Jornal dos Desportos

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Reportagens

Guerra sem quartel

20 de Outubro, 2010

Octogenário promete trabalhar na F-1 até as forças desaparecerem

Fotografia: reuters

Bernie Ecclestone criticou com dureza, recentemente, os chefes das equipas da Fórmula-1. Para o dirigente, a maioria está sempre a tentar burlar as regras por "estupidez". "Todos, provavelmente, só olham para o próprio negócio e não se preocupam com os outros. O que é bom para a Fórmula-1 é bom para todos os envolvidos: equipas e empresas", disse.

O multimilionário disse ainda que"muitas pessoas pensam apenas no que é bom para benefício próprio". Esse pensamento, de acordo com Ecclestone, vale com relação às regras."Pensam apenas no que podem fazer para vencer",destacou. Bernie nega que essa situação acontece para satisfazer o ego dos próprios funcionários. "Não chamaria a isso de ego, mas sim de estupidez. Deveriam pensar no lado global da coisa. Todos são competitivos e querem vencer, o que apoio, mas é preciso fazer isso sem tentar levar uma grande vantagem", disse.Entre o sim e o não, o pensamento de Bernie leva a outras considerações.

 "Se conseguem isso, porque fizeram o melhor carro ou possuem o melhor piloto ou estratégia, óptimo, mas não se deve inventar coisas para obter vantagem", discursou. O excesso de controlo sobre os pilotos, cujas declarações são padronizadas, também não é bem visto por Bernie. "As equipas não encorajam os pilotos a serem livres. Há muitos pilotos legais a correr no momento, mas não se constrói personagens de noite para o dia”, destacou.

Critica Londres´2012

O senso de Bernie Ecclestone também se estende a outros cantos do mundo desportivo. O responsável da Fórmula-1 criticou a realização dos Jogos Olímpicos de 2012. "O Governo britânico gasta uma fortuna com os jogos, que acontecem em 2012 e serão logo esquecidos, quando poderiam ter apoiado o circuito de Silverstone, assegurando para sempre a Fórmula-1 no Reino Unido",disse.

O octogenário reconhece o impacto dos Jogos Olímpicos na vida das pessoas. "As únicas coisas boas nos Jogos Olímpicos são as cerimónias de abertura e de encerramento, um adorável espectáculo”, assevera, mas "de resto, é um absurdo completo", afirmou Ecclestone ao jornal The Guardian.

 Aposentação  Distante
Bernie Ecclestone vai completar 80 anos no próximo dia 28 do corrente mês, mas isso não significa que esteja a pensar em aposentação."Se parar de trabalhar, não consigo mais resolver os problemas. E, se isso acontecer, é o princípio do fim para mim.Trabalho e gosto de trabalhar", garantiu Ecclestone, que disse também não ter um sucessor em mente.

Dinheiro move a F-1

Honda, BMW e Toyota abandonaram a categoria, enquanto a Renault vendeu parte da equipa. Assim, apenas a Ferrari e a Mercedes permanecem 100 por cento envolvidas com o desporto. Mas por que isso aconteceu? A crise financeira. No entanto, a obviedade dessa resposta, agora baseada em números específicos não impede de se reflectir sobre o que está a acontecer. A F-1 é um negócio, e como tal é movido a dinheiro.

Então, surge um questionamento: mas será que a F-1 move dinheiro também? As cifras para patrocinar uma equipa são altíssimas. Os direitos de televisão também. Então, por que a Fórmula-1 deixou de ser um negócio lucrativo para as montadoras? O grande problema pode estar na própria maneira como a F-1 é tratada pelas entidades responsáveis. Há muitas saídas para a categoria, principalmente com a expansão da internet. Mas algumas mentes se recusam a aceitar o facto.O resultado desse atraso é que a Fórmula-1 fica dependente tão-somente de patrocinador-televisão.

Vendas caem, montadoras abandonam

No mundo dos negócios é natural que, diante de uma crise, se estabeleçam prioridades dentro das empresas. Quando as vendas caem, é preciso cortar gastos. No caso das montadoras, o gasto é a Fórmula-1.O ideal seria transformar a categoria num negócio mais lucrativo para as equipas. Não deixar que dependam de negócios paralelos para sobreviver. Se a FIA aumentasse a participação nos lucros, já seria uma boa alternativa.

