Jornal dos Desportos

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Reportagens

Herv Renard: no prometo titulos

Muanamosi Matumona - 06 de Maio, 2010

Herv Renard recusou convites de outras seleces africanas

Fotografia: Samy Manuel

Hervé Renard reconhece a projecção dos Palancas Negras, mas não promete títulos. Deixou a selecção zambiana, que orientou na última edição da Taça de África das Nações disputada em Angola, e assinou um contrato de dois anos com a Federação Angolana de Futebol, numa operação considerada por muitos como uma surpresa, pois tudo aconteceu num momento em que outros nomes apareciam como favoritos.

Agora, no comando da selecção angolana, a missão principal do técnico francês, Hervé Renard, é conduzir a equipa de todos nós para as fases finais de duas provas importantíssimas a nível continental: o CHAN 2011 (com sede no Sudão), e a Taça de África das Nações que terá como sedes o Gabão e a Guiné Equatorial, em 2012. Tratam-se de campanhas muito difíceis e de grande responsabilidade que servirão de “testes de fogo” para o francês. Um mínimo deslize poderá complicar a vida de quem o contratou (a FAF, claro!) e do próprio treinador que assumiu o “risco” de vir à Angola, depois do “fiasco” do CAN 2010, que ainda não foi completamente digerido pelos angolanos, que são muito exigentes para com os “timoneiros” dos Palancas Negras. Para perspectivar aquilo que será o futuro para o futebol angolano, Jornal dos Desportos foi “importunar” o novo seleccionador nacional para saber dos seus projectos.

"Traiu" a Zâmbia ao manter contactos com a Federação Angolana de Futebol, enquanto dirigia a selecção daquele país no CAN 2010?
Não. Absolutamente não, pois, nós, treinadores, como também jogadores profissionais, actuamos de acordo com os nossos interesses e estamos sempre atentos com os contratos que assinamos. Nunca descuramos este aspecto que é muito importante para qualquer homem ambicioso. Sem esta postura, cairíamos, com facilidade, no desemprego, pois estamos sempre à procura de oportunidades, sobretudo, quando o contrato está quase a expirar. Por isso, vivemos sempre com muita tensão, cautela e prudência para não desperdiçar as oportunidades. Foi, exactamente, isto que aconteceu comigo. Quando estive em Angola com a selecção zambiana, que veio aqui com ambições bem determinadas, e moralizada para efeito, alguém pediu os meus contactos e tive de os fornecer por uma questão de princípios. Mais tarde, percebi que era um "emissário" da FAF que queria abordar questões ligadas ao vínculo contratual comigo, para assumir os Palancas Negras. Como o meu contrato com a Federação Zambiana de Futebol estava quase a expirar, prometi falar oportunamente com quem de direito, para tratar seriamente da questão, pois estava em jogo o meu futuro. Tudo foi feito com transparência, equilíbrio, entusiasmo e boa fé. As conversações continuaram e avaliei, milimetricamente, as condições apresentadas pela FAF e tive de aceitar a proposta, porque se tratava de uma ocasião de ouro que não dava para recusar, depois de uma reflexão muito séria que me ajudou a confirmar que Angola é um grande país.

Significa isto que a decisão tomada foi bem pensada?
Certamente! Repare que ainda durante o CAN surgiram muitas possibilidades e propostas que deveriam ser bem avaliadas, para não tomar uma decisão precipitada e desacertada. Angola não foi o único país a bater à minha porta, pois houve outras equipas interessadas em minha pessoa: Costa do Marfim e Mali, por exemplo, solicitaram os meus serviços. Mas não aceitei, porque achei muito ambicioso e sério o projecto de Angola que, de facto, não tinha nada a ver com os de outros países. Digo isto com muito respeito por outras federações.

Em que aspecto?
Quase em todos os aspectos, sobretudo, em termos organizativos. Para muitos, pode ser difícil acreditar naquilo que vou dizer: Angola demonstrou, já no projecto, ser um país bem organizado, possuindo excelentes condições de trabalho e infra-estruturas impecáveis que chamam os resultados desejados, embora o futebol seja muito diferente da matemática. Porém, pelo que me foi apresentado, achei por bem analisar primeiro e aceitar, porque é muito bom assumir um compromisso quando há seriedade e, sobretudo, quando há meios para conseguirmos o que traçamos. Quanto a isto, não tenho a mínima dúvida sobre as boas intenções e a dimensão dos sonhos das autoridades desportivas angolanas.

