Jornal dos Desportos

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Reportagens

Federao salva projectos com doao de material

Gaudncio Hamelay, no Lubango - 27 de Março, 2016

Formao de crianas nas escolas huilanas conta com equipamento de alta qualidade

Fotografia: M. Machangongo

Do sonho à realidade. As lágrimas deram lugar ao sorriso. Uma transformação sem igual na história do Projecto Okuhateka e da Associação de Professores de Educação Física da Huíla. Carentes de materiais desportivos, as duas instituições huilana tinham os sonhos crispados. O deserto era mais quente e sem vislumbre de oásis. A cada dia era uma desesperança. Um futuro revestido de breu.

O desejo de formar campeões era apenas desejo. Depois do clamor apregoado ao vento, a solidariedade chegou da Federação Angolana de Atletismo num dia diferente para projectos comuns. Movido pelo sentimento patriótico, a direcção liderada por Carlos Rosa, em coordenação com o Ministério da Educação, trouxeram para a cidade de Lubango materiais de lançamento e de peso, como dardos; cones, barreiras, fitas métricas, bolas medicinais, entre outros específicos.

Em cerimónia realizada no pavilhão do Sporting Clube de Lubango, perante o olhar atento dos agentes desportivos, a Federação Angolana de Atletismo e o Ministério da Educação doaram todo o material ao Projecto Okuhateka e à Associação de Professores de Educação Física da Huíla.

O grito de esperança ecoou no pavilhão verde e branco. Em cada rosto de professores presentes na bancada via-se o brilho da felicidade. As escolas públicas e privadas estão mais bem servidas e prontas para trabalhar na implementação do atletismo, no âmbito da massificação desportiva em Angola.

Carlos Rosa era um homem feliz. O presidente da Federação Angolana de Atletismo esclareceu que o objectivo do material doado não é exclusivamente a detenção de talentos nas escolas, mas deve haver a perspicácia de professores de educação física na avaliação de qualidades motoras dos diferentes alunos e encaminhá-los para as modalidades dentro do programa de formação.

"Fizemos a entrega formal do kit atlético à Associação Provincial de Professores de Educação Física da Huíla, dentro do projecto de massificação de formadores para o comprometimento da nossa modalidade", disse.

Carlos Rosa lembrou que no mês de Fevereiro foi dado o primeiro passo. "Infelizmente, depois de nove meses, conseguimos implementar este projecto em Angola", referiu.

O presidente da Federação Angolana de Atletismo esclareceu que existe um protocolo assinado entre a Federação Angolana de Atletismo e o Ministério da Educação, concretamente, com a sua Direcção Nacional de Acção Social. Com a implementação do projecto, "agora resta a responsabilidade da implementação" em todas as escolas seleccionadas.

A província da Huíla tem 20 formadores preparados para levar avante o projecto. Carlos Rosa esclareceu que cada um tem a responsabilidade de formar 24 monitores de atletismo.

"Felizmente, a província da Huíla deu o primeiro passo. Estão formados neste momento quatro dezenas de monitores (dos 480 necessários) e vamos fazer a entrega de certificados", prometeu.

O número um da federação angolana apelou à responsabilidade dos monitores para uma formação adequada dos petizes. Por outro lado, deixou à mercê dos formadores locais a escolha de uma data para a realização de um festival de atletismo com a envolvência das diferentes escolas abrangidas pelo projecto.


SECTOR FEMININO

Fraco incentivo retira mulheres das pistas


Depois de tempos áureos com Ana Isabel, Guilhermina Prata, Filomena Cruz, Maria Cutela, Albina Assis, Filomena Silva, o atletismo feminino não teve suporte para manter a imagem no pódio. O fraco incentivo à prática aliado aos hábitos e costumes locais ditaram o afastamento das mulheres das pistas e das estradas. Hoje, o sector feminino está cada vez pior.

Carlos Rosa, presidente da Federação Angolana de Atletismo, reconhece o fraco trabalho em prol do resgate das mulheres. O dirigente deposita a esperança da glória feminina no Projecto Okuhateka, liderada pela antiga fundista Ana Isabel.

"Estamos muito mal no sector feminino. É a realidade. Infelizmente, estamos com uma situação que se generaliza um pouco por todo o país. Por isso, é importante trabalhar nas escolas. O kit atlético atribuído é também para esse fim", disse.

Para Carlos Rosa, existem bons projectos de massificação de atletismo no país, como a Escola de Assessoria Desportiva Manuel Jamba (implementada somente na cidade de Lubango). O destaque vai para o Projecto Okuhateka, de Ana Isabel, que está ramificada nos 14 municípios da província da Huíla.
"É preciso continuar a trabalhar. O factor humano continua. Todos os anos surgem novos valores. O projecto Okuhateka lançou-se em alguns municípios da província da Huíla e vamos receber a participação de muitas atletas neste sector. O importante é o encaminhamento”, realçou.

