Jornal dos Desportos

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Reportagens

Flamingos da Caponte do Lobito um clube contra a delinquência

Paulo Caculo - 18 de Novembro, 2012

Clube Flamingos da Caponte contribui para a formação desportiva e social de jovens

Fotografia: Jornal dos Desportos

A ideia de que o futebol é a mais bela manifestação de toda a humanidade assenta perfeitamente no projecto desportivo do Clube Flamingos da Caponte. A ideia nasceu há sensivelmente cinco anos, quando em Dezembro de 2007 um grupo de homens do futebol, liderados por José Bento Cangombe, decidiu fundar a Associação dos Flamingos da Caponte do Lobito. O objectivo era combater os níveis de delinquência que se fazia sentir no bairro, motivado pelo surgimento de “gangues” juvenis que proliferavam no local.

A espinhosa missão só se tornou possível, a partir do momento em que os jovens passaram a descobrir que integrando o projecto Flamingos beneficiavam de oportunidades de reintegração social, dispondo de melhores condições de vida. O incremento do salário dos atletas e equipa técnica empenhada na formação dos futebolistas acabou por representar um grande atractivo para os jovens. O projecto teve uma adesão tão grande que ao segundo ano já contava com perto de 200 jovens. Hoje, os números são manifestamente superiores, estando a safra a atingir os dois mil atletas, subdivididos nos diferentes escalões.

 OBJECTO SOCIAL

 Entre os mais destacados propósitos perseguidos pelo Clube Flamingos, encontra-se a contribuição para a formação multifacetada da juventude, contribuindo para a sua inserção social. “Reduzir significativamente os índices de delinquência juvenil entre os jovens do bairro da Caponte e aumentámos de forma exponencial a auto estima deles e a sua integração social e compromisso com a comunidade”, lembra José Bento Cangombe, presidente da Associação Flamingos e principal mentor do projecto. Para ter pernas para andar, foi necessário o suporte institucional do Governo Provincial de Benguela e da Administração do município. As duas estruturas máximas da província aplaudiram a ideia, facto que possibilitou ao Flamingos assumir as rédeas do jogo e chamar a si o domínio das actividades desportivas do bairro, tendo como principal patrocinadora a Jobecang.


OBJECTO SOCIAL

Projecto comunitário
de apoio ao desporto


Praticar desporto é saúde. Faz viver melhor e mais. Além de tornar as pessoas mais produtivas e bem-dispostas, previne e combate doenças do corpo e da mente. O desporto é também educativo. Cultiva valores como a solidariedade, a determinação e a autoconfiança, aspectos enaltecidos por Bento Cangombe como fundamentais para motivar a manutenção do projecto no bairro da Caponte do Lobito. “Com o desporto a gente consegue levar as pessoas a organizarem-se em equipa, socializando-as e gerando laços de amizade para a vida toda. Não podemos deixar de falar também do seu carácter de força cultural e política.

Esta é a principal fonte de orgulho para este grupo de jovens desta pequena comunidade da cidade”, destaca o responsável do projecto Flamingos, que garante não medir esforços com o objectivo de tornar o clube um expoente máximo do desporto na província. “Não temos muitos apoios, dependemos apenas da Jobecang, mas acreditamos que podemos fazer o possível para ajudar estes jovens a perceberem a ideia de viver em sociedade, num clima de perfeita harmonia, contribuindo para o desenvolvimento do nosso país”, acrescenta.
 
ESTRATÉGIA
 É dentro desse contexto que o Clube Flamingos da Caponte desempenha um papel fundamental como órgão responsável pelo fomento das questões do desporto, em consonância com as estratégias do Governo Provincial e das estruturas centrais do desporto da província.O grande objectivo é ocupar os tempos livres da juventude do bairro, sem descurar da ideia de um dia o clube se agigantar de apoios e estruturas. PC


APOSTA
Direcção faz investimentos
em infra-estruturas de lazer


Depois de estar consolidado o projecto de construção da equipa de futebol sénior, a direcção do Clube Flamingos viu a necessidade de obter o seu próprio espaço, para edificação da infra-estrutura desportiva. Nesse sentido, foi criado o campo e a zona de lazer do clube. Em 2009 a equipa de futebol estava completamente formada e preparada para competir no Girabairro do Lobito, composta por 20 atletas e três técnicos. O “assalto” aos títulos começou precisamente em 2008, uma ano após a fundação, com a conquista do Campeonato Provincial da 11ª edição do Girabairro e prémio de melhor marcador e guarda-redes menos batido. No mesmo ano, o Clube Flamingos da Caponte ficou com o quarto lugar da Taça do Presidente, edição municipal do Lobito.

