Jornal dos Desportos

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Reportagens

"Judo angolano está em risco"

Valódia Kambata - 24 de Abril, 2010

Direcção da Banca encerrou a modalidade

Fotografia: Jornal dos Desportos

Como caracteriza o actual estado do judo em Angola?
Neste momento, o judo está a atravessar um período muito triste da sua história. A modalidade tem no país uma única academia, a da Terra Nova, onde todos os clubes de Luanda treinam. É um espaço com falta de meios para se fazer um bom treinamento desportivo. O judo angolano está em risco de desaparecer e, se não se tomarem medidas pertinentes, vai morrer diante de todos.

Que razões justificam a existência de uma só academia de judo em Luanda?
Infelizmente, é a realidade. Só existe uma academia para a prática de judo em Luanda, com a qual todos os clubes assinaram contrato para salvaguardar a modalidade.

Quais são os clubes que treinam na Terra Nova?
O Interclube, a equipa do Rangel, a Selecção Nacional, entre outros.

Que medidas se devem tomar para solucionar a situação?
Para se tirar o judo da situação em que se encontra, é necessário mudar-se o actual elenco da Federação Angolana de Judo, visto que o mesmo não está a dar conta da situação. Às vezes, parece-me que não estão interessados no judo.

O que a Federação deveria fazer?
Podia fazer muito mais para salvaguardar este desporto, por exemplo, procurar patrocinadores para que haja mais competições. Hoje, temos poucos combates no país.

Creio que os atletas conversam nas ruas e noutros lugares sobre a situação. Qual é a solução imediata?
Para os atletas, a solução imediata é que o actual elenco directivo da Federação Angolana deixe o judo para as pessoas interessadas no seu desenvolvimento.

Nota-se a redução de equipas no país?
Sim. Hoje, existem poucas equipas. Tanto que todas treinam num único ginásio. Se houvesse mais equipas, também haveria mais lugares para treinarem, mas como a Federação não se preocupa com a modalidade, pouco se importa se há ginásios ou não no país.

Quanto a campeonatos. Têm participado regularmente?
Não. Existe pouca competição entre os clubes, concomitantemente, entre os atletas. Sou da categoria de pesos-pesados e não tenho competição, porque não há atletas. Os poucos que havia, foram-se embora. Existe um grupo pequeno que nem a nível interno tem competição no país. A Federação Angolana de Judo não faz nada para competirmos. Durante muito tempo, demos medalhas ao país nas competições africanas, mas somos desvalorizados. Temos vontade de continuar a trazer medalhas ao país, mas não merecemos a devida atenção.

Quantos atletas de peso-pesados existem no país?
Somos aproximadamente 10.

Com dez atletas não se pode realizar um campeonato para manter o nível competitivo de cada um ou fazerem a rodagem?
A Federação Angolana de Judo não se preocupa com isso. Se, para a realização de uma competição normal, tem dificuldades, imagine para os peso-pesados! A Federação não está a fazer nada e nem sequer consegue organizar vários campeonatos. Isso é extremamente negativo para a modalidade. A título de exemplo, realizou-se recentemente o Campeonato Nacional, na cidade do Lubango, onde muitos atletas passaram dias com fome. Os masculinos e os femininos estiverem nos mesmos aposentos, faltou transporte, alimentação e outras situações menos boas. É inaceitável tal situação.

"Direcção da Banca nunca soube respeitar"

Porque deixou o clube da Banca?
Sempre fomos da Banca, desde a nossa infância e crescemos naquele ambiente. Infelizmente, a direcção do clube da Banca nunca soube respeitar isso, prefere dar mais valor às outras modalidades do que o judo, quando sempre foi a modalidade que levantou o nome do clube. O principal motivo é a falta de pagamento dos salários em atraso e dos prémios.

Não tentaram negociar com o clube?
Tentámos conversar, mas a direcção não aceitou. Muitos atletas partiram em busca de novos clubes e só mais tarde é que tentaram conversar connosco. Infelizmente, não foi possível. Decidiram encerrar o judo.

Recentemente, aceitou o convite do Sagrada Esperança. Que dividendos retirou ou pretende retirar dessa experiência?
Faço competição há muitos anos, mas será a primeira vez que vou representar essa formação. Esta situação vai permitir-me lutar e vou procurar ganhar campeonatos, caso existam. Trabalho todos os dias e não faz sentido não ter competição. Os dividendos maiores são poucos, já que o profissionalismo é inexistente, mas a grande vantagem é trabalhar com grandes homens, como o Mestre Sousa, que contribui para a evolução do judo.

