Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Reportagens

Ganhos da Paz reflectidos no desporto em Benguela

07 de Abril, 2010

Estádio de O’mbaka é a maior infra-estrutura desportiva construída em Benguela

Fotografia: Jornal dos desportos

A assinatura formal dos acordos da Paz, a 4 de Abril de 2002, entre o Governo angolano e a UNITA, trouxe grandes benefícios para o desporto nacional, sendo a província de Benguela uma das mais favorecidas, a julgar pelos investimentos de que beneficiou em infra-estruturas.

Benguela já foi considerada potência desportiva no país, rivalizando apenas com Luanda. Acabada a guerra, eis chegado o momento para se encarar na Paz a melhor forma de se resgatar a hegemonia perdida no tempo. A guerra foi um dos factores que contribuíram para a decadência do desporto na província, facto que remeteu grande parte da juventude a actividades anti-sociais.

O uso abusivo de bebidas alcoólicas, a delinquência, a prostituição, entre outras práticas menos dignas passou a fazer parte do quotidiano da grande parte da massa juvenil, que encontrou nelas a forma de preencher o vazio deixado pela impossibilidade de praticar desporto na província.

Com o surgimento da Paz, as atenções dos governantes, empresários e agentes afectos às distintas associações cívicas sedeadas na província tomaram outro rumo. O desporto e a formação técnico-profissional passaram a constituir apostas prioritárias da juventude, que aos poucos vai ganhando consciência da necessidade de mudança, abandonando vícios que em nada a dignificam.

Desde 2004, dois anos depois de se ter alcançado a Paz definitiva em Angola, o executivo provincial, na altura liderado por Dumilde Rangel, baixou orientações às administrações municipais e comunais no sentido de se criar iniciativas locais para o fomento e a massificação desportiva junto das escolas públicas e privadas, bem como nos bairros e núcleos desportivos. Estava assim, lançado o projecto de relançamento desportivo na província.

A iniciativa do então governador de Benguela resultou no ressurgimento do desporto escolar e dos campeonatos infantis em toda a extensão da província. O futebol, o atletismo, o xadrez, o andebol, o basquetebol, o voleibol e o ciclismo foram as modalidades que, na altura, serviram de ensaio.
 
A par destas acções, o Governo Provincial, em parceria com empresas locais, promoveu alguns cursos de formação para professores de Educação Física, técnicos desportivos e monitores. Para os referidos cursos, que serviram para potenciar os homens indicados para levar avante o projecto do Governo local, foram convidados técnicos nacionais e estrangeiros de diferentes modalidades.

Letargia dos agentes locais
desvirtua aposta do Governo
 

Não obstante as atenções se centrarem no fomento e na massificação do desporto de baixo rendimento, nomeadamente, na descoberta e formação de talentos a partir das escolas, dos núcleos organizados nos bairros, comunas e municípios província, o Governo Provincial decidiu apoiar os clubes, cujas equipas principais estavam envolvidas em competições oficiais.

A aposta serviu para minimizar as dificuldades financeiras que os clubes enfrentavam.Mas, por culpa de alguma letargia que se apossou da maioria das direcções dos clubes locais, as referidas ajudas não tiveram o seguimento desejado, resultando daí o "descarrilar" do projecto então iniciado, facto que deixou muito boa gente sentida.

O futebol, o andebol, o basquetebol, o ciclismo e o atletismo, que constavam da lista de prioridades, foram os primeiros a ressentir-se da falta de iniciativa dos seus agentes, acusados de má gestão dos fundos financeiros alocados pelo executivo de Benguela.

A situação desencorajou a classe empresarial, mobilizada para se juntar à iniciativa do Governo. Aliás, da forma como as coisas caminhavam, a ninguém interessava investir o seu dinheiro, a menos que houvesse garantias de, num curto espaço de tempo, os clubes devolverem os valores depositados em suas contas bancárias. Não acontecendo isso, o resultado foi o que se assistiu nos últimos cinco anos.