 Um ano depois, em 2009, sagra-se Campeão Provincial da Taça do Presidente, na sua 12 edição do Girabairro, vice-campeão do torneio municipal da Taça do Presidente. No ano a seguir mais títulos: vice-campeão Nacional Interprovincial do Girabairro da edição experimental da Taça do Presidente, campeão provincial da 13ª edição do Girabairro, campeão Provincial da Taça do Presidente, 13ª edição do Girabairro e prémio de melhor marcador e guarda-redes menos batido. No ano passado, em 2011, o Clube Flamingos da Caponte conquista o troféu de campeão Interprovincial do Girabairro, prémio de guarda-redes menos batido, campeão Provincial da 14ª edição da Taça do Presidente, torneio Girabairro e recebeu os prémios de melhor marcador e guarda-redes menos batido. Este ano, o clube perdeu o título da edição nacional do Girabairro.
PAULO CACULO


INFRA-ESTRUTURAS
Campo dos Flamingos
vai ter relvado natural 


Localizado muito próximo das duas estradas principais de acesso à zona alta da cidade, nas proximidades do Colégio Santa Doroteia, o campo dos Flamingos da Caponte, arrisca-se a ser a mais nova atracção dos habitantes da região. Hoje ainda pelado, mas com condições para ali ser praticado futebol, antes o recinto era um terreno baldio. É o local de treino das equipas de futebol do clube, estando a ser projectado relvar o campo nos próximos tempos, de forma a garantir melhores condições aos praticantes. Próximo do local vai ainda ser construída a nova sede do clube e o Centro de Treino, para atender a especialização do atleta não profissional na prática do desporto de rendimento de futebol.

O trabalho a ser desenvolvido pelo Flamingos tem por objectivo a construção de uma infra-estrutura voltada para a formação de atletas de futebol não profissional.  Não é, por enquanto, objectivo da direcção do Flamingos da Caponte projectar a subida da equipa ao Girabola ou Segundona, campeonato de futebol da II Divisão. Os recursos financeiros não permitem, ainda, ao patrono do projecto, sonhar com esses altos patamares.  O Centro de Treino do Flamingos, a ser erguido brevemente, com campos de dimensões oficiais, vai ser local para os técnicos ministrarem os treinos a todas as equipas, incluindo os escalões de base.

Instalações para alojamento dos atletas, refeitório, cozinha, área de armazenagem de alimentos e materiais de serviços, também devem ficar concentrados no mesmo espaço. Com o projecto, a Associação Flamingos desenvolve também um trabalho junto da comunidade carente, no sentido de proporcionar a prática de futebol recreativo através de torneios realizados anualmente, como foi o caso da Taça Zé Du, organizada em Agosto pela Jobecang, em homenagem ao aniversário natalício do Presidente da República. PC


Meio milhar de jovens reintegrados

O principal mentor do projecto desportivo Associação Flamingos da Caponte, José Bento Cangombe, está feliz com os resultados da acção desenvolvida junto da juventude do bairro lobitanga. O dirigente desportivo diz que o clube tem a equipa de futebol criada há cinco anos, que substituiu o Regresso FC. Quando decidiram concretizar o sonho da associação, o objectivo social foi o de intervir no sentido de resolver uma situação alarmante e preocupante, que proliferava no município do Lobito. “Tivemos dois assassinatos entre “gangues” e jovens solitários, que não viviam na zona, mas passavam por aqui para depois fazerem as suas vidas noutros sítios. Estes jovens foram barbaramente assassinados”, recordou.

“A delinquência atingia níveis preocupantes e, portanto, tivemos de intervir”, disse o responsável dos Flamingos FC, que considera a responsabilidade do desenvolvimento comunitário “uma questão que deve preocupar todos”. “Toda a comunidade deve participar, as pessoas que têm actividade empresarial ou social têm de ajudar a desenvolver a sociedade em que estão inseridas”, acrescentou. 
 
HOMENAGEM
 Em homenagem à equipa do Flamingos Clube de Angola, que já esteve no Girabola nos anos 80, onde pontificaram jogadores como Gabi, Sansão, Lino e outros, o actual projecto passou a chamar-se Associação Flamingos da Caponte. “Para contrariar aquilo que era o uso das energias que os jovens estavam a canalizar para a delinquência, o nosso lema passou a ser ‘pratica futebol e diz não à violência’, para lhes mostrar que aquela energia que tinham podia ser usada para fins benéficos à sociedade e para eles próprios”, sublinha. Após a fundação da associação, “começámos a direccionar os jovens para a prática do desporto e através da empresa Jobecang, da qual sou um dos sócios, começámos a incentivar os jovens a jogar futebol por recreação”.


