Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Reportagens

JD completa hoje 20 anos

Matias Adriano - 31 de Janeiro, 2014

Foi a 31 de Janeiro de 1994 que nos fizemos à estrada

Fotografia: Domingos Cadência

O curso do tempo é inquestionável. Parece ter sido ontem aquele dia de emoções, em que na Edições Novembro choviam mensagens de felicitações de sectores identificados com a política desportiva, pelo surgimento do novo produto editorial especializado em desporto. A verdade é que já passam 20 anos, bem contados até ao dia de hoje.  No dia 31 de Janeiro de 1994 fizemo-nos à estrada, dando corpo a um projecto arrojado, mas abraçado com firmeza e determinação. A Edições Novembro dava assim um passo de gigante depois do célebre “Suplemento Desportivo” e do “Destacável Desporto”. Era um desafio a que meia dúzia de profissionais desta casa se propunha.

O mercado de leitura festejou o lançamento do Jornal dos Desportos, porque a evolução do próprio desporto no país já impunha uma cobertura mais actuante, mais dinâmica, mais profissionalizada. Mas o leitor estava longe de imaginar em que condições era produzido o jornal à primeira hora. Na improvisada redacção, que ficava num corredor para quem vai ao finado “Correio da Semana”, havia apenas três bancas e cinco máquinas dactilográficas, onde ficávamos todos afunilados.

Da nossa parte, entretanto, morava a vontade de continuar o desafio, movidos pelo sentimento de que o futuro é sempre melhor em relação ao presente. Por outro, saindo o jornal apenas uma vez por semana (à segunda-feira) havia espaço de manobra para, por exemplo, dois jornalistas partilharem a mesma Gotemberg.

Ainda em formato standard, com 12 páginas, a saída do jornal era uma certeza todas as semanas. Capitaneados por A. Ferreira, nas vestes de chefe de redacção, tínhamos a reunião de pauta à terça-feira de manhã para a definição de estratégias editoriais para a edição seguinte. Era um briefing bastante salutar, onde cada participante tinha de contribuir com ideias válidas sobre os temas a abordar.

Grande era o nosso entusiasmo. Pois, muitas vezes fechámos os olhos às dificuldades do dia-a-dia, para honrar o compromisso que tínhamos assumido. Muitos colegas da primeira hora devem estar recordados de que o nosso primeiro carro de reportagem era um Hyundai Excel de cor vermelha, que era uma espécie de “pau para toda a obra”.

Esta viatura era partilhada pelo próprio chefe de redacção e por Gabriel Senga, que ainda anda aí firme. Levava os repórteres às actividades jornalísticas, distribuía alguns às suas respectivas casas e assistia, de quando em vez, a actividades pessoais do chefe de redacção. Mas todos nós tínhamos fé num futuro melhor. Estávamos certos que o começo de qualquer projecto exige sempre algum sacrifício aos seus criadores.

Novos rumos
do jornal

 Em 1995, em vésperas do CAN da África do Sul, foi ensaiado o modelo bi-semanário, passando o jornal a ser publicado à sexta e à segunda-feira, sendo que uma edição se encarregava da previsão do que devia ocorrer ao fim-de-semana e outra ao rescaldo das actividades.

De facto, era uma outra etapa do nosso desafio e mais uma vez se impunha o reforço de pessoal. Nessa fase, já reforçados com o veterano Gil Tomás, recebíamos outros jovens que foram entrando por fases, mas com curtos intervalos, por sinal todos com uma excelente vocação para o oficio, saídos do curso médio de jornalismo no IMEL. Refira-se particularmente Josefa Tomás, Honorato Silva e Mário Eugénio.

O nosso grupo começou a ganhar maior solidez. Pois, já fazíamos um número que permitia uma distribuição de homens para todas as actividades da agenda de trabalho.

Até 1999, o jornal tinha conquistado espaço e podia-se considerar um projecto firme, com os pés assentes no chão. Daí a empresa ter apostado na alteração do seu projecto gráfico várias vezes, para lhe conferir uma roupagem mais atractiva, mais arejada. Outros investimentos em meios de trabalho também foram sendo feitos, quer na anterior gestão quer na actual.
 