"Seleccionador
não tem capacidade"

Existem rumores que os atletas são contra a nomeação do novo seleccionador nacional. Até que ponto isso é verdade?
Não são os atletas que estão contra o novo treinador da Selecção Nacional. É o treinador que quase não tem feito nada para merecer tal posto. É um indivíduo que não conhece os atletas, quer levar os da sua conveniência pessoal e não os que realmente merecem integrar na Selecção Nacional.

Integrou várias selecções nacionais e conhece a capacidade dos técnicos que o orientaram em vários torneios. O actual técnico não está capacitado para dirigir a Selecção Nacional?
Por aquilo que vejo, quer no plano de treinamento, quer noutros aspectos, o treinador Matos Cardoso não está capacitado para orientar a Selecção Nacional e não sabe manter uma boa relação com os atletas. Depois dos Jogos da Lusofonia, num almoço realizado em Luanda, o treinador foi questionado sobre o assédio sexual a uma atleta. Isso mancha qualquer indivíduo e a Federação deveria abrir um inquérito para se averiguar a situação. Um treinador com historial de assédio sexual deve ser afastado.

A Federação sabe da situação?
Claro que sabe. O presidente da Federação Angolana de Judo, Quintino Cabral, reuniu o professor Matos com a atleta para abordarem o caso. Tomámos conhecimento e ficámos tristes com a situação. Mais tristes ainda por a Federação não ter tomado nenhuma decisão e manteve-o no cargo. A atleta está prejudicada por não poder representar mais a Selecção Nacional e temer represálias do treinador.

Quem deveria orientar a Selecção Nacional?
O Mestre Sousa, por ser o melhor treinador do país. Uma boa parte dos grandes atletas angolanos foram formados por ele, tem muita experiência, é campeão africano há muito tempo. Nas competições internacionais, sempre fez bons resultados. O facto de não haver boas relações pessoais entre o presidente da Federação Angolana de Judo e o Mestre Sousa levou este a nomear o Matos Cardoso como seleccionador nacional de judo, mesmo sabendo que não reúne o consenso. 

O consenso a que se refere, espelha o regresso do Mestre Sousa à Selecção Nacional?
Quase todos os atletas e outros treinadores querem o Mestre Sousa na Selecção Nacional. Só para situar, a relação entre a Federação Angolana de Judo e as associações não é a melhor. A título de exemplo, a selecção nacional vai participar no Campeonato Africano, mas os responsáveis da Associação de Luanda não sabem de nada sobre a selecção. Não existe relação institucional entre a Associação Provincial de Luanda e a Federação Angolana de Judo. Isso é mau para o desenvolvimento do judo. 

Falta de coerência dos dirigentes
provoca abandono do atletas

Porque muitos atletas estão a deixar o judo?
Garanto-lhe que tínhamos uma das equipas mais promissoras do judo em África, constituído por Higino Marques, nos 60 kg, José Rodrigues, nos 66 kg, Jojó, nos 81 kg, Patrick Lucoke, 90kg, e Dani Silva, nos mais de 100 kg. Desse grupo, apenas um continua no activo: Dani Silva, eu. Os restantes abandonaram por falta de atenção dos responsáveis da Federação e falta de competição.

Quando começou a fuga?
Desde que o actual elenco tomou conta da direcção da Federação de Judo, muitos atletas abandonam a modalidade por não haver uma política coerente ligada à formação. Existem muitas competições entre os juvenis e juniores, mas para os seniores, muitos dos quais em fim de carreira desportiva, não há competição. Isso reflecte a falta de interesse do presidente da Federação Angolana de Judo. 

Será que existe falta de incentivo à modalidade?
Claro. Estou há muito tempo no judo, há aproximadamente 18 anos, e nunca recebi qualquer incentivo da Federação. As únicas coisas de que me lembro, são os prémios pela conquista de medalhas. Nunca recebi nada da Federação. Hoje, se olhar para os atletas que conquistaram várias medalhas, estão todos na miséria. Isso é inaceitável. As pessoas lutam pelo país o no fim das contas não são tidos nem achados. A nível de África, somos temidos, mas quando se apercebem que ganhamos medalhas, ficam assustados.

Confirma que o treinador disse não contar convosco na Selecção Nacional?
Sim. Disse a mim e a mais alguns atletas. E cito: "enquanto for o responsável da selecção nacional, nunca sereis seleccionados".
Porquê?
Pelo simples facto de termos dado uma opinião contrária à dele sobre o plano de trabalho. Isso foi o principal motivo. Neste momento, na minha categoria, sou o melhor atleta a julgar pelos resultados, mas preferiu levar um atleta à selecção sem experiência competitiva. Sempre que tive a oportunidade de representar o país, conquistei medalhas.

Tem algum plano para abandonar a modalidade?
Não. Vou continuar a trabalhar no meu clube, o Sagrada Esperança.