Jornal dos Desportos

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Reportagens

Florete em Angola

Rosa Napoleão - 28 de Setembro, 2016

Criança angolana em exibição numa sessão de treino no campo do PUNIV em Luanda

Fotografia: José Soares

O valor multifacético da prática do desporto está intrinsecamente ligado à socialização do indivíduo. O esgrima é uma modalidade que desenvolve a afirmação da personalidade humana,  proporciona oportunidades de superação e educação da vontade. Ademais, reflecte valores culturais básicos do meio em que se desenvolve.  Em Angola, o esgrima deixou de ser um embrião. É um “bebé” de um ano que procura desenvolver-se para apurar qualidades e capacidades humanas.

Em Luanda, Malanje, Huíla e Cabinda, os centros de formação de esgrimistas ganham corpo em obediência ao programa da Federação Angolana de Esgrima, constituída a 18 de Agosto de 2015, na Galeria dos Desportos, na capital do país.Numa ronda feita aos locais de treinos, o ambiente de trabalho contrasta com os princípios da modalidade.

Em Luanda, um dos campos do condomínio  do Gamek está desprovido de boas condições. O espaço é invadido por detritos que influenciam negativamente na formação de 14 crianças. Sem tecto, o espaço de cimento convive com o vento e a poeira. Em dias de chuva, as sessões são interrompidas.

O desejo de crescer é maior do que as dificuldades. As crianças têm a atenção virada para as vantagens que o esgrima proporciona à saúde: o aumento da força física, mais equilíbrio e habilidades corporais. Em busca do sonho, a concentração é total.Com a florete na mão, William Pascoal, de cinco anos de idade, exercita as técnicas de ataque. Sob as ordens de Teresa Simões, treinadora - adjunta, a criança corrige os movimentos. Minutos depois, o cansaço toma-lhe o corpo. Sem bancos ou bancada para sentar, o chão  serve para repousar. Depois de se sentir aliviada, empreende uma conversa sorridente.

“Gosto do esgrima e treino sempre aqui. Quero ser campeão e participar dos campeonatos mundiais”, disse o mais pequeno da equipa.A realização do sonho tem preços altos. A família está envolvida. Williams Pascoal tem o apoio do pai que o leva todos os sábados aos treinos. Depois de cada sessão, a ansiedade aumenta: “vou praticar até quando for grande”.

O sorriso de Williams contagia Rosa Eliane Pascoal, de 10 anos de idade. A menina tem uma “estrada maior” que o colega. Pratica o esgrima desde os seis anos. Tudo começou aos três, quando o seu pai a levava a assistir aos treinos no ginásio do Puniv. O gosto cresceu no íntimo. Era a mais pequena do grupo. Motivos alheios à sua vontade deixou a esgrima. Desde a retomada dos treinos, faz-se presente em todas as sessões. O objectivo está definido: “desejo ser campeã e trazer  para o meu país muitos títulos”.

A mais crescida do grupo é a Liriel Júlio, de 14 anos de idade. Com seis anos de prática, a adolescente é um nome com que o país conta num futuro breve. Dotada de uma técnica que se apura a cada sessão, Liriel Júlio manifestou a satisfação pela prática da modalidade. “Estou feliz por praticar o esgrima, um desporto fácil que requer apenas o poder de concentração e raciocínio”, disse.

A “capitã” revelou ter sido incentivada pela mãe a praticar o esgrima e  conta com a companhia de uma irmã. Os pais assistem sempre aos treinos, o que constitui um valor motivacional extra. A localização da residência no interior do condomínio do Gamek é outra vantagem. A qualquer momento do dia desloca-se ao campo para exercitar as técnicas. Liriel Júlio aconselha as demais adolescentes do país a juntarem-se à modalidade, pois “melhora a resistência muscular, aumenta a agilidade de pensamento, a tomada de decisões e desenvolve a coordenação motora”.

Na ausência da treinadora principal, Fernanda de Brito, a responsabilidade de formação está entregue a Teresa Simões, a técnica- adjunta. Dotada de boa aparência e de fácil trato, Teresa Simões assevera que o trabalho é agradável por dispor de um grupo de crianças bastante aplicadas e disciplinadas.

“Gosto de ajudar na formação de crianças obedientes, pois carregam uma paixão forte pelo esgrima e desejam chegar o mais longe possível”, disse.Teresa Simões destacou as dificuldades no exercício de formação das crianças. Para a especialista, “as condições afligem a equipa técnica”. As 14 crianças trabalham “num campo sem bancadas para repousar o corpo e sem alimento para reforçar as calorias perdidas no treino”. Por outras palavras, “não há lanche para os atletas”.