BAIRRO DA CAPONTE
O fim do pesadelo


Desde que o projecto Flamingos chegou ao bairro da Caponte os níveis de delinquência baixaram consideravelmente e deixaram de existir as queixas e os casos de assassinatos que tomavam conta da zona. Hoje, as pessoas sentem-se muito mais seguras e livres para fazer a sua vida normal, conforme fez questão de assegurar o mentor do projecto. “É verdade que diminuiu consideravelmente o nível de delinquência, mas não basta eles estarem a praticar futebol, também temos de os ajudar a integrarem-se socialmente. Por isso é  que pagamos muitas cartas de condução aos jovens com idade para a ter e com base nas nossas influências temos estado a pagar e ajudar pessoas a formarem-se nas universidades, em cursos profissionais, para que eles estejam completamente integrados na sociedade”, assegurou Bento Cangombe.

O presidente fundador do clube da Caponte considera estar a ver resultados satisfatórios no projecto e acredita que o futuro é ainda mais promissor. Revela estar a ver hoje um bairro muito mais alegre e seguro, onde os jovens são desafiados a limparem a imagem da zona, sobretudo por serem os principais responsáveis pela má fama que teve a Caponte nos tempos anteriores. “Não se podia entrar no bairro a partir das 16h00. Era muita delinquência nas ruas. Decidimos transformar a Caponte num bairro dos campeões, daqueles que pararam com a delinquência, mudaram de vida e estão a aplicar-se para o desenvolvimento pessoal e comunitário.

Hoje, estamos a ajudar a integrar estes jovens no mercado de trabalho, assumindo aqui uma parceria com o Estado, por intermédio do Governo Provincial e da administração do município do Lobito”. A finalizar, Bento Cangombe assegura que valeu a pena todo o empenho e esforço que despendemos em prol da comunidade, “porque nos sentimos mais seguros”, dado que os jovens, segundo ele, estão mais conscientes que é necessário sacrificarem-se para aquilo que desejam alcançar.
PC


MENTALIDADE
“Criamos grande movimento


Bento Cangombe considerou que se os jovens ganhassem as partidas, tinham direito a um prémio, facto que serviu para começar a incutir nos jovens a  mentalidade de que para se ganhar algum dinheiro era necessário trabalhar, esforçar-se, porque nada cai de graça. “Foi assim que criámos esse grande movimento que é a Associação dos Flamingos da Caponte. Esse projecto tem movimentado mais de 500 jovens, distribuídos pela área desportiva e cultural”, disse. “Temos este controlo, esta força de termos encontrado um mecanismo para desenvolver o bairro da Caponte, que serve também de integração da juventude da zona. Queremos aperfeiçoar mais a nossa associação e evoluir”, concluiu.


CONQUISTA
Em busca da glória
no torneio Girabairro


Quando, em 2009, a direcção da Associação Flamingos da Caponte do Lobito criou a equipa de futebol para disputar o torneio Girabairro, a Taça do Presidente, poucos, mas muito poucos mesmo, acreditaram que o clube fosse capaz de conquistar o título de campeão da prova, organizada pelo Movimento Nacional Espontâneo. Na altura, o grupo de jogadores, sabiamente orientados pelo jovem treinador Pikó Sambaca, fez das inexperiências força para suplantar os adversários, começando por superar a concorrência no Lobito, na eliminatória provincial de apuramento para a fase nacional da competição de futebol de bairro.

 Ajudaram a dar corpo ao ano de glória dos Flamingos os atletas Vunda, Nandinho, Tio, Zebedeu, César, Helinho, Sadys, Jurek, Tio João, Canoeza, Mateus, Didy, Pindrato, Erickson (capitão), Yó, Pai Mbolo, Jito, Sandro, Tontom, Gilson, Gerson, Zidane, Joãozinho, Yeyo e Maquita. Os técnicos-adjuntos Kilé e Paita, o delegado aos jogos Kilema e o massagista Wara deram também a sua contribuição no congeminar de toda a estratégia.
A equipa cresceu rapidamente. A qualidade do futebol patenteado pelo clube da Caponte superou as expectativas, tendo a sua direcção, por força disso, motivado o grupo com prémios de jogo aliciantes, que chegaram a igualar-se aos praticados por algumas equipas de topo do Girabola. “Era necessário aproveitar o bom momento que a equipa estava a atravessar para não deixar fugir a possibilidade que tínhamos de conquistar o Girabairro”, justifica Bento Cangombe. PC