Jornal dos Desportos

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Reportagens

Fim de laço familiar

Francisco Carvalho - 04 de Maio, 2010

13 anos depois, Lewis Hamilton dispensa o pai como empresário

Fotografia: REUTERS

Com a contratação de Jenson Button pela McLaren, a relação de Lewis Hamilton e Anthony Hamilton azedaram. A revelação de Jenson Button interferiu na vida familiar dos Hamilton. Lewis não mais suportou "a exploração" do pai e dispensou-o da administração da carreira na Fórmula-1.

Button disse a Lewis que também tinha o pai como um dos gestores da carreira, mas a custo a zero, e pagava a um empresário a um preço bem menor. O "preço" deixou irritado o Lewis Hamilton, que pagava uma soma astronómica a Anthony Hamilton. A relação familiar pai-filho entrou em decadência após o regresso de Gales, onde os dois pilotos haviam sido enviados para que se conhecessem melhor e entrosassem a amizade.

Nos dias correm, a conversa entre os dois é feito por telefone, através de mensagens, chegando a passar muitas semanas sem diálogo. Lewis disse a uma agência de notícias que Anthony Hamilton estava a tratar dos novos desafios profissionais.

 Anthony administrou a carreira do filho desde os seis anos de idade até ao fim do terceiro ano na Fórmula-1, após a dispensa.
Na presente época desportiva, quase a um quarto da competição, o campeão de 2008 pretende um empresário o mais rápido possível. A pressão é alta e o facto de estar concentrado na carreira, administrá-la está a ser-lhe difícil, pois há muitos negócios à volta e não dispõe de tempo para os solucionar.

Os rumores estão a agitar a media internacional e o nome mais divulgado para substituir Anthony Hamilton é do antigo piloto da Fórmula-1, Mika Hakkinen.Todos os pilotos da Fórmula-1 dispõem de empresários menos Lewis Hamilton. O sucesso da carreira é fruto de Anthony Hamilton que descobriu potencialidades no filho.

Num desporto caracterizado por grandes investimentos, Anthony não abriu mão ao sacrifício para colocar o sangue da família Hamilton na Fórmula-1.Aos oito anos de idade, Lewis começa a brilhar no kart, em 1993, e rapidamente ganhou corridas e campeonatos na classe de cadete.

Aos dez anos de idade, "assinou" o primeiro acordo com o chefe da equipa McLaren, Ron Dennis, quando o pediu um autógrafo. Lewis havia-lhe pedido um lugar na equipa, quando crescesse. Em resposta, Ron disse-lhe que telefonasse dentro de nove anos.
O "acordo" incentivou Anthony Hamilton em continuar a investir no filho.

Lewis já era campeão inglês e todo o apoio era imprescindível. Nascido de uma mãe branca e britânica, Cármen Larlalestier (agora Cármen Lockhart), o neto de Oliver Hamilton, antigo funcionário de Metro de Londres, emigrado de Granada para Reino Unido, em 1950, tinha tudo para chegar ao mais longe possível.

A vida de Lewis Hamilton estava dividida entre o pai e a mãe. Com a separação dos pais, até aos 12 anos de idade, viveu com a mãe, e mais duas meia-irmãs. Aos 12 anos de idade, encontrou uma madrasta Linda e um meio-irmão.Para que mantivesse uma educação sadia, Anthony Hamilton inculcou ao filho uma boa educação baseada na religião cristã Católica romana, a base dos valores morais e uma vantagem para quem se predispõe a seguir carreiras de competição.

Anthony Hamilton refaz a vida para encontrar dinheiro. Apoiar o filho tornou-se numa questão problemática. Abandonou uma posição de gerente e tornou-se empreiteiro. Às vezes, tinha três empregos em simultâneo para sustentar a carreira do filho. Perante as dificuldades, procurava dispor de tempo para assistir a todas as corridas do filho.

Com o tempo, criou a sua própria empresa de informática e trabalhou como empresário de Hamilton em regime de tempo integral. O sacrifício era tão alto quanto o sonho de ver um campeão da Fórmula-1 com o nome Hamilton. Em 1998, Rom Dennis chamou-o depois de Lewis ganhar mais um Super One e o segundo campeonato inglês. É assinado o contrato e o jovem piloto é integrado no programa de desenvolvimento de pilotos. O contrato incluiria um lugar na Fórmula-1.

Em 2001, Michael Schumacher, sete vezes campeão mundial, convidado a pronunciar-se sobre a potencialidade do jovem piloto britânico, havia dito que Lewis é um piloto de boa qualidade, muito forte nos seus 16 anos de idade, e se mantiver a mesma força e garra chegaria à Fórmula-1, porque tem mentalidade de um grande piloto. Estava assim cumprido a promessa e o sonho. Lewis Hamilton tornou-se no piloto mais jovem a conseguir um contrato e vencedor da Fórmula-1.

Futebolista dedicado à F1

O gosto pela Fórmula-1 nasceu de um comando de carros. Em 1991, Lewis Hamilton ganhou de presente um carro tele-comandado e no ano seguinte classificou-se em segundo lugar no campeonato nacional BRCA. Numa conversa com os organizadores havia dito que ganharia campeonatos de clube contra adultos.

O sonho do filho levou a Anthony Hamilton dar-lhe de presente de natal um kart aos seis anos de idade e uma promessa de administração e apoio a carreira, desde que estude bem.

