Jornal dos Desportos

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Reportagens

Futebol alegra populares em Chinfuca

André da Costa - 16 de Setembro, 2016

Jovens formaram o clube que permanece até hoje na povoação de Chinfuca em Cabinda

Fotografia: André da Costa

O Sport Dragões de Chinfuca é uma equipa antiga da região de Cacongo, província de Cabinda, composta maioritariamente por habitantes daquela povoação. O surgimento do clube remonta do longínquo ano 1973, quando um grupo de jovens, amantes da modalidade formou a equipa de futebol que, apesar da conjuntura política da época colonial se mantém de pé, transmitindo alegria àquela população até hoje. 

Desde a era colonial, o futebol constituiu sempre uma grande atracção para os habitantes da povoação de Chinfuca, município de Cacongo, província de Cabinda. Reza a história deste clube que em 1973, vários jovens tinham o futebol como principal divertimento nos momentos de lazer. Para melhor organização e prática regular da modalidade, um grupo de jovens na altura, como Cardoso Tibúrcio, Tibúrcio Ramessete “Imane”, Manuel Herculano, Davide Macosso, Braz Nicolau de Oliveira, Aníbal Fernandes formam o clube que denominaram Espalha Braza que tinha como presidente, Braz Nicolau de Oliveira, Davide Macosso como vice-presidente e Manuel Herculano como secretário-geral.

Como diz o velho adágio popular, na boca dos mais velhos o dente é podre, mas as palavras são verdadeiras. E verdadeiro e interessante é saber dos mais velhos como Manuel Tibúrcio, hoje com 65 anos e Tibúrcio Ramessete com 56, que na época colonial, ainda jovens, se entregavam ao futebol por amor à camisola. As partidas de futebol eram feitas com equipas de aldeias vizinhas onde perder era quase proibido, remata Manuel Tiburcio, que em 1976, foi jogador, treinador, e alfaiate do clube. Na época colonial a bola era de borracha, mas ainda assim não tirava o desejo dos jovens desfrutarem da prática do futebol.

Do Espalha Braza
 para Sport Dragões

Na altura do seu  surgimento em 1973, o clube tinha como denominação Espalha Braza e contava com poucos jogadores onde alguns jogavam em outras equipas. Devido a alguns desentendimentos os jovens da época decidiram formar o clube Espalha Braza.  

 As partidas de futebol eram regulares até que situações conjunturais próprias da época, obrigaram a um interregno na prática do futebol. O tempo passou e o futebol estava parado até o surgimento do jovem na altura, Augusto França, que se instalou na região de Chinfuca e resolveu dar outra dinâmica ao clube. Reuniu jovens e com o seu dinheiro investiu no clube. No dia 10 de Julho de 1976, fundava o clube com a designação de Sport Dragões de Chinfuca e se torna presidente de direção. 

Augusto França, contribuiu para a dinamização do futebol e do atletismo na região de Cacongo, proporcionando momentos de alegria durante as partidas, alegria que o tempo não conseguiu apagar das mentes de muitos ex praticantes. 

Tibúrcio Ramessete lembra que na altura, mesmo com poucos jogadores, identificaram um campo, que hoje é uma estrada que vai dar ao município de Belize, onde treinavam de tarde, e de manhã, iam à escola. Integravam o clube, elementos que na altura já trabalhavam e mesmo assim arranjavam sempre tempo para treinar com a equipa, sendo que a preparação física era feita junto ao mar e, tinham que descer e subir uma longa montanha três vezes por semana.

Tibúrcio Ramessete que também é soba da povoação de Chinfuca, guarda na memória as grandes partidas disputadas com a camisola do clube onde era um grande guarda-redes. Talvez por isso, recebeu a alcunha do presidente Augusto França de “Íman”, porque agarrava a bola com muita facilidade e determinação.

Começou a jogar futebol desde a fundação do clube e só deixou de jogar em 1988, depois da inauguração do novo camp Sport Dragões do Chinfuca denominado Augusto França. Ao longo do tempo foi jogador e secretário-geral do clube ao mesmo tempo.