"Puxão de orelhas"
do ex-governador


A prática desportiva baixou de nível e a província deixou de ser uma força, perdendo protagonismo no país. Ainda assim, houve pessoas que, teimosamente, rotulavam a província como a segunda potência do desporto nacional.O ex-governador provincial, Dumilde Rangel, actual deputado à Assembleia Nacional, foi dos poucos que refutavam tal tese. Para o ex-governante, Benguela há muito tinha deixado de produzir atletas nas distintas modalidades, pelo que não fazia sentido rotulá-la como uma potência ao lado das demais, que continuavam a produzir novos talentos.
 
"Precisamos de unir esforços e estudar formas para recuperarmos o prestígio e o respeito que a província já granjeou no panorama desportivo do país e, quiçá, no estrangeiro (...)", dizia.Para muitos, foi uma declaração bastante ousada da parte de um governante que muito bem poderia ter acautelado a situação para que não chegasse ao ponto onde chegou. Por isso, foi fortemente criticado por certas individualidades afectas ao desporto local.
   
Mas, com o passar do tempo, a verdade veio à tona e as pessoas recordaram-se das palavras proferidas pelo então governador de Benguela, quando numa das suas visitas de campo, no Estádio do Buraco, na cidade do Lobito, havia manifestado a sua preocupação pelo estado em que se encontrava o desporto na província."Afinal, o chefe tinha razão (...)", baixinho auto-penitenciavam-se os homens contrário ao ponto de vista de Dumilde Rangel.

"Africanos" catapultaram
desporto benguelense


Quando tudo parecia acabado em matéria desportiva, a população benguelense viu, em menos de três anos, a construção de três grandes empreendimentos desportivos, tudo no quadro da realização de eventos internacionais, nomeadamente, o Afrobasquete, o CAN de Andebol e o CAN Orange-Angola’2010.

Para as referidas provas, o Governo Central construiu as respectivas infra-estruturas desportivas para que as partidas fossem aí realizadas sem grandes problemas. Assim aconteceu com o sucesso alcançado no campeonato africano de basquetebol sénior masculino (Afrobasquete), em 2007, no campeonato africano de andebol sénior feminino, em 2008, e recentemente, na Taça Africana Orange-Angola’2010.

Segundo as críticas dos observadores estrangeiros e nacionais que o "JD" pôde apurar, todas essas provas foram realizadas com sucesso, tal como haviam augurado as pessoas envolvidas directa ou indirectamente na organização dos respectivos certames.Terminadas as actividades para si projectadas, a província de Benguela ficou com os imóveis intactos.

E, como forma de os rentabilizar, a nível local começou-se a ensaiar mecanismos para tirar o desporto da letargia em que se encontra mergulhado. É assim que nos últimos dias temos assistido a algumas movimentações no executivo de Armando da Cruz Neto, como nos clubes e associações desportivas.

O objectivo principal está na rentabilização das infra-estruturas desportivas construídas por altura das provas internacionais e de que a cidade de Benguela foi palco das mesmas, acolhendo algumas partidas."Precisamos de honrar o nosso compromisso com a província e o país. Isso passa por criarmos condições para num curto espaço de tempo, a província de Benguela volte a ter uma ou duas equipas a competirem ao mais alto nível em cada uma das modalidades em que no passado já nos notabilizámos (…)", precisou o professor Pedro Garcia, director provincial da Juventude e Desportos de Benguela.

Na verdade, o desporto em Benguela começa assim a ganhar novo fôlego, facto que indicia que, num curto espaço de tempo, volte aos seus velhos tempos de glória e alegria junto dos seus aficionados residentes e de outros tantos espalhados por esta Angola e na diáspora, que se identificam com esta parcela do território nacional.

