Jornal dos Desportos

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Reportagens

Independência nacional e as vitórias desportivas

09 de Novembro, 2009

Gustavo da Conceição ladeado por Job Capapinha

Fotografia: Jornal dos Desportos

Em 34 anos de liberdade do jugo colonial, Angola tornou-se numa “potência” desportiva, fruto dos esforços, abnegação, dedicação, coragem e tenacidade dos seus filhos que (muitos dos quais) haviam deixado os campos pelados e os pavilhões e juntaram-se àqueles que tinham a missão de erguer a bandeira nacional da Angola independente. Eram jovens angolanos que não olharam aos sacrifícios que se impunham para o alcance do maior desejo da nação e pegaram em armas para a luta de libertação da colonização. Entre os nomes de “jovens desportistas” citados pelo palestrante, Gustavo da Conceição, constam o do Presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos, do General António dos Santos França “Ndalu”, do General Mona, bem como do Ministro do Interior, Roberto Leal Monteiro “Ngongo”. Essa atitude, hoje “orgulha a família de todos” angolanos.
O sucesso é uma sina de Angola. Desde 11 de Novembro de 1975, data da sua independência, “estamos a 50 milhões de vezes mais avançado”, conforme Gustavo da Conceição. Para provar, “os recordes nacionais estão todos abatidos”, porque “os atletas passaram de dois a três treinos semanais a bi-diários; passamos de uma competição desportiva fechada (em função do boicote a que estava vetada Portugal) para uma competição africana”.
Essa conquista resultante da independência nacional constitui na “primeira grande vitória desportiva”. A sua manutenção requer que se tome medidas urgentes, sob pena de ver o ‘navio a afundar’. Gustavo da Conceição aponta: “Que melhoremos o desporto escolar, como uma questão de cidadania”.
O desporto escolar tem implicações em todos os segmentos da vida social. Gustavo enumera-os: “Devemos estar preocupados… porque o desporto escolar é uma garantia da independência no futuro; melhora o índice de analfabetismo; todos devem passar pela escola; queremos cidadãos ágeis, fisicamente fortes, equilibrados, capazes e inteligentes para sustentar as Forças Armadas” e o desporto de alto rendimento. Se não se fizer investimentos, “o futuro desportivo angolano pode estar comprometido”.
Uma das receitas de sucesso do desporto angolano sugerido pelo Gustavo da Conceição é a criação de academias desportivas, onde a criança encontra uma multiplicidade de desporto à sua escolha que possa adoptar mais tarde em consonância com o seu gosto e características.
“Nem sempre se faz tudo ou nem se faz tudo bem”. As palavras são do Gustavo da Conceição. Ao longo dos 34 anos de existência de Angola independente, o Governo teve de investir na formação de treinadores e de professores de Educação Física no exterior do país, porque “se recebeu (professores de Educação Física e de treinadores) com pouca capacidade científica” a 11 de Novembro de 1975.
Com a existência do Instituto Normal de Educação Física (INEF), muitos treinadores de nível médio foram formados naquela instituição e são os responsáveis pela ascensão do desporto angolano. Se hoje, se sintam vaidosos no continente africano, nas modalidades de basquetebol (sénior masculino) e andebol (feminino), é porque houve jovens dedicados à prática desportiva formados no INEF.
No entanto, “a perda do INEF foi fundamental para a derrota do nosso desporto”. Gustavo explica: “A formação de jovens universitários precisa de uma base que se circunscreve na formação média e básica. A formação não-curricular é essencial no desporto; é preciso encorajar o ensino à distância, bem como arranjar outras sinergias para se encontrar soluções aos problemas de formação dos nossos técnicos”.
Ante as dificuldades por que se vive o desporto angolano, “estão de parabéns os jovens que colocam (bem alto) o nome de Angola em África”.
A organização do desporto angolano também mereceu reflexão de Gustavo da Conceição.
O dirigente afirmou que “o crescimento não é uniforme, porque há modalidades (como canoagem, vela) que não têm associações”. Na visão de Gustavo da Conceição, a estrutura actual da organização do desporto nacional (parece) não responde(r) às necessidades. E justifica: “Uma instituição de Educação Física e de Desporto teria mais competência para responder as necessidades actuais”. Se se mantiver a estrutura actual, as ‘rixas’ vão continuar, “pois há incompatibilidade entre a juventude e o Desporto” e “o desporto escolar é esquecido”.