NA FUNDAÇÃO
Única equipa
na localidade


O Sport Dragões do Chinfuca foi fundado no dia 10 de Julho de 1976, por Augusto França, e era única equipa de futebol da povoação de Chinfuto. As limitações do plantel forçaram os dirigentes do clube a reforçarem a equipa com jogadores vindos de outras povoações como Cabinda, Lândana, Belize, com realce para nomes como Feró, Linganji, João Baptista, Mandjenvó. Em 1976, o clube participa no primeiro Campeonato Provincial de Cabinda onde na altura saltavam à vista equipas como Marien Ngouabi, Lombo-Lombo, a Resistência, Primeiro de Maio, entre outras.

O Sport Dragões de Chinfuca realizava jogos amigáveis com várias equipas como 1º de Maio e  4 de Fevereiro despontando nomes como Francisco Manuel, “Chalana”, Cardoso Tiburcio “Cati”, Lourenço Braz, João Viote, José Maurício Zau, José Pitra Custódio, Ambrósio Nguto, Carlos António Sambo, Alberto Nzinga, António Luís e Tiburcio Ramessete.      

Costureiro do clube
Cardoso Tibúrcio era costureiro, capitão e treinador da equipa sendo um dos fundadores do clube, a par do outro guarda-redes António Luís Veria. A equipa chegou a participar no Campeonato Provincial denominado Muanza, com outras equipas como Sporting de Maiombe, Mandarim, Juventude, entre outras. Mas o campeonato não terminou devido ao Golpe de Estado ocorrido a 25 de Abril de 1974 em Portugal. Tudo ficou parado, passando a equipa a fazer jogos de recreação denominado na língua local como Sunsi.

Penálti repetido

Os dragões do Chinfuca no passado, tiveram desentendimento que resultou em rixas no campo de futebol, devido a um jogo da Taça de Angola disputado com o Benfica de Cabinda. Tiburcio Ramessete conta que houve batota por parte do árbitro que marcou um penalti contra os Dragões do Chinfuca. O guarda-redes defendeu a primeira vez e o árbitro mandou repetir. Ainda assim a bola foi outra defendida pela segunda vez e o  arbitro mandou repetir pela terceira vez. A bola entrou e três jogadores se atiraram contra o árbitro. Em contrapartida, o arbitro puniu com cartão amarelo nove jogadores do Dragões do Chinfuca. Insatisfeitos, fizeram uma declaração de abandono do campo.

Aldeia de Chinfuca
Município de Cacongo

A povoação de Chinfuca está localizado no município de Cacongo, província de Cabinda, ao norte de Angola. Tem uma população com mais de 600 habitantes que se dedicam, maioritariamente, à agricultura e pesca.

A localidade tem um posto médico existente desde a época colonial que atende à população local e uma escola pública. Possui locais históricos como a nascente de Ntenfo, Maolica e Nfungi local onde retiravam água para consumo. O centro de concentração de escravos e a nascente da Chicaia local onde os jogadores tomavam banho depois dos treinos são outros atractivos da região.




 


NA DECADA DE NOVENTA
Clube tem o título de campeão municipal


Do historial do clube consta o facto de ser campeão municipal de Cacongo em 1992/1993. O apuramento para a fase de grupo da Taça de Angola de 1993/1994. A equipa ocupou o terceiro lugar no Campeonato Provincial de Futebol de Cabinda em 1976/1977. Ocupou ainda o 10º lugar do Campeonato Provincial de Cabinda em 2013.

8º lugar no Campeonato Provincial de Cabinda em 1994 e  e vencedor de um torneio de Futebol 8 de Janeiro realizado na cidade de Lândana.  O clube já teve cinco direcções eleitas desde a sua existência há mais de 40 anos.  

Contributo
das mulheres

As senhoras da povoação de Chinfuca cozinhavam para os atletas depois dos jogos, sendo boa parte dos atletas habitantes na localidade. A anciã Rosa de Fátima, 64 anos de idade, conta que na altura, o futebol era a grande paixão dos jovens que se entregavam de corpo e alma a modalidade. Como moradora de Chinfuca , tinha familiares na equipa de futebol. Cozinhava para os jogadores por amor ao clube e não recebia dinheiro como contrapartida.

