Jornal dos Desportos

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Reportagens

Judo mendiga em Luanda

Rosa Napoleã - 22 de Julho, 2012

A província de Luanda possui um número elevado de escolas de judo

Fotografia: Jornal dos Desportos

A situação preocupa o técnico da agremiação, Edivaldo Patrício. Face à situação, se vê de mãos atadas e lamenta por testemunhar a desistência de muitos atletas por conta das condições precárias. Do seu íntimo soltam lamentações: “Será que as instituições de direito não sabem das preocupações e das necessidades que os clubes de judo de Luanda enfrentam? Ou simplesmente se negam a atentar a estes factos?” A província de Luanda possui um número elevado de escolas de judo, dentre os mais conhecidos e reconhecidos pela Associação provincial de Judo constam o Inter de Angola, Clube Desportivo da Banca, Terra Nova, Rangel, Marçal, Kilamba Kiaxi, Pacífico, Uragan, Hoji ya Henda, Cazenga, Kodokan entre outras. A maior parte queixa-se de falta de recintos para a prática da modalidade.

Mestre Edi, como é conhecido nas lides desportivas, disse que “as condições de trabalho são precárias e se as equipas prevalecem até ao momento é por amor à camisola”. “O estado da escola de judo do Marçal é tão precária como na maioria dos clubes. Actualmente, em Luanda, só existem duas academias que possuem alguma condição de trabalho. Trata-se do Clube Desportivo da Banca e da Terra Nova”, citou. A confirmação vem da Terra Nova. O treinador Carlos Correia revela as razões de sucesso nas competições nacionais. “Na província de Luanda somente a nossa escola e a Banca possuem alguma condição de trabalho. Os outros clubes trabalham em situações muito precárias”, confirmou.

Sem um espaço próprio para levar avante a formação e o treinamento de atletas de alta competição, a situação da Escola de Judo do Marçal torna-se mais “difícil”, porque os treinadores não têm salários e retiram do seu bolso o pouco que existe para levar avante a equipa. Os gestores do Clube Desportivo da Terra Nova também estão preocupados por não dispor de um espaço próprio e a escassez de equipamentos adequados. O técnico Carlos Correia afirmou que o recinto de treinos está em obras de restauração por recomendação do proprietário do espaço, o que forçou a paralisação dos trabalhos.

“Trabalhamos no ginásio da antiga Escola da Jota há mais de oito anos, através de um contrato de arrendamento feito com a direcção daquela instituição. Pagamos um valor com alguma dificuldade, porque não recebemos ajuda alguma; não temos salários, mas cumprimos a nossa obrigação. O dinheiro que arrecadamos das quotas dos atletas serve para o pagamento do recinto”, esclareceu. O técnico da Escola do Marçal Edivaldo Patrício defende a classe. “Fazemos isso, porque amamos o judo e não queremos deixar morrer os sonhos de jovens que procuram elevar a bandeira nacional nas competições internacionais”, disse o treinador.

Enquanto as obras de restauração no único espaço de treinamento da Terra Nova não terminem, os atletas e os treinadores “gozam” férias. A previsão de regresso aos dojos está agendada para os primeiros dias de Agosto. Com a reabilitação do espaço, o treinador do Clube da Terra Nova teme pelo valor a ser cobrado. As condições estão a ser aperfeiçoadas, o que pode repercutir-se no contrato assinado. “Estou receoso. Creio que vão cobrar-nos mais do que temos pago por causa das reformas. Vamos torcer para que tudo se mantém”, disse. Se já é difícil pagar o preço actual, Carlos Correia disse que não imagina com a renda aumentada. “Teremos de abandonar o local”, setenciou. O judo faz-se representar nos Jogos Olímpicos de Londres’2012, através de Maria de Fátima António. “Acreditamos que se houvesse mais apoios ao judo, muitas outras Faias existiriam no país”, disse técnico do Marçal.


EDIVALDO PATRÍCIO
“Não temos ajudas da federação”


A Federação Angolana de Judo tem conhecimento das inúmeras dificuldades que os clubes de Luanda enfrentam para manter a modalidade activa, mas segundo Edivaldo Patrício, pouco ou nada fazem para reverter essa situação. “A Federação Angolana não está aquém daquilo que acontece nas escolas de judo de Luanda. Não sei se recebem verbas para manutenção dos clubes. Acredito que não, porque nada recebemos. Os clubes sobrevivem sozinhos e como podem”, disse. Para o treinador, “se houvesse mais ajuda no que toca a locais de competição e materiais de treinamento, haveria um judo mais competitivo no país que proporcionaria o surgimento de muitos atletas como a Faia em representação do país nas competições internacionais”.