Mas não teve "medo" de assumir a selecção angolana, sabendo que a mesma "fracassou" na fase final da última edição do CAN que decorreu no seu próprio país?
"Medo"? Nem pensar! Porquê? Para quê? O facto de Angola ter perdido nos quartos-de-final diante do Ghana e ver terminada a sua caminhada antes do tempo previsto não pode ser visto como um fracasso, ou um escândalo, pois não é fácil vencer o CAN, mesmo a jogar em casa. Se repararmos a história da Taça de África das Nações, veremos que muitos países que organizaram o certame não conseguiram conquistar o título de campeão africano, mesmo tendo equipas de gabarito. Não é preciso ir muito longe. Tomemos, por exemplo, a recente experiência da selecção do Ghana que, em 2008, foi incapaz de chegar à final do evento. Não havia razão para ter "receio", porque Angola tem uma grande equipa, que está entre as melhores selecções do continente. No Ghana, apurou-se para os quartos-de-finais, depois de uma prestação brilhante, em 2006 foi representar a África no Mundial disputado na Alemanha, onde teve bons resultados.

E em sua casa, no âmbito do CAN 2010, chegou aos quartos-de-final. É positivo ou negativo este balanço?
Penso que é positivo, porque é muito difícil ganhar o CAN, já que se trata de uma prova de grande calibre, onde participam selecções de referência: os Camarões, a Nigéria, a Costa do Marfim, a Argélia, o Egipto, e outros conjuntos também jogam não para perder, mas, sim, para ganhar, numa prova que só pode ter um vencedor. Por isso, quando Angola não consegue avançar mais, é lógico encarar isto como algo normalíssimo. Mesmo a jogar em casa.

"Ganhar o CAN
não é tarefa fácil"

Mas a próxima edição será disputada fora de Angola. O incentivo é maior e diferente?
Sim! Mas isto não significa que a tarefa será fácil, pois, retomando o que já disse várias vezes, ganhar o CAN não é tarefa fácil. Exige muito: uma boa preparação, um tempo suficiente para trabalhar, um excelente plantel, e o hábito de os seleccionados treinarem e jogarem sempre juntos, caso do Egipto, cuja maioria dos jogadores actua no país. Ora, isto facilita o treinador. Porém, não acontece com facilidade, quando uma selecção joga habitualmente com 80 por cento de craques que evoluem fora do país. Até os atletas podem ser muito bons, mas se nem sempre jogam juntos, há dificuldade para formar uma equipa regular e coerente. Tudo isso determina o sucesso. Aliás, neste quadro, tenho mais algumas perguntas: durante quantos meses o meu antecessor (Manuel José) preparou o grupo para o CAN? Chegou muito antes da prova? Pelo que sei, não teve muito tempo para formar uma boa equipa. Para que a missão seja bem cumprida, é muito importante começar o trabalho muito antes da competição. Sem tempo suficiente, nem José Mourinho conseguirá grandes proezas, mesmo que seja um dos melhores treinadores do planeta.

Mas o caso de Hervé Renard é diferente...
Isto é verdade! Cheguei a tempo e hora e tenho algumas noções sobre os Palancas Negras. Agora vou estar perto deles e vou ter oportunidades para conhecê-los melhor. Mas uma coisa é certa: não prometo títulos, porque não esperamos facilidades. O que prometo é trabalho. Muito trabalho, pois o futebol só rende com trabalho. Estudarei as características dos jogadores para definir o estilo de futebol que vou imprimir neles. Pelo que ainda é muito cedo avançar mais pormenores sobre isso, pois o tempo o dirá.

Há condições para realizar um bom trabalho?
Acredito que temos condições para produzirmos mais, pois a FAF tem muita experiência e muitas possibilidades para pôr à disposição tudo o que é necessário para que os resultados apareçam. Até posso avançar mais: na Zâmbia não tive as condições que encontrei aqui. Creio que as mesmas vão melhorar ainda com o decorrer do tempo. Com muito trabalho, acredito que Angola poderá produzir mais, muito mais.