"O desporto contribuiu
para a vitória diplomática"

Com a proclamação da independência nacional, a mesa estava vazia. Não havia documento algum que regulasse a actividade desportiva em Angola. Para colmatar a situação, houve um encontro que ajudou na criação de alguns instrumentos jurídicos.
Passados 34 anos, desde 11 de Novembro de 1975, Angola ainda se debate com problemas de legislação desportiva, apesar de alguns vão merecer a atenção das entidades competentes nos próximos tempos. Há uma preocupação do Estado angolano em criar instrumentos jurídicos que regule a actividade desportiva. No II Conselho Superior do Desporto realizado na cidade do Huambo, no ano corrente, foi dado a conhecer os cinco diplomas que o Governo angolano pode aprovar nos próximos tempos e que vão enriquecer o regime jurídico do sistema desportivo.
Para Gustavo da Conceição, “a liberação da prática desportiva é uma solução para o crescimento que se pretende, sem a qual pode pôr em causa os 34 anos de vitórias desportivas”.
A visão de Gustavo da Conceição suscitou questionamento de outras pessoas que afirmaram: “Só é possível a liberação da prática desportiva se o regime jurídico do sistema desportivo oferecer garantia a todos os agentes”.
Essa garantia estende-se aos empresários, principais agentes de uma economia liberal. Esse grupo de homens é atraído pelo desporto desde que a compensação satisfaça o investimento. E a lei de Mecenato, a que mais solicitam, já está feita, mas por questões “políticas estratégicas” não pode ser aprovada no contexto actual.
Aqui, “a liberação da prática desportiva” proposto por Gustavo da Conceição “vai ter de esperar o tempo necessário até que haja o equilíbrio”.
O equilíbrio não existe nas categorias profissionais do desporto angolano. Gustavo da Conceição afirma que “alguns atletas e treinadores angolanos assumem-se como profissionais, mas os dirigentes desportivos não são”.
Essa desigualdade justifica “a falta de regras no desporto nacional, quanto aos (ditos) representantes dos atletas”. Sobre o último, Gustavo é peremptório: “Se não há uma legislação (desportiva) que configure o representante de atletas profissionais nas discussões com os clubes”, não é lícito o exercício dessa actividade. Só o é desde que o atleta obedeça a Lei Geral do Trabalho e o pagamento dos impostos deve constituir numa obrigação de todos que assim procedem.
A plateia sugeriu que se devem adoptar outras medidas que visem salvaguardar os interesses futuros dos praticantes desportivos, como a sua inscrição na Segurança Social. Ante a presença dos profissionais do desporto angolano e o seu silêncio, Gustavo da Conceição aguça que “há fuga ao fisco, porque não se garante o futuro após a carreira”. Perante essa atitude, “há um pseudo-profissionalismo”.
A convivência ‘oposta’ entre o atleta e o dirigente facilita o surgimento de “vacaturas” nas estratégias dos clubes que se repercute na actividade desportiva. Para colmatar a situação, Gustavo da Conceição aconselha: “Temos de encarar o profissionalismo sem complexo e garantir a todos o seu crescimento”.
O presidente do Comité Olímpico Angolano enaltece que “o desporto contribuiu para a vitória diplomática ao longo dos 34 anos da independência nacional e hoje o país está a dar uma grande virada e esperamos que o desporto acompanhe esse movimento”.
Após a independência nacional, em cada cidade capital da província havia uma piscina para a prática de natação. Hoje, a realidade é diferente. Não existem mais. Para inverter o quadro e em função do nível de desenvolvimento de cada província, o Governo angolano está a construir infra-estruturas desportivas que orgulham o país.
Para Gustavo da Conceição, “sem universidades e escolas de formação não se vão resolver o problema do homem; continuam a faltar infra-estruturas e equipamentos (específicos) que facilitem o melhoramento da performance desportivo” em Angola.
Outro sector associado a performance do atleta é o da indústria. Gustavo da Conceição chama a atenção de todos: “Nenhum desporto é sustentado pela importação; se quisermos um desenvolvimento sustentável desportivo, temos de voltar a apostar na indústria desportiva. No passado, houve indústria desportiva, mas a guerra a destruiu”.
O projecto de colocar Angola como potência desportiva em África merece investimentos a todos os níveis. E Gustavo da Conceição deixa o conselho: “nenhum projecto de desenvolvimento desportivo é sustentado e vive pela importação como o nosso”. Aos empresários, o repto está lançado. É mais um segmento de mercado que dá lucros avultados.
O Movimento Nacional Espontâneo juntou antigos e novos desportistas, dirigentes de diferentes associações e outros especialistas para reflectir sobre a “Independência Nacional e as vitórias desportistas”, em alusão ao 34º aniversário da Independência Nacional.
Entre muitos contributos, registou-se que “os melhores resultados desportivos de Angola foram conquistados por técnicos angolanos; as selecções feminina de andebol e a última de sénior masculino de basquetebol, campeões africanos, foram constituídas por jovens nascidos na Angola independente”. São feitos que regozijam qualquer cidadão angolano e vale a pena honrar a memória daqueles que trocaram os campos e pavilhões e juntaram-se a outros que lutaram nas matas para a liberdade do país.