Jornal dos Desportos

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Reportagens

Girabola ainda é de borla

Teixeira Cândido - 12 de Novembro, 2014

Todas as equipas que venceram o Girabola receberam apenas como prémio um troféu e faixas

Fotografia: Nuno Flash

O Girabola calendarizou este ano a 36ª edição. Como se sabe a primeira foi jogada a 8 de Dezembro de 1979. Há 35 anos precisamente. Durante esse período, o futebol evoluiu tanto no mundo que ganhou estatuto de indústria e diga-se, pelos milhões que movimenta.

Em Angola, o futebol evoluiu. Saiu do pelado,  passou a ser praticado em campos relvados (pelo menos na I e II Divisões), o número de equipas depois de ser de 12, 14 hoje passou a 16. Já foi de 24, na edição inaugural.

No entanto, o futebol ainda não é uma indústria. Não “produz” capital,  embora gaste milhões na contratação de jogadores, nos salários dos treinadores e noutras despesas como prémios de árbitros, transporte, alojamento assim como aluguer e  segurança.

Dados avançados por alguns dirigentes de equipas que disputam o Girabola, cujo texto foi publicado no Jornal dos Desportos, referem que qualquer equipa que se sagre campeã da I Divisão, não gasta menos de três milhões de dólares. Em contrapartida, recebe um troféu sem qualquer peso financeiro, acompanhado de faixas iguais às tantas  que são oferecidas em diversas cerimónias de condecoração.

Pedro Neto, presidente da Federação Angolana de Futebol, disse em certa ocasião ao Jornal dos Desportos que só aceitava oito a nove milhões de dólares para entregar o Girabola a um patrocinador. Ou seja, para que a competição fosse rebaptizada com o nome da empresa interessada.

Uma empresa de telefonia móvel ofereceu dois milhões para  associar o seu nome à maior competição futebolística. A Federação Angolana de Futebol recusou a proposta e continua a dar como prémio o citado troféu e as faixas. Foi precisamente esse o prémio que o Recreativo do Libolo (campeão nacional) recebeu pela conquista do terceiro título.

No entanto, a crise financeira que assola os clubes do Girabola, impõe outra compensação. Já não é apenas um problema dos pequenos ou clubes da periferia, como Sporting, 1º de Maio, Desportivo da Huíla, Académica do Soyo e outros.

A crise chegou ao “céu”. Ou seja, aos grandes, o Petro de Luanda é a equipa com mais títulos no futebol nacional, o principal rosto dessa situação, que promete arrastar outros. Aproveitando a situação, o Jornal dos Desportos decidiu saber por que razão, 36 anos depois,  o Girabola continua a recompensar os vencedores com um simples troféu. Não é um produto que seduz as empresas?

Os especialistas em marketing desportivo ouvidos nessa reportagem dizem que não. Consideram que as equipas não valorizam o seu produto, no caso o futebol. Inácio Olím, especialista em marketing pela universidade de Leipzing, na Alemanha, e professor universitário, acha que os clubes não têm sabido capitalizar a modalidade, o que impede que os patrocinadores se sintam atraídos.

Olím cita como exemplo para fundamentar a sua opinião, o facto de os clubes patrocinados  pelos bancos não valorizarem como deviam a imagem dessas empresas. “Quando uma empresa patrocina uma equipa ou clube, espera como é normal o retorno do investimento. No caso particular, que a sua imagem seja capitalizada, não apenas nas partidas realizadas por essas equipas, mas também noutros eventos que as equipas deviam realizar”, sublinha.

Inácio Olím critica o facto de os clubes possuírem gabinetes de comunicação e marketing, no entanto, não colocam neles profissionais capazes de conceber uma estratégia, para primeiro valorizar internamente a imagem do clube e depois externamente.“Esses gabinetes existem porque os clubes querem apenas ter.

Mas não contratam profissionais nem atribuem a esses gabinetes quaisquer verbas, de modo a que concebam eventos e outras actividades fora das partidas de futebol, capazes de motivar quem patrocina. Essa cultura afugenta empresas. Ou melhor, não atrai ninguém, pois não se pode pensar num patrocinador para o Girabola, quando os clubes não valorizam o pouco que recebem das empresas que decidem publicitar”.

O especialista em marketing de Desportivo que trabalha coincidentemente na Federação Angolana de Futebol, embora recuse falar em nome da instituição, diz que tem de haver um efeito espiral. “Se quisermos valorizar o nosso futebol e possuirmos patrocinadores, temos de começar a pensar como profissionais, capitalizar primeiro as empresas que patrocinam os clubes e depois chegarmos ao Girabola”.

“Como é que os jogadores que são referências das equipas que actuam no Girabola, usam à torto e à direito camisolas de emblemas europeus, quando deviam ter a obrigação de expandir o nome das empresas que os patrocinam. É nos clubes que se deve começar”, refere Inácio Olím.