Mas desconhece a língua portuguesa e a mentalidade angolana...
De facto, ainda não conheço estes valores da cultura angolana. Mas isto não é nada preocupante, porque o futebol é universal. Basta ter noções sobre a modalidade e saber transmiti-las correcta e convincentemente aos atletas. Fábio Capello é um italiano, mas alcançou grandes feitos em Inglaterra, onde o italiano não é a língua oficial. Mas como domina bem o mundo do futebol, e com a sua pedagogia, reconhecida por todos como eficaz, ei-lo a "sorrir" no país que não é dele.

"Conheço muito bem o CHAN"

À luz do que já disse até aqui, não há ilusões para sonhar com os títulos no CAN e no CHAN?
Estaria a mentir se dizer que não estou a sonhar com os títulos. Garanto que Angola vai entrar nas duas competições (CHAN’2011 e CAN´2012) com ambições bem determinadas. Vai preparar-se com afinco para participar nas já referidas provas com a intenção de ir muito longe. Aliás, as duas provas não são desconhecidas pela selecção angolana. Pessoalmente, posso adiantar que também conheço muito bem o CHAN e o CAN. O CHAN ajuda uma selecção a valorizar os seus "internos" e a ganhar maturidade suficiente para se posicionar nas grandes competições. No ano passado, com a Zâmbia, cheguei à final da prova e perdemos com a "forte" equipa da RDC. Deu para apreender um pouco mais sobre o futebol. A CAF teve uma ideia genial ao instituir esta competição, que deve ser valorizada e aproveitada pelos interessados. O sucesso nas grandes competições passa também pelo CHAN.

E  o CAN?
É mais competitivo e mais exigente, seguramente. É muito diferente do CHAN, mas os interesses e as ambições devem ser os mesmos. Como já referi atrás, é um certame muito difícil que todos pretendem vencer. Ora, Angola, mesmo tendo uma boa equipa, não tem o mesmo traquejo em relação, por exemplo, ao Ghana, aos Camarões, à Costa do Marfim, à Nigéria, etc. Só isso basta para entendermos as nossas dificuldades e as nossas possibilidades. Seja como for, a minha experiência pessoal nestas andanças poderão ajudar-me a triunfar, e é, exactamente, isto que espero conseguir em Angola.

Mas os adversários têm também as suas ambições...
Os projectos e as ambições dos adversários são deles. Também temos os nossos. Para já, no CHAN, falta-nos, apenas, uma barreira para atingirmos a fase final. Esta barreira chama-se Malawi, uma equipa que conheço muito bem, por ser um país vizinho à Zâmbia, onde vivi durante um certo tempo. É um adversário que está perfeitamente ao nosso alcance, mas não podemos menosprezá-lo, pois chegou a esta etapa por mérito próprio. Vê-se, claramente, que temos de ter muita cautela para não sermos surpreendidos. No CAN, também temos equipas equilibradas que merecem respeito. Apreciando bem o quadro, posso garantir que os nossos adversários estão perfeitamente, ao nosso alcance.

O facto de conhecer bem os adversários de Angola demonstra que o futebol africano está no sangue?
Seguramente. Tive no Ghana, na Zâmbia, e agora em Angola. É uma trajectória rica que me permite conhecer bem o futebol africano, que vai evoluindo cada dia que passa. É pena que muitos países do continente não têm estruturas...

"Girabola é uma prova competitiva"

O Campeonato Nacional de I Divisão foi também objecto de conversa com Hervé Renard. Como se sabe, os técnicos estrangeiros têm tido uma opinião própria sobre esta prova, que é a maior a nível do país. E o novo seleccionador também tem a sua visão.

Já tem alguma noção sobe o Girabola?
Estou aqui há bem pouco tempo, mas tenho arranjado sempre um espaço para assistir aos jogos do Girabola. Por três vezes, vi o Interclube a jogar e fiquei com boas impressões não só sobre este conjunto, que é, certamente, um grande candidato ao título, mas também sobre o campeonato em geral. Achei-o uma prova muito competitiva, na qual desfilam muitas “estrelas” que farão parte da selecção nacional. Enquanto ficar à frente da selecção, farei tudo para conseguir mais dados sobre o campeonato, pois dele depende a formação de um plantel coeso para o CHAN e para o CAN.