A Fórmula-1 é a mais popular modalidade de automobilismo do mundo no início do século XXI. Tem o objectivo de ser a categoria mais avançada do desporto a motor. É regulamentada pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA), com sede em Paris.

A chegada de Lewis Carl Davidson Hamilton, nascido no dia 7 de Janeiro de 1985, em Stevenage, Hertfordshire, à Fórmula-1, obrigou a FIA a adoptar alterações substanciais na competição.

O estilo aguerrido na pista incomoda muitos pilotos que o acusam de violar as regras. Lewis Hamilton dispõe apenas da mesma "fragrância" do ídolo Airton Senna. A meta é o destino.

O piloto britânico de Fórmula-1 compete pela equipa da McLaren Mercedes e é o mais jovem campeão mundial da Fórmula-1. Até chegar à equipa, Lewis Hamilton venceu a Fórmula Renault, Fórmula Três Euroseries e campeonatos GP2.

 Em finais de 2006, foi anunciado a contratação pela McLaren como piloto da época 2007, onde correu ao lado de Fernando Alonso. A estreia na Fórmula-1 ocorreu 13 anos depois do encontro com Ron Dennis, a quem havia prometido correr pela McLaren.

O circuito de Adelaide, no GP da Austrália, baptizou o britânico com terceiro lugar. A primeira vitória aconteceu no GP de Canadá.
O sucesso de Lewis Hamilton criou descontentamento do companheiro de equipa, o espanhol Fernando Alonso, que havia acusado a equipa de favorecer o britânico.

Hamilton tinha nas mãos o título para se consagrar campeão mundial no ano de estreia no desporto de velocidade mais popular do mundo. Porém, cometeu erros nas duas últimas corridas e o finlandês kimi Raikkonen tomou de assalto o título. Para um estreante da Fórmula-1, a performance foi considerada espectacular.

Em Janeiro de 2008, a McLaren renovou o contrato com Lewis Hamilton estendendo-o até ao ano de 2012. O britânico revelou no mesmo ano que o sonho era pilotar uma McLaren e pretendia fazer toda a carreira nessa equipa.

Em 2005, competiu na Fórmula europeia, campeonato que venceu de forma arrasadora. Em 2006, competiu na GP2, no lugar do campeão Nico Rosberg (que havia se transferido para a Fórmula-1), consagrando-se campeão da categoria no mesmo ano.

Curiosidades
Apesar de o automobilismo ser a paixão, Lewis Hamilton também é adepto fanático do Arsenal, no qual chegou a fazer testes para jogar na equipa juvenil, porém foi reprovado.

Desde então, dedicou-se exclusivamente ao automobilismo.Lewis Hamilton foi educado na The John Henry Newman Scool, uma escola secundária de voluntários católicos em Stevenage, Hertfordshire. Estendeu as habilidades no futebol, ao jogar na equipa da escola ao lado dos internacionais ingleses Aston Villa e Ashley Young.

Lewis Hamilton declarou-se admirador de Ayrton Senna, baseando o desenho do capacete ao do ídolo e visitou, inclusive, o túmulo do antigo piloto brasileiro, após a realização do Grande prémio do Brasil, em 2007.Com 23 anos, Lewis Hamilton tornou-se no mais jovem campeão de Fórmula-1, ao fim da época de 2008.

Lewis Hamilton namora a Líder do Grupo The Pussycat Dolls, Nicole Scherzinger.Lewis é o primeiro piloto negro a competir na Fórmula-1 e o primeiro a ser campeão desta categoria.

"Sou diferente"

Em 2008, antes da final do campeonato do mundo, Lewis Hamilton havia respondido a uma pergunta sobre o que se lhe significaria tornar primeiro campeão negro da Fórmula-1. "Vai mostrar que não só os brancos podem fazê-lo, mas também os negros, índios, japoneses, chineses".

O ambiente criado pela resposta uniu os conservadores e os reformistas. A questão de raça é uma problemática que continua a mexer nalguns segmentos desportivos. O aparecimento do piloto britânico negro num desporto "destinado” aos de pele clara mexeu e mexe com muitos adeptos e aficcionados da Fórmula-1. Por essa razão, Lewis Hamilton havia revelado que os seus heróis eram Anthony Hamilton, Nelson Mandela e Martin Luther King. Três pessoas de pele negra que nunca tinham corrido na Fórmula-1.

Na pré-época de 2008, havia muitas provocações de cariz racial contra Lewis Hamilton e continuam em 2010 em pequena escala. O britânico encontrou uma resposta: "Ser negro não é uma negativa; é um resultado positivo, porque sou diferente". É verdade. Lewis Hamilton é o mais jovem campeão na história da Fórmula-1.

Com a redução de provocação, o futuro começa a abrir as portas a culturas diferentes e é isso o que o desporto automóvel está a tentar fazer Outros desportos já dispõem de novas mentalidades e Fórmula-1 não pode fugir à regra.

No dia 4 de Fevereiro de 2008, Lewis sofreu a mais forte provocação de racismo na Catalunha, Espanha, por vários espectadores espanhóis que usavam a pintura negra na cara e peruca negra. As motivações estão ligadas a rivalidade na pista com o espanhol e ex-companheiro na McLaren Fernando Alonso.