecções nacionais e isto só será possível se nos deslocarmos e conhecermos atletas que nos indicarem.

Não vai ser fácil, já que o trabalho exige dinheiro e a FAF não dispõe de valores suficientes para, sozinha, suportar tal encargo", frisou.
Estas declarações, apesar de realistas, tiveram interpretações díspares entre os agentes desportivos benguelenses, tendo alguns as considerado "inoportunas e próprias de alguém que ainda não se apercebeu que está a exercer um cargo fora das suas capacidades técnicas e desportivas".

"Ao invés de passar a vida a desculpar-se pelos constantes desaires, o professor Nelinho Costa devia ganhar coragem e admitir que está a exercer um cargo que nada tem a ver com as suas qualidades técnicas.Para o seu bem e do país, devia colocar o lugar à disposição de quem o contratou, no caso a FAF e, desta feita, deixar de menosprezar o trabalho realizado nas restantes províncias do país", comentam agentes contactados pela reportagem, visivelmente aborrecidos com a atitude do seleccionador nacional de Sub-17.

Já outros preferem dar tempo ao jovem treinador na liderança dos palanquinhas, até porque a própria direcção da federação, através do seu secretário-geral, Augusto Silva "Alvarito", foi o primeiro a assumir a culpa pelos fracassos que as selecções jovens vêm acumulando nos dias que correm.

Benguela concebe
comissões técnicas

Com vista à materialização do programa gizado pela direcção da Federação Angolana de Futebol, que passa por fortalecer o futebol nacional nas distintas selecções, que, ultimamente  têm relevado alguma fragilidade em termos de resultados nas diferentes frentes internacionais, a Associação Provincial de Benguela constituiu, recentemente, equipas técnicas para as selecções locais.

Assim, para o escalão de seniores, a associação local indicou o técnico da Académica Petróleos Clube do Lobito, José Alberto Agostinho "Tramagal", enquanto as restantes categorias, Sub-20 e Sub-17, passaram para a responsabilidade de Águas da Silva e Feliciano Rasgado (Chano), respectivamente. O primeiro está vinculado ao Estrela Clube 1º de Maio de Benguela, ao passo que o segundo coordena tecnicamente o projecto futebolístico da Associação Acácias Rubras de Benguela.

Os Sub-17 benguelenses tiveram a sua primeira participação oficial no Torneio Nacional da FESA, edição 2010, em Luanda, tendo conquistado a medalha de bronze, fruto do terceiro lugar alcançado. Os Sub-20 apenas tiveram a sua aparição num jogo-treino que serviu de teste da selecção nacional de Sub-17 que, em Benguela, defrontou e empatou (2-2) com a sua similar das Ilhas Reunião, resultado insuficiente para continuar a marcha para o "africano" da referida categoria que o Ruanda se apronta para organizar em 2011. No embate com os "palanquinhas", os benguelenses empataram por um golo.

"Denotamos muita
qualidade nos atletas"

O professor Miller Gomes, um dos integrantes da comitiva da FAF que em Benguela trabalhou na pesquisa de valores para as futuras selecções nacionais, manifestou-se surpreso pela entrega e habilidades denotadas aos petizes sondados. Segundo Miller Gomes, o trabalho realizado em terras benguelenses foi positivo, apesar do escasso tempo, isto é, de quinta-feira a domingo. "Denotamos muita qualidade nos garotos. Ainda assim, precisam de algum trabalho de base, o que é ultrapassável desde que os mesmos se empenhem nos treinos".

Sem revelar nomes dos atletas que mais se despontaram no referido trabalho de pesquisa junto dos clubes em Benguela, o jovem treinador assegurou ter tirado ilações sobre aquilo que será, o futuro, a respeito dos atletas sondados. Promete voltar nos próximos dias a Benguela com o mesmo propósito, podendo desta vez alargar o raio de acção, ou seja, estender a sua actividade para outros clubes e municípios da província, algo que está dependente de apoios institucionais e materiais que as entidades locais poderem proporcionar à sua equipa de trabalho.


Mário Luvambo louva
trabalho da federação

O trabalho realizado pelo Departamento das Selecções Jovens de Benguela é considerado positivo em distintas personalidades da sociedade local, dentre os quais desportistas e antigos praticantes da modalidade-rainha, que enaltecem a iniciativa do órgão reitor do futebol nacional. O secretário-geral da Associação Provincial de Futebol de Benguela, Mário Luvambo, é um dos que se manifestaram pela positiva e louva o trabalho desenvolvido em terras de o’mbaka.

Para ele, o trabalho é, a todos os títulos, positivo e da parte da associação tem todo o apoio, já que está em causa o progresso do futebol nacional. "Sempre fui apologista de que para as selecções nacionais, sobretudo nos escalões de base, devam ser chamados os melhores do momento. Isto passa por se alargar o leque dos convocados, recorrendo às outras localidades do país como Benguela, Huambo, Huíla, Namibe, Bié, Cabinda, para citar apenas estas", precisou.

Na óptica de Luvambo, os resultados negativos que as selecções nacionais têm somado nas campanhas internacionais nada têm a ver com a metodologia imprimida pela direcção da FAF, tão-pouco dos seleccionadores nacionais. São sim resultantes de uma conjuntura (triste) que o futebol angolano atravessa e que urge a necessidade de se ultrapassar, contando com a colaboração de todas as forças vivas do futebol angolano.

"É preciso reconhecer, que a nível da federação se tem feito tudo no sentido de se melhorar a qualidade do nosso futebol, mas sozinhos, por mais que se queira, não se pode fazer muito mais. Isto é o que os nossos adeptos deveriam saber. Os resultados não são os mais desejados, reconhecemos; mas isto de atirar culpas à FAF e ignorar as acções dos clubes é, no mínimo, acusar em falso com fortes pretensões de visar indivíduos que saem vitimados pela situação reinantes", ajuntou o secretário-geral da associação de futebol benguelense.

Província já foi a segunda potência
da modalidade 

Benguela foi, num passado recente, considerada a segunda maior potência do futebol nacional, superada apenas por Luanda. Até finais da década de 90, foi a principal fornecedora de atletas para as selecções nacionais, isto desde as honras às categorias de formação.
O Sporting Clube do Lobito, o Eléctro Sport Clube do Lobito, Comércio Gaiatos Sport Clube de Benguela e Nacional Sport Clube de Benguela destacavam-se entre as demais agremiações desportivas que na província formaram jogadores talentosos para o país, tendo, muitos deles, representado os principais clubes do Girabola e outros ainda que atingiram o profissionalismo.

Actualmente, o quadro mudou de forma drástica, facto que deixa muito boa gente ligada ao futebol triste. Para agravar ainda mais o cenário, o horizonte continua ensombrado, anunciando dias piores caso as coisas se mantenham como estão. Os clubes desenrascam-se como podem, ante a passividade das entidades competentes. Está tudo num mar de incertezas, pelo que se augura que o ensaio da federação sirva para despertar a atenção e interesse das entidades afins da província em apoiar o futebol local. Caso contrário, pode ficar complicado, para a infelicidade dos benguelenses, há muito distanciados das fortes emoções futebolísticas.