Entre muitas dificuldades, o Mestre Edi exemplificou que muitas vezes é necessário fazer exercícios de musculação, mas fica “difícil”, porque a escola não possui equipamentos de culturismo. A Terra Nova tem outra versão. A sorte acompanha-os. Se no Marçal, as lonas substituem os tatames, no clube de Carlos Correia é diferente. Os poucos tatames existentes já ostentam alguns anos e pertencem à Federação Angolana de Judo. “O clube Terra Nova não possui tatames próprios. Trabalhamos nos tatames disponibilizados pela federação, o que de facto ameniza as nossas necessidade neste âmbito”, disse.
ROSA NAPOLEÃO


LAMENTAÇÕES
A adesão parelha com abandono


Apesar de condições precárias e da recusa de encarregados de educação, o Clube de Judo do Marçal não tem problemas quanto à adesão de jovens. Tem outras motivações que levam à desistência. “Existe um grande movimento de massificação do judo aqui no Marçal. Temos um número considerável de atletas a volta de quarenta praticantes, o que é razoável”, estimou. Os atletas estão divididos em escalões de juvenis (que engloba crianças dos 11 aos 15 anos), juvenis esperança (16 aos 17 anos), juniores (18 aos 19 anos) e seniores.

O técnico principal, Mestre Edi, revelou que poucos praticantes permanecem no clube. “O grande problema é que a motivação que os leva a entrar na modalidade morre mais tarde pelo facto de não encontrarem sustentação das motivações ou condições desejadas”, disse.  O treinador explicou as razões que levam os poucos atletas permanecerem firmes: “Somente aqueles que amam de facto o judo e fazem-no por amor à camisola”.
ROSA NAPOLEÃO

EQUIPAMENTOS CLUBE DO MARÇAL
Lonas substituem tatames


Os tatames, que constituem o equipamento mais utilizado no judo, são também motivos de preocupação no Clube do Marçal. Neste momento, o recinto de treinos possui apenas uma cobertura de lona improvisada. O Mestre Edivaldo disse que está preocupado pelo facto da situação vigente venha a prejudicar a saúde física e mental dos atletas. “A escola não possui tapetes; treinamos por cima das lonas sem o sistema de amortecimento que protege os atletas na hora da queda”, disse. A táctica do judo exige o arremesso dos corpos ao chão, “por isso os treinos são efectuados de maneira cuidadosa para não haver acidentes que possam lesionar os atletas”.

O técnico revelou também que muitos encarregados de educação são movidos pelo estado precário das instalações e não permitem que os seus filhos pratiquem a modalidade. ”Já recebi vários encarregados de educação acompanhados de crianças, que pretendem entrar no judo, mas ao tomarem contacto com local de treinamento negaram a inclusão dos petizes nas aulas de formação por causa do estado do recinto”, disse. O sonho fica engavetado até as outras gerações. As crianças talentosas de hoje são impedidas de perseguir o sonho por causa da degradação do estado do imóvel.

O Clube de Judo da Terra Nova também apresenta os mesmos problemas. Actualmente, o grupo está parado, porque o ginásio está a beneficiar de obras de reabilitação. Tal como o técnico do Marçal, o da Terra Nova teme pela segurança dos praticantes. “A nossa modalidade exige sempre o arremesso dos corpos ao chão e se não encontrar um bom tapete, pode lesionar facilmente os atletas”.

TATAMES
OBEDECEM AS REGRAS  

Os impactos gerados por colisões entre corpos são muito frequentes no judo. Nisso, os tatames devem ser adequados, porque todas as projecções efectuadas resultam, inevitavelmente, em quedas. Geralmente se recomenda que se aumente a área de aplicação da força de impacto, o tempo de absorção e a utilização de batida da mão contra a área da queda (processo impulso-reactivo).Ainda que seja imprescindível para a prática desta modalidade, um material que reduza os efeitos adversos das colisões, não são conhecidos estudos que descrevem as características mecânicas dos tatames, tais como, coeficiente de restituição e dissipação de energia, entre outros. Deste modo, tendo em vista a carência de estudos sobre esta modalidade, principalmente, com relação ao material utilizado.