Há “valores excepcionais” para sublinhar?
Observo os jogadores do Girabola com muita atenção e interesse e vou descobrindo os valores. Falar de jogadores excepcionais neste preciso momento parece uma tarefa difícil, pois com o tempo poderei descobrir mais atletas que posteriormente poderão ser convocados. Jogadores de qualidade, certamente não faltam em Angola, pelo que a “porta” da selecção nunca estará fechada. Por isso, não poderei ceder a qualquer pressão.

E os mais novos?
A minha intenção não é só procurar títulos, pois o programa que trago tem também a ver com a “caça aos jovens talentosos”. Tenho de descobri-los para fundamentar o plano de formação que tenciono cumprir. Com os jogadores mais experientes e os mais novos, poderei formar uma boa equipa, pois condições não faltam. Aliás, quando mantive o primeiro contacto com os jovens, dei conta que os mesmos estão com muita vontade de demonstrar o que sabem. Estou satisfeito, ainda mais que a FAF me deu quase tudo para cumprir, com sucesso, o projecto que trago: temos bons campos de treinos e bons estádios para qualquer competição. Isto conta muito e motiva-me.

 "Preciso da colaboração de treinadores locais"

A selecção é, naturalmente, de todos, embora tenha apenas um seleccionador principal. Pelo que, neste sentido, há ainda muito que se fazer, no que toca à relação entre Hervé Renard e os técnicos locais.

Existe uma boa sintonia entre o seleccionador e os treinadores locais?
Antes de mais, gostaria de frisar que em qualquer país do mundo, quando se fala da selecção nacional fala-se de uma equipa que não é apenas do treinador ou do seleccionador principal. Mas é, isto sim, uma equipa de todos. E sendo de todos, necessita da colaboração positiva não de muitos, mas, sim, de todos. E quando o treinador é novo, e ainda mais um estrangeiro, precisa-se de mais ajuda e uma boa vontade dos treinadores locais, que devem fornecer dados, dialogar, e debater muitos outros temas para o bem da equipa nacional. Sem esta boa vontade dos "locais", dificilmente se pode ultrapassar alguns obstáculos.

Mas há bem pouco tempo convocou os técnicos locais e houve diálogo...
Ah!!! Ah!!! Sim, convoquei os treinadores locais e muitos não apareceram. Mas isto para mim não foi uma surpresa, pois muito antes de materializar esta ideia, já sabia que era impossível ver todos. O que até é normal. Muito normal. Felizmente, apareceram alguns nomes com muita experiência, pois são conhecedores do futebol em geral, e não apenas da realidade angolana. Fiquei muito contente por ter falado com Bernardino Pedroto, actualmente ao serviço do Petro de Luanda, que já ganhou títulos com ASA e com a sua equipa actual. Foi bom ter conversado longamente com ele, pois o diálogo mantido ajudou-me muito e a sua experiência vai me valer muito. Também gostei de abertura de Álvaro Magalhães, treinador do Interclube, um homem que jogou pela selecção portuguesa e por um grande clube, que é o Benfica de Lisboa. Por isso, considero-o também como um homem muito experiente. Também valeram muito os contactos com os técnicos do ASA, do Benfica de Luanda e do Académica do Soyo, que também demonstraram a sua boa vontade de colaborar, apoiando o seleccionador que chegou ao país há bem pouco tempo. Sinto a necessidade de continuar com iniciativas do género, e peço, encarecidamente, aos colegas para estarem abertos e para ter a boa vontade de apoiar a selecção, dispensando os jogadores quando é necessário e falar com o seleccionador, quando sentem algo importante para transmitir. A sintonia deve existir sempre entre nós.

Mas está tudo bem com a direcção da FAF?
Não tenho problemas com os dirigentes da FAF e com os meus colaboradores mais directos que fazem parte da equipa técnica. O ambiente é saudável e é propício para realizar um bom trabalho. E queria aproveitar para agradecer a postura da FAF, que é benéfica para o meu e nosso trabalho.