Jornal dos Desportos

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Reportagens

Golfe procura um lugar ao sol

Paulo Caculo - 24 de Setembro, 2009

Senhoras so uma minoria

O dia começa cedo. Mal o sol começa a espreitar, já um bom número de pessoas entra no Clube de Golfe de Luanda, ao Morro dos Veados, para uma nova jornada. “É assim todos os fins-de-semana”, conta-nos Manuel Barros, um dos jogadores mais experientes no activo. Nas vestes de líder do golfe luandense, o veterano serve-nos de guia no longo percurso de cada prova, num total de 18 etapas.
“É cansativo, mas como estamos habituados a fazer estes percursos, já não nos ressentimos da caminhada”, diz, ao mesmo tempo que se prepara para dar a primeira tacada.
“São 18 buracos e isso pode ir das 7 às 12 horas”, disse, Manuel Barros, deixando-nos espantados e à espera do que seriam aquelas cinco horas de caminhada.
Com o mar a servir de pano-de-fundo, num excelente regalo à vista, os praticantes ganham condições para dar início às etapas. Olhando para o número de praticantes, perto de 20, cedo nos apercebemos que, afinal, o golfe não é uma actividade exclusiva de ricos. Pelo contrário, há cada vez mais jovens e membros da classe média a jogar, embora o seu processo de popularização ainda não tenha atingido os números desejados.
“Houve muitas melhorias. Primeiro eram nove buracos, crescemos para 18 e já temos alguma estrutura, embora insignificante. Temos a intenção de fazer uma estrutura condigna para darmos um estatuto ao campo, tal como acontece em outros países”, adiantou o veterano jogador.

A FUGA DE PRATICANTES

Um dos grandes desafios enfrentados pelo Clube de Golfe de Luanda prende-se com o reduzido número de praticantes. Entre o leque de “kotas” que contribuem para manter viva a modalidade, destacam-se, além de Manuel Barros e Joaquim Botelho, da Volvo, Luís Manuel, representante da EPAL, Francisco Santos e Pascoal Ramos, da ENSA, Hermenegildo dos Santos, da ENCISA.
Ao que nos foi dito, o desinteresse pela modalidade pode estar ligado ao facto de muitos a encararem como um desporto de elite, para pessoas de classe alta e para velhos.
Números a nós apresentados, no entanto, permitem concluir que o leque de praticantes varia de acordo com os meses.
“Há meses em que há mais jogadores e outros em que há menos. Na época do Cacimbo, por exemplo, durante a semana, chegam a passar pelo nosso clube 80 a 90 jogadores. Aos fins-de-semana, a média varia entre 20 a 30 praticantes, na sua maioria estrangeiros”, explica Manuel Barros.
E por falar em estrangeiros, é visível o interesse destes na prática do golfe no Morro dos Veados.
Pessoas de várias nacionalidades, não se coíbem em partilhar a sua experiência com os angolanos. O facto de o número de estrangeiros, por vezes, superar o de angolanos preocupa os grandes impulsionadores da modalidade.
“O que mais nos preocupa é a pouca aderência de angolanos. Temos feito um trabalho de sensibilização, mas não é suficiente devido à fraca capacidade financeira que o clube enfrenta para desenvolver seminários e palestras”, lamente.

Desporto aberto aos
vários estratos sociais

É frequente ouvir-se dizer que o golfe é uma modalidade para velhos, mas, para os praticantes mais experientes do Clube de Golfe de Luanda, tal tese não corresponde à verdade, porquanto qualquer jovem se pode iniciar na modalidade, a partir dos dez anos, podendo vir a praticá-lo ao longo da vida. 
Contudo, a realidade angolana tem provado o contrário. A maioria dos jogadores entra para o golfe muito tarde (com mais de 30 anos), depois de consolidar a vida profissional e familiar. “Esta realidade não se verifica apenas em Angola, uma vez que, em quase todos os países onde se pratica a modalidade, apenas uma minoria tem idade inferior a 18 anos”, justifica Manuel Barros. 
A ausência de campos de golfe no país, onde se possa jogar a preços módicos e que ofereçam lições a custos acessíveis, segundo o capitão do clube luandense, tem também contribuído para o lento crescimento do número de praticantes. “Isso tem afastado muitos jovens, o que faz com que o golfe tenha um crescimento inferior ao desejado”, diz. 
Manuel Barros garante, no entanto, haver inúmeras vantagens para quem pratica a modalidade. Todos os que o praticam têm a oportunidade de se “desenvolver física e intelectualmente”.
Quem corrobora com o “capitão”, é Francisco Santos, um dos expoentes máximos do clube. Defende uma maior divulgação da modalidade, pois acredita que “o golfe é um desporto que incute valores humanos fundamentais”, como influenciar a vida dos jovens, oferecendo-lhes programas educativos que favorecem o desenvolvimento da personalidade e a apreensão dos valores da vida.
“É importante as pessoas olharem para esta modalidade de forma diferente, pelas vantagens que traz à saúde física, mental e por tudo o que ela tem de lúdico e formativo”, valoriza. 