Baseado no anuário Fórmula Money, as montadoras não teriam como se manter na Fórmula-1. A Toyota precisaria de vender 9.701 carros para cobrir o prejuízo obtido com a equipa de F-1. A Renault teria de vender 8.206 veículos, enquanto a BMW teria um número um pouco menor: 3.653. Tudo isso numa época, onde as montadores venderam 1,7 milhão de carros a menos.

Se a FIA trabalhasse na busca de opções, esse número poderia ser reduzido a zero. Isso garantiria o futuro das montadoras e evitaria mudanças radicais como as que estão a acontecer.Das montadoras, a única que se mantêm forte é a Ferrari. Justamente, porque é menos dependente, uma vez que necessita de vender apenas 153 carros por ano para garantir os gastos com a Fórmula-1.

Olhar para o futuro
É preciso olhar para o futuro. Não é possível um negócio, que envolva tanto dinheiro, encontrar dificuldades para obter lucros e depender de investimentos externos para sobreviver. Algumas pessoas como Richard Branson e Tony Fernandes podem ajudar nesse novo caminho trilhado pela Fórmula-1. Mas uma atitude séria precisa de vir do alto escalão da FIA e da FOM para que o futuro seja garantido por muito tempo ainda. Então, Todt e Ecclestone devem encontrar outras alternativas, porque o mundo evoluiu.

Um grande negócio

A Fórmula-1, além de um desporto, é um grande negócio. Os mais críticos diriam que mais do que um desporto, é um negócio. Foi publicado, por exemplo, mais um revés da Force India nos tribunais. "(…) a Force India voltou ao noticiário novamente – pelos motivos errados, pois o Tribunal de Apelação de Londres decidiu que a equipa rompeu um contrato de patrocínio de 2007 com a Etihad Airways, a transportadora nacional de Abu Dhabi, e Aldar, uma das principais companhias de investimento daquele país.

As empresas mudaram as suas parcerias para a Ferrari um ano mais tarde e foram ordenadas a pagar 4,7 milhões de dólares norte-americanos para a equipa pelo Tribunal Superior, em Novembro, por violação de contrato. O Tribunal de Apelação concluiu que as empresas tinham o direito de cancelar o negócio por causa do patrocínio fechado pela Force India com a companhia aérea rival Kingfisher, de Vijay Mallya"

O caso soma-se aos imbróglios com a Aerolab/Lotus e o piloto mexicano Roldán Rodríguez; à escuderia de Vijay Mallya, que se pronunciava uma equipa com sólido futuro na categoria, vai vislumbrando um horizonte não tão promissor para 2011. Nenhum piloto foi confirmado para a próxima época, mas é esperado que Adrian Sutil, louco para sair – mas sem opções – e o escocês Paul di Resta, piloto da Mercedes no DTM,  preencham os cockpits.

Nico Hulkenberg também mexeu com a Fórmula-1. A ameaça dos petrodólares de Pastor Maldonado à vaga do promissor alemão foi ecoada pela revista italiana Autosprint, num claro sinal de que a questão deve estar a incomodar, e muito, o empresário do piloto, Willy Weber. Embora afirme não estar preocupado, Hulkenberg sabe que a debandada de vários patrocinadores importantes colocam a Williams numa situação muito parecida com a Sauber, salva pelos dólares do magnata das telecomunicações, Carlos Slim, sob a condição de fornecer um cockipit ao protegido Sergio Pérez.

A Renault, que promoveu um verdadeiro papelão no caso"Räikkonen vs. Petrov" conseguiu arrancar mais um patrocinador do russo: a Vodka Flagman estampa a sua marca nos carros amarelos até ao final da época de 2010.Notícias não param de surgir sobre a Lotus. A batalha judicial a envolver o direito de uso do nome entre Tony Fernandes e a Lotus Cars não parece interferir nos negócios da equipa malaia: a Lotus, que fez dois importantes anúncios nos últimos dias – a extensão do contrato com Mike Gascoyne até 2015 e a aquisição de tecnologia da Red Bull – fechou um acordo com a agência de entretenimento e desportos Creative Artists Agency (CAA),

que cuida da carreira de diversas celebridades de Hollywood, como Steven Spielberg, Tom Cruise, Brad Pitt entre outros, músicos como Bruce Springsteen, Sting, Mariah Carey, Green Day, Bon Jovi…,  além de nomes do desporto como David Beckham, Jimmie Johnson (NASCAR) e vários outros desportistas nos EUA.