PRÁTICA
As técnicas
são universais


Na listagem dos materiais de treinamento de judo encontramos os tatames que são os vulgarmente conhecidos como tapetes, os quimones, elásticos com duas pegas, mangas, fita adesiva, protecção de orelhas, medidor sokuteiki, saco desportivo, joelheira e caneleiras. Quanto às técnicas, a modalidade envolve uma série. Os katas e os kumites são as demonstrações das técnicas sem adversário e que demandam uma técnica apuradíssima, sendo exigidos apenas de faixas-pretas. Estes dois tipos de técnicas são frequentes no judo nacional. Encontramos ainda o Nage-Waza (técnica de arremesso), Tachi-waza (técnica de pé), Te-Waza (técnicas de braços), Koshi-Waza (técnicas de quadril), Ashi-Waza (técnicas de perna), Sutemi-Waza (técnicas de sacrifício), Mae-sutemi-Waza (técnicas de sacrifício para frente), Yoko-sutemi-Waza (técnicas de sacrifício para o lado), Katame-Waza (técnicas de domínio no solo), Ossaekomi-Waza ou Ossae-Waza (técnicas de imobilização), Shime-Waza (técnicas de estrangulamento) e Kansetsu-Waza (técnicas de luxação).
ROSA NAPOLEÃO


APOIO À MODALIDADE
“É difícil conseguir patrocinadores”


“Hoje, conseguir alguém ou determinada empresa que se disponibiliza para ajudar financeiramente as equipas de judo está cada vez mais difícil”. Estas são palavras do técnico do Marçal, Edivaldo Patrício. Para o treinador, o judo nacional não alicia os patrocinadores. Sempre que uma empresa ou entidade são solicitadas para ajudar numa actividade que se pretende realizar, simplesmente, negam. “O nosso nível competitivo ainda está baixo. Por isso, não desperta o interesse dos patrocinadores que também procuram algum dividendo desse acordo”, reconheceu o treinador. No Clube de Judo Marçal, só um atleta dispõe de patrocinador. Trata-se do atleta Nair Garcia, que possui um “patrocinador pessoal que o ajuda nas suas necessidades competitivas”.

Se na Terra Nova as condições de treinamento não são as grandes preocupações, Carlos Correia revela as inquietações. “O que mais me preocupa é a falta de apoios e de patrocinadores para levar avante os nossos projectos de competições internos como a Taça da Liga que tem sido custeada pelo nosso clube”. O técnico da Escola de Judo do Marçal revelou que nos mandatos anteriores ao actual da Federação Angolana de Judo, “se via mais competições”. “Hoje, já não se nota isso. Os atletas têm de esperar pelos campeonatos provinciais e nacionais que se realizam uma vez por época. É muito pouco”, disse.
ROSA NAPOLEÃO


NIVEL COMPETITIVO
Taça da Liga agita atletas


Se a realidade dos clubes espalhados pelo país é desoladora, Luanda encontrou alternativas para permitir a manutenção dos níveis competitivos dos atletas. Os clubes ganham rotatividade nas competições da Taça da Liga. A Taça da Liga é uma competição realizada semanalmente, organizada pelo Clube de Judo do Terra Nova em colaboração com Edivaldo Patrício, treinador da Escola de Judo do Marçal. O evento desportivo ajuda bastante os judocas da capital do país a ganharem maior traquejo e rotatividade competitiva. Carlos Correia desabafou que enfrenta inúmeras dificuldades para realizar a prova todos os sábados. Os custos são altos, mas conta com apoio e ajuda de amigos e colegas de trabalho.

 “Não podemos permitir que os atletas treinem durante muito tempo e não são colocados a competir. O defeso das competições também cansa e é necessário que haja duelos entre as equipas para que estejam bem rodados nas competições provinciais e nacionais”, justificou. A realização da Taça da Liga, de acordo com Carlos Correia, só é possível, porque é um “homem teimoso” e pensa no “bem-estar” do judo. E as premiações que recebeu em reconhecimento do trabalho resultam na massificação e na rodagem dos atletas. No campeonato Nacional por Equipa, a Terra Nova arrecadou as medalhas de ouro, prata e bronze, conquistas semelhantes nos campeonatos provinciais, nacionais e na Taça de Angola. Apesar das dificuldades, o Clube de Judo do Marçal tem dois títulos nacionais na categoria dos juniores; é vice-campeão provincial e tem o terceiro lugar no campeonato nacional de juniores.
ROSA NAPOLEÃO