Jornal dos Desportos

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Reportagens

Futebol no Bié com futuro adiado

José Chaves, no Kuito - 12 de Agosto, 2010

Provincia tem història na modalidade

Fotografia: José Chaves

O futebol no Bié vive momentos críticos.Falta quase tudo para o manter em actividade. Amantes, adeptos, dirigentes desportivos e atletas locais mostram-se preocupados com o declínio da modalidade.

Depois de participações condignas, na década de 80 e início da de 90, nos campeonatos nacionais de juvenis, de juniores, no Zonal de Apuramento à I Divisão, no Girabola, na Taça de Angola, em torneios inter-provinciais e de velhas guardas, o quadro mudou para pior.
Até então, a província realizava campeonatos em todos os escalões, mas, com o eclodir do confronto pós-eleitoral, em 1992, o futebol teve como que uma "morte" repentina.

O Bié está há cinco anos consecutivos sem participar no Campeonato da II Divisão, vulgo "Segundona", prova que dá acesso ao Girabola.Os responsáveis da associação falam em falta de apoios financeiros e administrativos, aliada à inexistência de políticas que visam a revitalização da modalidade, deixando-se que as coisas andem ao Deus dará. Torna-se necessário a apresentação de soluções.

Até 1990, existiam 15 agremiações, a saber: Sprting Clube (ex-União Petro), Vitória Atlético Clube, Andorinhas, Dínamos, Ferrovia, Interclube, Desportivo do Kunhinga, Desportivo do Andulo, Sporting de Katabola, Tigres do Planalto, Desportivo Geodésico de Kamacupa, Recreativo do Chinguar, Recreativo do Cuemba, Desportivo Faichos e Desportivo do Chitembo.

 Nos dias que correm, a Associação controla, oficialmente, apenas nove clubes, revitalizados em 2008, e que tem apenas o escalão de seniores, à excepção do Sporting, que possui iniciados, juvenis, juniores e seniores.Os clubes não possuem condições para ter escalões de formação e, como consequência, a província não realiza campeonatos de juvenis nem de juniores há 20 anos.

Ante esse quadro, a população clama por atenção urgente das entidades de direito, pois, a manter-se essa situação, não tarda que o futebol se extinga, para desconsolo de milhares de adeptos.Três clubes bienos já participaram no Girabola: Juventude do Kunje e Vitória Atlético Clube (na primeira edição, em 1979), e S porting Clube do Bié, que esteve nas edições de 1987, 1999, 2001 e 2005.

Campeonato Provincial
para cumprir calendário


O Campeonato Provincial de Futebol do Bié decorre a contento, apesar da equipa que o vencer não poder representar a província no Zonal de Apuramento ao Girabola’2011.

O mesmo disputa-se no sistema de todos contra todos a duas voltas.Participam na prova as equipas do Sporting Clube do Bié, Vitória Atlético Clube, Recreativo do Chinguar, Desportivo de Kunhinga, Desportivo de Katabola e Sporting de Katabola.O Sporting Clube Petróleos do Bié é campeão em título.

Associação sem dinheiro
para realizar projectos


O futebol bieno continua numa situação aflitiva, uma vez que os planos traçados não são materializados e os sonhos vão se transformando em pesadelos.

A razão é a falta de dinheiro, indiscutivelmente o calcanhar de Aquiles da Associação Provincial de Futebol do Bié, que admitiu estar a viver momentos críticos, quando há bem pouco tempo se pensava numa possível viragem tendente a dar outra vitalidade ao futebol local.

Dado o actual quadro, o público local vai perdendo o entusiasmo pelo desporto.Todavia, o problema não consiste apenas na falta de dinheiro.O nível competitivo do último "Provincial", conquistado pela equipa juniores do Sporting Clube Petróleos do Bié, deixou muito a desejar.

Essa vai sendo também uma grande preocupação para os dirigentes e atletas preocupados em recolocar a província na elite do futebol angolano, uma vez que tem uma tradição a honrar e defender.

Para salvar a situação, Jacinto dos Santos, o homem forte da Associação, assegurou que não vai cruzar os braços.Para aquele dirigente,"a falta de dinheiro está por detrás da queda de qualidade do futebol praticado, pois quando ele não existe tudo corre mal".
"Sempre gritamos, mas nunca conseguimos nada.Ainda não apareceu alguém para ajudar o futebol bieno a regressar aos velhos tempos", amenta.

