Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Reportagens

Festim petrolífero contagia Cidadela

20 de Outubro, 2009

Jovem doente foi socorrido pela equipa do Petro de Luanda

Fotografia: Jornal dos Desportos

A busca de um abraço pelo golo marcado "acordou" os espectadores e adeptos que já se afligiam pelo insistente empate. O grito em uníssono, numa comunhão petrolífera, ensurdeceu a cátedra do futebol angolano. Um ruído revestido de cores amarela e azul solto da alma de cada adepto ou sócio.
O Estádio da Cidadela Desportiva era um espaço, onde a esperança do título nunca havia sido tão questionado, mas a sua coroação implicava uma vitória sobre a jovem equipa do Atlético Sport Aviação. Assim teve de ser para que a claque do eixo-viário e a sua direcção saísse satisfeita e em paz pelo trabalho desenvolvido ao longo da época desportiva.
Bandeiras, camisolas, calções e cachecóis desfraldaram em todo o primeiro anel e nos camarotes do estádio. Em cada mão, um objecto amarelo ou azul, as cores da marca dos campeões dos campeões. Era a festa da equipa mais vencedora de Angola: 15 títulos.
Em meio a euforia, houve quem não suportou a emoção pela consagração da sua equipa de coração. As lágrimas alegres verteram de mansinho numa vertente de um riacho nos rostos pálidos de adeptos. Jovens que sofrem e têm o Petro de Luanda no coração como uma família. Para si, a equipa representa tudo na vida. "Quem me tira o Petro de Luanda, sou capaz de fazer coisas impossíveis", disse Adriano, mecânico de profissão.
A festa do Catetão não foi uma pêra doce. As intrigas e as brigas também fizeram morada nas bancadas. Enquanto, um adepto “desfalecia” nas bancadas por ter sido atacado pela crise de Epilepsia, um frango assado de Lama permitiu o empate do ASA.
O ataque de nervos subiu de tonalidade entre adeptos e sócios, quando o ASA ostentou maior posse de bola, dando um “show” na segunda parte do encontro. A substituição do cabo-verdiano Umberto, no Petro de Luanda, gerou discussões sérias entre a sua esposa Janine (com quem vive há 14 anos e sem filhos) e um jovem adepto que se congratulou com a posição do técnico. A cabo-verdiana não gostou do termo “não joga nada” dirigido ao seu marido e tudo ficou às contas de troca de palavrões.
Quem também se embirrou em brigas foi o ex-futebolista dos Makotas de Malanje, Amuleto Campos. O pai do defesa do Petro de Luanda, Renato Campos, não gostou dos palavrões que um adepto dirigiu ao seu filho, quando evitou lançar a bola para um contra-ataque. Abriu-se uma “batalha campal” que só terminou, quando os petrolíferos subiram de produção na recta final da contenda.
A “guerra” entre os adeptos e os sócios resultava da impaciência pelo golo tão esperado. A adrenalina estava em alta e só a vitória pintaria as cores da paz. E foi o que se viu. O frango grelhado de Nuno juntou Amuletos Campos e o seu “correligionário” com quem havia trocado palavras “soltas”, quase ao longo de toda a segunda parte. “Um golo de paz”, assim se pode dizer ao segundo do Petro de Luanda. O grito em uníssono, numa comunhão
petrolífera, ensurdeceu a cátedra do
futebol angolano.

Job falta à promessa

Quem teria a força para controlar a emoção do golo marcado por Job, na recta final do jogo? Nem o “Rei” David, o goleador sensacional que às vezes comemora de uma maneira “suis generi”: de forma fria. Job rompeu as “cordas da bolsa” e pendurou-se no arame do campo com um grito revestido de forte emoção diante da claque petrolífera. O contágio emitido “incendiou” o estádio. É uma cena que não foi ensaiada, mas que custou o peso de consciência.
“Eu havia prometido não festejar a consagração do título contra o ASA porque é a equipa que me formou e a tenho no coração. O meu acto foi involuntário e nunca me vou perdoar”, disse Job no final da partida com um semblante meio tristonho.
Encostado no banco de suplentes, enquanto os colegas vibravam por todo o tapete verde, Job “penitenciava-se” em silêncio por ter faltado a promessa. O seu estado sereno denunciava o sofrimento que lhe vinha da alma.