Já outra anciã Rosa Clara de 80 anos, recorda os momentos inesquecíveis que viveu e ainda vive ao lado dos jogadores de futebol que alimentava, depois da disputa de uma partida de futebol. Cozinhava feijão, arroz, peixe, mandioca. Lembra que sempre que a equipa vencesse uma partida de futebol havia festa na povoação de Chinfuca. A avô Rosa está satisfeita em saber que o clube continua vivo e a ocupar os tempos livres dos jovens, que devido a dificuldades, alguns mostram tendência de enveredar por conduta desviante.

Adeptos 
Sempre que o clube jogasse era acompanhado por muitos adeptos da localidade que puxavam pela equipa nos bons e maus momentos. A alegria da comunidade era visível quando ganhassem. O espirito de sacrifício, abnegação, dedicação dos dirigentes como o então presidente Augusto Franca, incentivou jovens para a prática do futebol naquelas paragens. Em sua homenagem, no dia 10 de Julho de 1988, os sócios e dirigentes do clube decidiram atribuir o seu nome, ao actual campo de futebol da agremiação desportiva. Nomes como Augusto França, Luís Pango, e Marcos Capita são inesquecíveis por serem os có-fundadores do clube e exerceram funções de direção durante os primórdios da independência.

A história deste clube foi marcada por várias metamorfoses que forçou um interregno de alguns anos devido a dificuldades conjunturais de ordem financeira, mas a vontade dos dirigentes que por lá passaram, fez com que se mantivesse até aos dias de hoje.

 

MUITOS FILHOS DA POVOAÇÃO
Vários nomes despontaram no clube

Vários filhos daquela povoação e não só, tiveram uma passagem histórica no clube com realce para nomes como Luís Vieira, Tiburcio Ramecete,  Mesquita, Mavinga, José Yoba, Joli, José Chocolate, Cardoso Tiburcio, Francisco Manuel, Pio Braz, Anibal Ferandes, Alberto Luemba, José Zau. Outros nomes sonantes que despontaram no clube na época colonial e pós independência são José Maurício Zau, Manuel Benguela, João Barros, José Pitra, António Luís,, Lingangi, Ferro, José Marcos Ngoio, Francisco Tiburcio, José Silva, José Barros Geraldo Luemba,  Bonifacio Futi, Pascoal Funzi, Alberto Kundi França, Xavier Paca, entre outros nomes sonantes.

Nova direcção

A nova direcção do Chinfuca é liderada por Rui Costa Oliveira que vai trabalhar na massificação do futebol nos escalões de formação. Rui Costa pretende devolver a mística do futebol em Chinfuca e tem projectos virado para os ramos das pescas e agricultura para garantir sustentabilidade da equipa de futebol. Numa primeira fase o clube vai trabalhar na massificação dos escalões de formação formando os jovens que são os viveiros do clube para futuros desafios visando o apuramento do campeonato municipal e provincial. A massificação do desporto visa, igualmente, entre outros objectivos, a ocupação dos tempos livres do jovens por formas a evitar enveredar por condutas desviantes, face a conjuntura social vivida no país. O ressurgimento do atletismo consta na agenda do presidente do clube. Para saudar a nova direcção, uma partida de futebol foi disputada no campo Augusto França entre o Sport Dragões e o Amigos da Bola cujo resultado cifrou em 2-1 a favor dos donos da casa.Os antigos jogadores do clube como Antonio Luis Vieira,, Tiburcio Ramessete, Manuel Tiburcio, Francisco Manuel Cardoso, José Marcos Ngoio, Manuel Benguela, Augusto França,.receberam certificados de reconhecimento pelos anos passados ao serviço do clube. Os jogadores falecidos, familiares directos receberam e prometeram fixar na sala de casa como recordação. Os novos atletas como Abel Mendes, Zinga, Artur Braz e Corrente António prometem tudo fazer para honrar a camisola do clube.