Movimentação
de quadros

 Na vida profissional há sempre situações que obrigam os quadros a mudar de ares. O Jornal dos Desportos não escapou a esta febre ao longo destes anos. Muitos dos seus quadros saíram para outros desafios, tendo a situação causado algum desfalque, mas bem colmatado por profissionais da nova vaga que foram batendo à sua porta.

No movimento de saídas, Salas Neto veio a ser o primeiro a saltar do barco. Depois a saída de Honorato Silva, do próprio A. Ferreira, do Matias Adriano, do Beu Pombal e do Vivaldo Eduardo. Todos estes, à excepção do primeiro, mudaram-se para o outro título (o “Jornal de Angola”). Mas não ruíram as fundações do JD.
 
O desafio
mais difícil

O actual presidente do Conselho de Administração da Edições Novembro, sete meses depois de ter assumido a liderança da empresa, e com base na avaliação que fez às condições técnicas e aos recursos humanos existentes, ensaiava o “projecto diário”, naquilo que nos pareceu ser o “último desafio do século”.

A data era Junho de 2007, o país esmerava-se na organização do Campeonato Africano de Basquetebol. Para nós, o desafio estava lançado. A 15 de Agosto, quando a bola foi ao ar, começava a nova etapa desta publicação. À partida, muitos colocaram reticências quanto à possibilidade do projecto vingar. O que é certo é que já vamos a caminho de sete anos.

Claro está que não se trata de uma empreitada fácil. Mas, quando a força, a determinação e o profissionalismo se fazem presentes, não há dificuldades que não sejam ultrapassadas, não há dificuldades que não sejam traduzidas em facilidades.

Chegados a esta idade, só nos resta agradecer a todos quantos nos lêem e a todos os agentes desportivos que não deixam de ser nossos parceiros, já que sem eles, sem a sua colaboração estávamos certamente fadados a uma informação com fontes limitadas, por via disso prenhe de inverdades, o que é um belisco à ética e à deontologia. Estamos juntos...


REFORÇOS
A nossa equipa inicial


A criação do Jornal dos Desportos determinou a fusão das equipas de produção de conteúdos desportivos na Edições Novembro. Ou seja, os mesmos dez jornalistas produziam o Jornal dos Desportos e cuidavam da página desportiva do “Jornal de Angola”, sendo que ao título generalista cabiam apenas os resumos noticiosos, reservando as entrevistas, reportagens e comentários para o título especializado.

O começo, realmente, não foi fácil. Gostávamos de partir para esta empreitada pelo menos com uma equipa de 11, a exemplo dos próprios plantéis de futebol e os respectivos suplentes. Mas éramos apenas dez: A. Ferreira, Fontes Pereira, Salas Neto, Policarpo da Rosa, António Félix, João Francisco, Amândio Clemente, Fernando Cunha, Beu Pombal e Matias Adriano.

Porém, animados pela frescura da idade, conseguíamos dar conta do recado sem recurso a muita “engenharia”. Escrever para o Jornal dos Desportos e resumir as matérias para o “Jornal de Angola”. Este critério teve pouca duração por razões que não cabem aqui. No fim do campeonato do mundo de futebol de 1994, em que foram enviados especiais A. Ferreira e o autor destas linhas, a direcção-geral da empresa achou por bem separar as equipas de trabalho.

Esta alteração veio a constituir um rude golpe para as aspirações do JD. Pois, dos dez profissionais que éramos, ficámos reduzidos a sete. No quadro desta medida, Policarpo da Rosa era indicado editor do desporto para o “Jornal de Angola”, levando consigo os jornalistas Amândio Clemente e Fernando Cunha. Assim, houve daí necessidade de reforçar o corpo redactorial. Num mercado com alguma escassez de penas, no que diz respeito à crítica desportiva, a estratégia foi investir naqueles que preenchiam na altura o nosso quadro de colaboradores permanentes. Assim, jovens como Pedro Augusto, António Júnior e Ricardo Malungo passavam para o quadro efectivo. Talvez tenha começado aí o tal espírito de concorrência desleal de que hoje ouvimos amiúde entre títulos da mesma casa. Pois, Guimarães Silva e Caetano Júnior que vinham como novos reforços acabavam cooptados para o “Jornal de Angola”.