A emancipação feminina deve ser prioridade dos responsáveis dos projectos. A luta contra hábitos e costumes locais é grande. Na Huíla, a preservação de valores culturais é uma condição familiar. Para abdicar dessa vivência, o apoio social e desportivo deve superar o rendimento familiar. Essa é a realidade da Huíla.

Carlos Rosa está atento aos hábitos locais. O número um da Federação de Atletismo asseverou que as adolescentes ligadas à modalidade têm dificuldades para prosseguir com o atletismo na fase adulta. Fruto de relacionamentos precoces, aos 15 e 16 anos de idade, as meninas constituem famílias e a responsabilidade de filhos e maridos retira o tempo disponível para a prática desportiva.

Para contornar a situação, Carlos Rosa prometeu trabalhar em parceria com os Ministérios da Reinserção Social e da Família e Promoção da Mulher no sentido de incutir nas famílias o conceito de tempo para desporto.

"É preciso passar uma mensagem nos nossos filhos que tudo tem as suas etapas. Devem constituir as suas famílias, mas devem dar prioridade à formação académica, prática desportiva e na faixa etária dos 20 e 22 podem constituir a família”, apontou.

Para o dirigente "é complicado ver as adolescentes de 14 e 15 anos grávidas", às vezes, "com alto índice de progressão".


MATERIAL
Projecto Okuhateka
promete conservação


A coordenadora do projecto de massificação do atletismo Okuhateka, Ana Isabel, prometeu conservar o material recepcionado e enalteceu o gesto proporcionado pela Federação Angolana de Atletismo. A dirigente realçou que é um gesto valioso por acudir a carência de material para a formação de atletas.

Apesar do volume de equipamento não satisfazer a necessidade total do Projecto Okuhateka, Ana Isabel valorizou a "importância e o significado da doação" da Federação Angolana de Atletismo e do Ministério da Educação. Com semblante regozijado, a proprietária do Projecto Okuhateka ressaltou que "para uma boa conservação, este material vai ficar sob a responsabilidade da direcção provincial da Educação da Huíla".

O Projecto Okuhateka está inserido no programa de massificação do atletismo nas escolas da direcção provincial da Educação da Huíla. Nesse âmbito, Ana Isabel esclareceu que cada professor de educação física deve requisitar o material para uso nas aulas. Findo o trabalho, deve fazer a devolução.

Questionada para comentar a qualidade do material, Ana Isabel disse que o equipamento "é prático para ensinar o ABC de atletismo às crianças". A antiga fundista manifestou alguma tristeza por não ter sido contemplada com meios para alto rendimento. Ana Isabel disse que dado o avançado estado de formação, os atletas do Projecto Okuhateka precisam de "material específico".

"Precisávamos de outro tipo de material mais específico. Contudo, vamos aceitar a realidade do nosso país e o material é bem-vindo", disse.
       GAUDÊNCIO HAMELAY | NO LUBANGO


OUTRAS PROVíNCIAS
Namibe e Cuanza Sul são prioridades


O programa de entrega de kits atléticos é de âmbito nacional. A Huíla teve o privilégio de inaugurar, na zona Sul, o fornecimento pelas características próprias das suas escolas. É o berçário do atletismo na actualidade. Os campeões nacionais fazem aqui moradas e treinamento. Tem as escolas de formação mais famosas do país.

Os atributos das escolas huilanas são insuficientes numa comparação com duas outras províncias do país. Carlos Rosa advoga que Cuanza Sul e Namibe são as que melhor trabalham nos escalões de formação. Por esse mérito são as próximas a receber os kits atléticos.

O Cuando Cubango está no bom caminho, mas carece de apoios para dar continuidade ao programa. O dirigente federativo assegura que a direcção das "ex-terras do fim do mundo" deve dar mais impulso na criação de condições para implementar a massificação nos municípios.

À semelhança da Huíla, Namibe, Cuanza Sul e Namibe, que beneficiaram de acção de formação de formadores promovido pela Federação de Atletismo, outras províncias vão acolher o programa. Carlos Rosa avançou que a IAAF nomeou o angolano Anselmo Liatunga e um especialista cubano para levar acabo acções de formação de formadores.

A Federação de Atletismo tem 15 kits atléticos para distribuir nas províncias que trabalham efectivamente nos escalões de formação. Para Carlos Rosa, Cuando Cubango não deve ficar de fora das contempladas, assim como Namibe e Cuanza Sul.

"O país tem 18 províncias e não temos materiais suficientes para cobrir toda a extensão territorial. Dos 15 kits atléticos disponíveis, apenas vamos dar às províncias que trabalham nos escalões  de formação", disse.

A cidade de Luanda foi a primeira a beneficiar do programa de recepção de kits atléticos. A Federação e o Ministério da Educação vão voltar a entregar os equipamentos a três outros municípios da capital. O objectivo é distribuir os 15 kits atléticos pelo país, segundo Rosa.

"A Federação não tem a necessidade de ficar com os kits dentro dos armazéns. Até Maio ou Junho, temos de entregar esses kits", anunciou.