O mbaka e Acácias Rubras
referências da alta competição


A construção do Estádio Nacional de O’mbaka e do pavilhão gimnodesportivo Acácias Rubras constituem, para os benguelenses, os dois maiores ganhos do desporto local, sendo duas grandes referências para a alta competição, que acolheram com êxito provas de calibre internacional.

O Estádio de O’mbaka, erguido no bairro da Taka, situado a 6 km a Norte da cidade-sede da província, tem capacidade para acomodar 35 mil pessoas sentadas em cadeiras individuais, enquanto o pavilhão Acácias Rubras, erguido no bairro do Kalohombo, localizado a 3 km a Sul da cidade-sede, está capacitado de receber 3000 espectadores sentados. 
 
A par dessas duas infra-estruturas desportivas construídas, o Governo recuperou outras tantas, que se encontravam em avançado estado de degradação. Apesar de serem pertença de clubes, o Governo Central entendeu recuperá-las de forma a servirem do desporto a contento. São os casos dos estádios de futebol do Municipal, São Filipe, em Benguela, do Buraco, no Lobito, e do Comandante Fragoso de Matos, na Catumbela.

A par destes estádios, foram construídos dois viveiros para responder aos eventuais desgastes dos relvados nos respectivos campos. Para muitos, os viveiros do quintalão da Base Operacional da Catumbela e do Estádio Raimundo Ferrão (Electro do Lobito) são os melhores do país, em comparação com os demais construídos por altura do CAN Orange-Angola’2010.

Matrindindi transformado
em "elefante branco"


Ao contrário do que foi projectado, o pavilhão gimnodesportivo "Matrindindi" continua a ser mal aproveitado, correndo sérios riscos de degradação.O grande problema é a falta de água canalizada e de electricidade. As casas de banho estão, na sua maioria, inutilizadas por falta de água e como senão bastasse, a estrutura física apresenta sinais de degradação, com alguns assentos das bancadas arrancados.

Algumas pessoas contactadas para se pronunciarem sobre a situação ali reinante, disseram ser da responsabilidade da Direcção Provincial da Juventude e Desportos velar pela sua preservação. Logo, às direcções da Associação de Andebol, do Futsal e da Associação da Mulher no Desporto apenas cabe cuidar do espaço a si cedido para a respectiva exploração.

Erguido por detrás da Escola do I Ciclo do Ensino Secundário Comandante Cassanji, em Benguela, o pavilhão Matrindindi foi projectado para servir de apoio às selecções que em Benguela participaram do "Africano" sénior feminino, em 2008. O mesmo tem capacidade para albergar cerca de 600 pessoas.

Novas infra-estruturas desportivas mudam organização
dos "provinciais"


A criação de infra-estruturas na província de Benguela levou a que as associações desportivas redefinissem a organização das suas provas internas, na tentativa de melhorar e aumentar os níveis de competitividade e a qualidade das equipas locais, que têm como meta apresentarem-se melhor nas competições nacionais em que estiverem envolvidas.

No futebol, a Associação Provincial, em concertação com os clubes, decidiu que os jogos do Campeonato Provincial sénior masculino devem ser realizados apenas em campos relvados, salvo os realizados no interior da província, nomeadamente, no Cubal (Recreativo), Baía-Farta (Pérola Negra) e Dombe Grande (Desportivo).

Os clubes reclamam por apoios financeiros para fazer face às exigências da prova e o executivo de Armando da Cruz Neto é chamado a custear o aluguer dos campos relvados."Da parte que nos cabe, estaremos prontos a apoiar onde formos chamados a intervir em prol do desporto da província.

A medida tomada pela APF só veio a calhar, porquanto, julgamos que dessa forma, o Estádio Nacional de O’mbaka vai continuar aberto para qualquer equipa que quiser realizar as suas partidas na condição de visitada", enfatizou o director dos Desportos de Benguela, Pedro Garcia.O Grupo Desportivo 17 de Maio de Benguela e o Atlético da Zona A são as equipas que, na falta de um campo relvado, utilizam o referido estádio.