Campeões evocam humildade
como maior segredo do sucesso

Na vitória de consagração do Petro de Luanda, os principais artilheiros do troféu desvendaram o sentimento que os corroía na alma, depois de três tentativas consecutivas. O defesa esquerdo, Iamba Asha, diz que “foi difícil a conquista do título e o dedica à sua família e adeptos que souberam esperar com tranquilidade”. Iamba Asha promete “trabalhar mais” para que a sua participação na Liga de Campeões seja um “êxito, contrariamente às edições anteriores”.
O potencial vencedor da lista de melhores marcadores do Girabola’2009, o “Rei” David diz-se sentir-se “feliz” pela conquista do seu segundo título de campeão nacional e a sensação que lhe invade no peito “é tão agradável quanto a um refrigerante”. Em jeito de balanço, o médio-trinco David afirma que “a conquista do título é sempre difícil, porquanto as equipas trabalham para o mesmo propósito”.
O jovem defesa central Carlão brotava alegria em cada parte do seu corpo. Gingando na relva do estádio, em cada abraço um sorriso de satisfação pela conquista do seu segundo título de campeão nacional. “Valeu o sacrifício que fizemos durante esse tempo todo. Tivemos um grande grupo que sempre esteve unido em todas as ocasiões. O trabalho duro de cada um de nós resulta na compensação que hoje estamos a viver: a conquista de mais um troféu e um título. Houve muita humildade por parte de cada atleta do Petro de Luanda. Isso é o maior segredo da nossa vitória”, afirma o jovem.
Um dos rostos mais queridos do futebol nacional é Malamba. O jovem atleta colecciona o quinto troféu do seu historial num jogo contra a sua anterior equipa, o ASA, com a qual havia conquistado três. O espírito profissional evitou que o demovesse da actuação “excelente” na quadra. “É uma grande compensação depois de três tentativas e estão de parabéns os atletas, adeptos e a direcção do Petro de Luanda”, disse.

Gás tóxico irrita espectadores

Uma adepta do Atlético Sport Aviação provocou um alvoroço num dos camarotes do estádio da Cidadela Desportiva. Depois do golo de Job, a jovem adepta irritou-se e atirou ao público um vasilhame que continha um gás tóxico que provocou irritação na garganta dos espectadores. Num ápice, o camarote ficou vazio e a Polícia Nacional foi chamada a intervir. A adepta foi detida e levada a esquadra para se explicar as razões da conduta e o tipo de produto utilizado.

A "bandeira" dos Bombeiros

Na festa do Petro de Luanda, alguns casos insólitos fizeram morada. Um jovem adepto, que sofre de Epilepsia, teve de ser socorrido na bancada central depois da intervenção da fisioterapeuta do Petro de Luanda, Amélia Chanda. O membro do corpo de Bombeiro que avisou a fisioterapeuta tomou contacto com o corpo caído do jovem e limitou-se a chamar a equipa do Catetão. Num momento que se aproxima a Taça Africana das Nações Orange-Angola’2010, o Corpo dos Bombeiros deve adoptar outra postura no tratamento de pessoas sinistradas. Se por ventura algum atleta na quadra de jogo tivesse algum choque que o imobilizasse de repente, em que circunstância a fisioterapeuta teria a optado? Tratar o adepto ou do atleta? É hora das entidades de direito velar no apoio ao Corpo dos Bombeiros. O seu serviço no Estádio também visa salvar os espectadores, a mesma população que tem sido salva em diferentes locais do país.
À direcção do Petro de Luanda é recomendado um trabalho sério a sua claque. Em diferentes ocasiões do jogo, ouviu-se palavras obscenas nos seus cânticos de apoio à equipa, com maior realce contra a mulher. Para uma equipa campeã dos campeões, cuja equipa feminina de andebol é somente a super-campeã africana, não é digno.