Jornal dos Desportos

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Reportagens

Hulk j no cobre o oramento

29 de Outubro, 2011

Oramento dos portistas entra na casa dos trs dgitos

Fotografia: AFP

Pela primeira vez na história, a SAD do FC Porto vai apresentar um orçamento que entra na casa dos três dígitos. É de milhões de euros que falamos, obviamente, e o número que a sociedade vai anunciar aos accionistas no próximo mês já não é coberto pela cláusula de rescisão de Hulk, isto para citarmos uma referência imediata. São 101 milhões previstos no campo da despesa, contrabalançados com uma expectativa de receita que garante lucro no exercício e que também antecipa um novo máximo. Angelino Ferreira, administrador da SAD, fez as contas com “O JOGO”. “O orçamento de custos previsto é de 101 milhões de euros. É um recorde, é superior ao da época passada. Mas isto é o orçamento, é uma projecção”, ressalvou, sem deixar de notar o salto face a 2010/11, quando a previsão se ficava por 94,7 milhões.

Extrapolando a questão dos números, aquilo que se traduz para o futebol é o reforço do investimento associado a todo o grupo FC Porto, mas que gravita, como é natural, em torno da equipa de futebol e dos seus resultados. Nesse sentido, foram sintomáticos os mais de 30 milhões de euros gastos no último mercado e que traduzem a intenção de sublinhar o domínio interno e a projecção europeia do clube. A administração dá grande enfoque a esse investimento e espera o devido retorno, o que está completamente replicado na projecção de 109 milhões em receitas, que depende de êxitos desportivos, de longevidade na Champions, de sucessos de bilheteira e, inapelavelmente, da venda de jogadores.

Importa notar, nesta parcela, que o FC Porto já tem um Falcao de avanço, porque as primeiras transferências do Atlético de Madrid vão entrar nas contas de 2011/12, assim como novas tranches dos negócios de Bruno Alves ou Raul Meireles, por exemplo. Nomes à parte, eis um orçamento que acentua a questão do rendimento desportivo e que eleva a fasquia face à temporada passada, indissociável dos três títulos internos e da conquista da Liga Europa, que vale mais pela valorização dos activos do que pelas receitas que gera. Vítor Pereira já não responde só perante a filosofia do clube, mas também perante os accionistas.

Cinco temporadas a fechar no verde

Não é por elevar a fasquia que o FC Porto se tem exposto a chumbos nas contas. Desde 2006/07 que a SAD apresenta lucro aos accionistas, o que voltou a suceder em 2010/11, com um saldo positivo de 534 mil euros no resultado consolidado, acima dos 83 mil euros do exercício anterior. Mais do que uma margem notável, conta a tradição que a administração quer prolongar. É aí que entra o encaixe de 109 milhões previstos. 534 mil euros de lucro não são projecções, são dados concretos e que dizem respeito ao exercício anterior. A SAD amealhou mais do que nunca (mais de 90 milhões, sem proveitos com passes de jogadores) mas também investiu forte (86,5 milhões).

17,5 milhões de euros pagos em prémios pelo rendimento e que significam mais de um terço dos 50 milhões que a SAD gastou com pessoal. São variáveis difíceis de prever, mas com impacto nas contas condizente com o que o colectivo conquista. A relação entre o que a SAD gasta com salários e os seus proveitos operacionais é de 56 por cento. A UEFA, à luz do controle financeiro, estabelece que essa percentagem não deve superar os 70 por cento. Há um ano, o FC Porto estava mais perto do limite (68 por cento). O valor do novo passivo é de 202 milhões de euros, que cresceu mais de 40 milhões. A SAD desdramatiza, alegando que aumentou a capacidade para o cobrir num espaço de tempo mais curto (2,06 anos). Acrescenta que parte da dívida à banca já foi abatida.