Federação esbarra
na falta de clubes

A falta de clubes no país emperra o projecto de criação da Federação Angolana de Golfe. Esta é uma ideia defendida por Albina Assis, uma das poucas senhoras do clube.
Para Manuel Barros, a ausência de mais equipas explica-se pelo facto de não ter havido, desde os tempos mais remotos, a cultura da prática do golfe.
“Os nossos colonizadores não tinham esta cultura e pode ser uma das razões de o primeiro campo surgir a 17 de Dezembro de 1941 e, mais tarde, em 1970, o segundo, que não era frequentado por 70 ou 80 por cento de portugueses, mas por pessoas de outras nacionalidades. Isso fez com que o Golfe não atingisse um desenvolvimento grande como em países vizinhos”, elucidou Barros, que lamenta não haver uma política de Estado capaz de mobilizar o desenvolvimento da modalidade.
“Falta uma política de Estado concreta, no sentido de dar complemento aos ideais de turismo ao nosso país. Precisamos um campo de golfe na capital do país, como iniciativa, e depois nas outras províncias”, acrescenta.
Dada a inexistência de mais clubes e o reduzido número de praticantes angolanos, acrescenta Barros, o país não tem uma federação da modalidade.

Angolanos forçados
a filar-se em Portugal

Face à inexistência de uma federação, os seus praticantes enfrentam limitações em relação às competições internacionais. Como solução, o Clube de Golfe de Luanda acedeu à proposta da Federação Portuguesa de Golfe para a filiação dos seus jogadores em Portugal. A condição tem permitido que atletas angolanos compitam ao mais alto nível.
“Quando os nossos jogadores atingem determinada maturidade desportiva, somos obrigados a filia-los na Federação Portuguesa de Golfe por bom senso de algumas pessoas ligadas à Federação e ao clube da TAP. A partir dessa Federação, temos a possibilidade de jogar em qualquer competição internacional, dentro do nosso estatuto de amador”, conta.

Senhoras são uma minoria

Entre os praticantes de golfe angolanos, as senhoras constituem uma minoria. Contam-se pelos dedos das mãos o número de atletas do sexo feminino integradas no Clube de Golfe de Luanda. A situação, de acordo com alguns entrevistados, não deixa de ser preocupante, na medida em que aquele clube assumiu o compromisso de, uma vez por ano, colocar senhoras em competição.
“A nossa grande preocupação prende-se com praticantes do sexo feminino. Temos o compromisso de, a nível da nossa região, uma vez por ano, termos competição feminina, mas não temos jogadoras para fazer face a esses eventos, porquanto as mesmas abandonam por falta de incentivos ou apoios e não temos como as trazer de volta”, disse Barros, acrescentando que uma das soluções para motivar o regresso das senhoras ao golfe seria encontrar patrocinadores.
“Anualmente, contamos com uma preparação de 15 a 20 angolanos, mas que acabam por desistir por dificuldades financeiras. Isso deixa-nos cada vez mais reduzidos”, afirma.
O experiente jogador esclarece, ainda, que há 200 anos, o golfe era uma modalidade de elite, jogada por determinados extractos sociais, mas hoje, a é um desporto como outro qualquer.

Praticantes acreditam
num futuro brilhante

Embora a modalidade careça, ainda, de muitos apoios, a começar pela criação de uma federação e de patrocínios para a construção de campos relvados, os praticantes integrados no Clube de Golfe de Luanda acreditam num futuro risonho.
Joaquim Botelho, o mais velho da equipa, actualmente nos 60 anos, faz questão de sublinhar que está no golfe por amor à modalidade. O mais velho afirma que começou a jogar depois de ter encerrado uma carreira no futebol. Gostou e nunca mais deixou de praticar.
“As pessoas pensam que o desporto não tem grande importância. Sou desportista desde miúdo, comecei no futebol de 11 anos e quando terminei a carreira, passei a praticar golfe”, conta Joaquim Botelho.
Já Francisco Santos deplora a fraca divulgação da modalidade pelos órgãos de informação. Segundo ele, um dos caminhos para a mobilização das pessoas para a praticarem o golfe é a divulgação.
“É preciso massificar a modalidade, convidar os órgãos de comunicação massiva a divulgarem mais o golfe, de forma a criar incentivos nas pessoas que se acham indecisas”, afirmou.
O atleta refere que “a imagem superficial é a de que o golfe é uma modalidade de elite, tal como há 200 anos. Hoje, é uma modalidade de massas, para qualquer estrato social. É preciso que os órgãos de informação o divulguem para que as pessoas saibam da sua simplicidade”, disse Francisco Santos, lamentando o facto de Angola se ver obrigada a ser representada, em algumas competições internacionais, por atletas estrangeiros.