DIRECÇÃO
Domingos Pascoal eleito presidente da FAE


As dificuldades de formação de atletas chegaram ao fim, após à realização da primeira Assembleia Geral Ordinária da Federação Angolana de Esgrima.
O presidente Domingos Pascoal foi eleito num acto que ocorreu a 17 de Setembro, em Luanda. O então único candidato  promete implementar a modalidade nos escalões de sub-12, sub-15, sub-17, sub-20 e sub-23, os atletas olímpicos, que é o principal foco. Para o sucesso do programa, vai promover a massificação centrada no desenvolvimento das qualidades volitivas gerais.

A formação de mestres treinadores e monitores também constam das prioridades. As primeiras acções aconteceram em Fevereiro, com a realização de curso de nível I na Cidadela Desportiva e contou com um elevado número de participantes. O mestre português Frederico de Oliveira, coadjuvado por Marco Romero e Neves Pereira, membros da federação angolana, dirigiram a formação que abordou a Filosofia e valores olímpicos, a História da esgrima, Comunicação e Liderança no desporto, Como elaborar um projecto desportivo, Princípios, Métodos e Recursos didácticos na esgrima, Aspectos básicos da teoria e metodologia do treino, Fundamentos básicos da esgrima.

A Huíla também beneficiou de formação, numa parceria entre a Federação Angolana de Esgrima e a Associação Provincial dos Desportos Individuais. Um total de 20 atletas terminaram com êxito o curso.Para o presidente Domingos Pascoal, a formação catapultou e sensibilizou as escolas primárias naquela província.“Esta formação deu outra vida à modalidade na Huíla. Persuadiram os pais e encarregados de educação a incentivar os filhos à pratica do esgrima”, disse.

Até o final do ciclo olímpico, em 2020, a equipa da FAE é constituída por José Álvaro, presidente da Mesa da Assembleia Geral; Alexandrina Cabral (vice -presidente) e Ermano Cristóvão (secretário). Na direcção, Domingos Pascoal assume a presidência, conta com Aida Guilherme (primeiro vice -presidente), Joaquim da Silva, (segundo vice -presidente), Carlos da Cruz (terceiro vice -presidente) e César Chita (secretário).Nadezda Martinho preside o Conselho Fiscal, Gisela Júlio e Catarina Zua, são vogais.No Conselho Disciplinar, Arão Filemon é o presidente e conta com os vogais Madalena Pascoal e Heidi Castanheiro. O Conselho Jurisdicional tem como presidente Abreu Calundungo e os vogais José Pascoal e Rui Manuel.  

SELECÇÃO
Adilson eleva bandeira

A esgrima nacional conta com atletas experientes, que evoluem em Portugal. Adilson António, Marcos Romero e Francisco Manuel elevam o desporto ao mais alto nível. O primeiro é atleta da Academia de Esgrima, João Gomes, de Portugal Adilson António carrega com muito orgulho a bandeira de Angola. Desde a tenra idade, o seu objectivo principal é de representar Angola nos Jogos Olímpicos. É um potencial esgrimista que se notabiliza em competições de Portugal. Em 2014, classificou-se entre os oito primeiros lugares do ranking. Foi o 10º classificado no Grande Prémio de seniores, num universo de 40 atletas. Em juniores, foi o quinto classificado entre 28 atletas.

A estreia de Angola nas competições Africanas ocorreu em 2012, na África do Sul. Adilson António apresentou o esgrima nacional no campeonato continental. No ano seguinte, o mesmo atleta defendeu as cores do país no Africano da Tunísia.Em 2015, Adilson António faz um brilharete nos Jogos Africanos de Brazzaville. O angolano suplantou o congolês democrático Kinfumu Opeya, por 5-1, num combate realizado no Palácio dos Desportos do Complexo de Kitele.

 Nesse mesmo ano, Marco Romero envergou as cores nacionais no Campeonato de Esgrima de Cairo, disputado entre os dias 11 e 16 de Junho. No mês de Julho, representou o país na 28ª edição do Campeonato Universitário da Coreia do Sul. Recentemente, a Federação Angolana de Esgrima assinou um acordo com Francisco Manuel, atleta do Ginásio Clube Português.

Em declarações ao Jornal dos Desportos, o jovem disse que pretende representar o país nas competições internacionais. “O meu desejo é chegar à internacionalização. Quero atingir o mais alto nível. Trabalho arduamente e tenho de conciliar os treinos com a formação académica. Não tem sido fácil”, disse.Na Galeria, Francisco Manuel colecciona os títulos de vice-campeão português de seniores na especialidade de Floreto, terceiro classificado de cadetes na especialidade de Espada e vice-campeão em Floreto por equipas.

O angolano atribui o sucesso ao seu treinador, Eduardo Pereira, que  é  “um amigo” e tem sabido encaminhá-lo da melhor maneira. Francisco Manuel teve a sorte de ter “um bom treinador”.De 19 anos de idade, o mais novo contratado da selecção angolana nutre o sonho de  se qualificar para os Jogos Olímpicos de 2020 no Japão.“Esta é a minha grande ambição: conseguir a qualificação para os próximos Jogos Olímpicos. É uma aposta difícil, mas vou trabalhar para chegar a Tóquio”, disse.