Fundo já ajudou a reaver
investimento de alguns


A SAD pretende encaixar um importante bolo com as vendas de cinco jogadores emprestados a clubes brasileiros, mas até agora já recuperou o investimento feito em três deles. Airton custou 3,2 milhões de euros e só com a venda de 40 por cento do passe ao Benfica Stars Fund, os encarnados realizaram... três milhões. Melhor ainda foi o caso de Alan Kardec: o ponta-de-lança custou 2,5 milhões de euros, e só com a venda de metade dos direitos económicos ao parceiro encarnado foram encaixados os mesmos três milhões de euros, mais 500 mil, portanto, do que o pago meses antes.

Semelhante é a situação de Felipe Menezes. Comprado ao Goiás por 1,2 milhões de euros, viu 30 por cento do seu passe alienado ao Benfica Stars Fund por 1,5 milhões. Hoje, o Benfica pretende ainda encaixar mais uma mão-cheia de milhões de euros, tendo depois, claro, de enviar a devida fatia ao fundo de jogadores.

Vieira quer ´
"jackpot" no Brasil

Um verdadeiro “jackpot” canarinho - esta é a ideia de Luís Filipe Vieira e seus pares para os cinco jogadores brasileiros emprestados a clubes da sua terra Natal. Ao que “O JOGO” apurou, Airton, Felipe Menezes, Fellipe Bastos, Éder Luís e Kardec já não voltam à Luz no final dos respectivos empréstimos e o destino já está traçado: venda, de preferência com lucro. Vieira espera receber 27 milhões de euros pela cedência definitiva destes jogadores. A confirmar-se a expectativa do mais alto dirigente do Benfica e retirando a fatia pertencente ao Benfica Stars Fund (ver caixa), 6,5 milhões de euros, entram nos cofres do clube 20,5 milhões de euros.

A linha traçada é simples e está inserida numa perspectiva financeira mais ampla. Em primeiro lugar, os responsáveis da sociedade anónima benfiquista querem aproveitar o bom momento da maioria destes jogadores - apenas Airton está por agora menos valorizado (ver peça à parte), e só Kardec (Santos) está afastado da luta pelo título - para se começarem a movimentar junto dos seus homólogos brasileiros e a negociar valores de possíveis compras. Por outro lado, a crise que neste momento afecta Portugal e a Europa não tem paralelo no Brasil, onde há muito capital para movimentar no futebol.

Mais, o Brasileirão termina no final deste ano e a nova época arranca em Janeiro, altura em que os clubes a que os jogadores estão emprestados têm interesse em anunciar estabilidade, garantindo estes activos a título definitivo (as cedências actualmente em vigor terminam em Junho de 2012, a meio da época, portanto). Além destes motivos, a SAD tem nestes jogadores o que economicamente se chama “dinheiro parado” e, vendendo-os, pode ganhar com alguma celeridade vários milhões de euros, aos quais pode dar diferentes fins: ou reinvestir na compra de outros jogadores considerados promissores ou ganhar alguma liquidez, evitando o recurso à banca, que neste momento tantos entraves levanta à concessão de empréstimos.

Certo é que Vieira tem bem definidos os valores que pretende encaixar com esta mão-cheia de jogadores e Jorge Jesus também já deu o seu aval técnico ao... não-regresso de qualquer um deles. Éder Luís, sabe “O JOGO”, é o jogador pelo qual a SAD mais espera encaixar, estando nesta altura cotado em qualquer coisa como sete a oito milhões de euros (ver quadro). Por Kardec, o emblema da Luz pede seis milhões de euros, ao passo que, no que toca a Felipe Menezes e Airton, as exigências rondam os cinco milhões.Fellipe Bastos tem de render quatro milhões de euros aos cofres da Luz e todos os processos vão começar a rolar. É preciso não esquecer, porém, que os valores aqui avançados se referem ao que a SAD benfiquista pretende encaixar num futuro próximo e não ao valor actual de mercado dos craques - esse, rondará os 15 a 18 milhões, entre os cinco atletas.