Futuro passa pela
ajuda do Estado


O futebol no Bié continua de pé, apesar da fragilidade que o caracteriza nesses últimos anos.Inovações são ensaiadas pela direcção da Associação da modalidade. Jacinto dos Santos, presidente de direcção, apela ao Estado para desempenhar o seu papel, apoiando a modalidade em toda a província, pois a falta de verbas impede os clubes de avançarem.

O responsável máximo da Associação Provincial de Futebol do Bié afirmou serem de vária ordem as dificuldades que o futebol local atravessa, sobretudo no que toca às infra-estruturas, não só da associação como dos clubes.Por isso, procura apoios para, num curto espaço de tempo, conseguir solucionar parte das dificuldades que aflige a modalidade.

"Os clubes sozinhos nada podem fazer, pois não possuem verbas para desenvolver o desporto de alto rendimento.Defendo que o Estado deve dar uma mãozinha, apoiando os clubes federados.Está provado que sem ajuda, o futebol não progride", explica.

Jacinto dos Santos defendeu, igualmente, a reabilitação urgente das infra-estruturas dos clubes em toda a província para um rápido crescimento do desporto por aquelas paragens."É notório o esforço que o Governo faz para desenvolver o desporto na província.Estão a ser recuperadas várias estruturas na capital da província e em alguns municípios.É com esse pensamento que devemos trabalhar", realça.

Agentes desportivos
preocupados


Agentes desportivos, técnicos, atletas e público do Bié estão bastante preocupados com o actual quadro do futebol da província.
Fernando de Oliveira, técnico de futebol, concorda que a modalidade atravessa um mau momento."É uma realidade que não podemos ignorar.

 É só recorrer à história do futebol nacional para vermos que o Bié sempre foi rival do Huambo. Antigamente, a província realizava campeonatos de iniciados, juvenis, juniores e seniores e as equipas participavam regularmente nas competições nacionais.

 Nos últimos anos, o Bié não participa em provas nacionais. São factores que não devemos esconder e temos de estudar formas para vencer o mal que vive o nosso futebol e procurar repô-lo no seu real patamar", afirmou.

Firmino Manuel "Mota Lemos", outro técnico de futebol da província, acredita ser necessário rever as políticas de ajuda do Governo ao desporto de alto rendimento, essencialmente ao futebol. Para ele, a reestruturação do futebol bieno deve começar por uma aposta séria nos escalões de formação.

"A criação de um projecto que vise desenvolver o futebol nesta parcela do território nacional deve ser uma das principais apostas", explica.Já João Saiago, ex-atleta do Vitória Atletico Clube, está indignado com o actual quadro que a modalidade apresenta.Por isso, apelou aos órgãos de direito para ajudarem a inverter o quadro. 

 "Há 18 anos que o Bié não compete em provas nacionais nos escalões de formação e há cinco que não disputa a ‘Segundona’. É triste ver uma modalidade que já deu alegrias a este martirizado povo a decair", lamentou.Para José Bule, ex-futebolista do Juventude do Kunje, o Estado deve apoiar as equipas bienas para que participem nos campeonatos nacionais e no Zonal de Apuramento.

"Penso que o Estado e os empresários devem apoiar o futebol local. Esta província sofreu bastante com a guerra e a modalidade pode fazer com que a população veja as melhores equipas do país a desfilar nestas paragens", reforça.

Zonal de Apuramento
ao Girabola’2012 é a meta


O presidente da Associação Provincial de Futebol do Bié, Jacinto dos Santos, anunciou recentemente que, em 2011, as equipas da província vão estar de volta à II Divisão do futebol nacional, explicando que a falta de dinheiro impediu que os clubes locais participassem em provas de âmbito nacional."

“Estamos a trabalhar para o Bié voltar a disputar o Campeonato Nacional da II Divisão e, consequentemente tentar regressar ao Girabola, e na Taça de Angola, a segunda maior competição futebolística do país", afirmou.

Jacinto dos Santos considerou, igualmente, ser necessário criar condições para as equipas bienas voltarem à alta-roda do futebol nacional o mais rápido possível."Vamos começar, ainda este ano, com a participação dos escalões de formação e, no próximo, temos a obrigação estar no Zonal de Apuramento ao Girabola’2012", garantiu.

Para Jacinto dos Santos, o futuro da modalidade no Bié depende do apoio do Governo e da classe empresarial locais.Caso isso venha a ser um facto, acredita que o futebol volte aos níveis alcançados em tempos idos."O futuro do futebol aqui passa por mais apoios de pessoas de boa fé",concluiu.