O acordo é interessantíssimo e, como os demais contratos fechados por Tony Fernandes, miram no futuro. O acordo com a Lotus sublinha justamente o que uma marca forte como a CAA acredita no potencial da Lotus e a sua divisão de marketing vai agora desenvolver e implementar novas estratégias para a equipa, tanto nos EUA e em todo o mundo e criar programas inovadores para os parceiros da equipa.

A equipa de Tony Fernandes também se vai beneficiar da filial CAA Evolução Media Capital, uma empresa de investimento que vai aconselhar sobre a aquisição e estruturação de novas empresas que podem beneficiar-se com uma afiliação com Lotus Racing e F-1”.
Em 2012, teremos a volta do GP dos EUA, num circuito que será construído na cidade de Austin, Texas.

Já na parte de trás do grid, há algumas voltas das demais equipas, outra mudança. Os ares da terra natal foram suficientes para recompor a saúde de Sakon Yamamoto, afastado da corrida de Singapura a favor de Christian Klien. Saúde financeira, claro; a indigestão do japonês foi causada pelo peso dos patrocinadores do austríaco em Marina Bay. Já em Suzuka, circuito onde o japonês estreou na F-1 pela Aguri Suzuki em 2006, o apelo comercial de Yamamoto facilitou o retorno do piloto nipónico, mas para 2011, as coisas são tão incertas como o futuro da própria Hispania.

Curiosidades

• Um carro de F-1 consome perto de 225 litros de combustível numa corrida. No pit stop o reabastecimento era feito a uma velocidade de 12 litros por segundo. Em 2010, não é permitido reabastecer.

• Os carros da F-1 têm peso mínimo determinado pelo regulamento. Para 2010 é de 620 kg, 15 kg a mais que em 2009. Apenas a pintura e a decoração pesam 4 Kg.

• Um carro de F-1 pode desacelerar de 100 a 0 km/h em apenas 17 metros. Os discos de carbono dos freios trabalham em condições excelentes a 550-650ºC.

• Praticamente desde a invenção do automóvel existem as corridas. Para conseguir carros mais rápidos, foram retirados aos poucos os elementos supérfluos.

• Os carros da F-1 podem acelerar de 0 km/h até 160km/h e travar até a paragem em só quatro segundos!

• O alemão Michael Shumacher é o piloto que mais venceu na F-1. Correu 250 GPs, dos quais ganhou 91, e foi campeão sete vezes.

• Na história da Fórmula-1 já morreram 24 pilotos durante o fim-de-semana de competição, mas a segurança nos circuitos tem aumentado nos últimos anos.

• O italiano Claudio Langes tentou classificar-se em 14 grandes prémios sem sucesso, um recorde. A sua equipa EuroBrun retirou-se antes de acabar a temporada.

• A temperatura ideal de trabalho dos pneus de F-1 é de 80ºC a 100ºC. Acima dos 120ºC começam a deteriorar-se. Cada um pesa entre 10 e 11 kg.

• Na época de 2010, 26 carros estão inscritos nos Grandes Prémios.

• Todo o mundo fala da volta de Michael Schumacher, aos 41 anos. Porém, o piloto mais velho a ganhar o campeonato mundial de F-1 foi o argentino Juan Manuel Fangio, que conseguiu a façanha em 1957, com 46 anos de idade.

• Na competição se usa nitrogênio para encher os pneus porque este gás inerte não muda a pressão com o aumento da temperatura.

• Em 24 das 60 edições do campeonato mundial da F-1, o vencedor foi decidido na última corrida.

• Michael Shumacher é o piloto dos recordes. Foi o campeão que assegurou mais cedo a vitória no Mundial. Na época’2002, conseguiu sagrar-se campeão ao faltarem ainda seis corridas.

• Ayrton Senna venceu o confronto directo com Michael Schumacher em nove ocasiões. Schumacher venceu o confronto apenas em quatro.

• A Ferrari ganhou o campeonato de construtores 16 vezes, mais que qualquer outra equipa. Williams, McLaren e Lotus aparecem depois com nove, oito e sete campeonatos cada uma.