Jornal dos Desportos

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Reportagens

Lágrimas de conforto

Rosa Napoleão - 14 de Outubro, 2013

Choro e abraço marcou o reencontrou da bicampeã africana com a sua filha no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro em Luanda

Fotografia: Dombele Bernardo

Com o coração mais calmo e refeito da saudade, Sónia Guadalupe, atleta do 1º de Agosto, revelou que “não foi fácil” deixar a filha recém-nascida para se juntar ao grupo que revalidou o título de campeã africana na cidade de Maputo.

Sentada no cadeirão da sua sala, a menina de olhos castanhos extrai o que guarda da memória: “Devo confessar que não foi nada fácil deixar a minha filha que tinha acabado de nascer”.

Entre o desejo de ver os angolanos felizes e a experiência maternal, o nome da pátria soou mais alto. Sónia Guadalupe corre todos os riscos. “É a minha primeira experiência na maternidade e foi difícil interromper o vínculo, pois o treinador Aníbal Moreira fez-me a proposta quando a minha filha tinha apenas um mês de vida.”

A separação do laço entre a Sónia e a filha começa no país. A equipa técnica da Selecção Nacional escolhe a cidade de Benguela para criar as sinergias e definir as estratégias que levassem ao segundo título continental. O gosto de dar de mamar é interrompido e a saudade de tocar a filha rói de leve na alma da basquetebolista. O país entrelaçou a alma. O choro e a saudade confundem-se na vitória final. “Nesta altura, a minha filha tinha dois meses.” Valor de amor à pátria.

O sacrifício da “atleta mãe” durante algumas semanas em Benguela foi compensado pela boa camaradagem do grupo. Em ambiente “familiar”, Sónia Guadalupe enquadrou-se na selecção sénior feminina e determinada a elevar as cores da Bandeira Nacional ao pódio.

De regresso a Luanda, o primeiro contacto com a filha foi emocionante. A saudade diluía a cada segundo em que permaneceu quietinha nos seus braços. O afago da família e do esposo desanuviaram a pressão emocional.

A cada treino, a responsabilidade na selecção tomava o lugar da filha. Na hora da despedida, para Espanha, o amor falou alto. Era o país. Mas foi sol de pouca dura. O momento mais difícil durou 45 dias, quando esteve a estagiar em Espanha.

“Tive maior dificuldade durante o tempo que permanecemos em Espanha a treinar; foi duro, muita saudade; sempre que ligasse ao país, ouvia a voz dela a chorar e ficava toda comovida”, lembra-se.

Na alma de Sónia Guadalupe, a voz de mãe ecoava alto. “Desejava abraçá-la, mas não podia.” A separação de milhares de quilómetros era a principal barreira. Sem alternativa para superar a vontade, buscou o conforto nas conversas amenas com as colegas e nos choros silenciosos na cama. Coração abalado.

O estágio chega ao fim e consequentemente o regresso a Luanda. Durante os dois dias úteis de dispensa, antes da viagem para Maputo, Sónia Guadalupe confessa o que lhe passou na alma: “Nesse período nem sequer quis revê-la (a filha) para não sofrer ainda mais, pois teríamos de ficar mais uma semana fora de Angola, a competir.”

A saudade já era grande, mas a extremo do 1º de Agosto estava consciente da sua atitude.
“Foi uma experiência muito difícil para mim e para a minha filha. Arrisquei-me muito ao sair para competir com pouco tempo de repouso pós-parto e para ela porque teve de ficar sem o meu calor nos seus primeiros meses de vida”, realçou. 


COMPORTAMENTO
“Saudade influencia no desempenho”


Sónia Guadalupe acredita que a saudade faz com que os atletas tenham um desempenho melhor durante as competições em que estejam envolvidos.

“A nossa selecção enfrentou grandes desafios; foram jogos difíceis, mas mantivemos a nossa fé e sabíamos que tínhamos de vencer. Particularmente, acredito que o sacrifício que fizemos ao deixar os nossos filhos, irmãos, pai, mãe, enfim toda a nossa família, e ir para longe representar o país, deu-nos forças para competir com mais garra”, revela.
Sónia Guadalupe descreve a própria experiência vivida em Maputo.

“Senti isso, porque sempre que me sentisse fraca, pensava na minha filha e isso dava-me forças para jogar mais e mais. Dizia comigo mesma: ‘não posso regressar a Angola com uma derrota, não pode ser em vão o meu sacrifício’”, realçou.

Com a auto-estima em alta e conjunto homogéneo, Sónia Guadalupe pôde vibrar no final da competição.

“Felizmente conseguimos o troféu e é gratificante; valeu a pena todo o sacrifício que fizemos”, disse com sorriso nos lábios.
A atleta referiu que a sua irmã Crisoura Guadalupe considerou a vitória da Selecção Nacional como o prémio que Deus ofertou a todos quantos se sacrificaram para a competição.
“A minha irmã ficou feliz e disse-me que valeu o sacrifício”, referiu.

Crisoura Guadalupe é irmã mais velha de Sónia Guadalupe e ajudou Dona Esperança Manuel Sebastião a cuidar da primogénita da bi-campeã durante o Campeonato Africano das Nações.

Em conversa com o Jornal dos Desportos, Crisoura Guadalupe disse que foi um prazer ajudar a cuidar da pequena Edna.
“A Ednazinha é uma criança adorável; não dá trabalho algum, porque está sempre muito quieta, chora pouco e basta mamar o biberon para se manter calada; não chateia; comportou-se lindamente durante o tempo em que a mãe dela ficou fora de casa”, elogiou a tia.

À FILHA
“Não pude dar a primeira papinha”


Sónia Guadalupe lamentou o facto de não ter sido ela a primeira a dar papinha à filha Edna Raquel Guadalupe Daniel.
“Sinto muito não ter participado nos primeiros momentos de vida da minha menina. É sonho de toda a mãe planear o momento em que o seu bebé vai começar a ingerir alimentos, para além do leite”, disse.
A sorte da filha foi transferida para a mulher que sempre a tratou desde a tenra idade.

“Entreguei esta responsabilidade à minha mãe que me substituiu como mãe dela”, frisou.
Enquanto Sónia Guadalupe esteve ao serviço da Selecção Nacional de basquetebol, Dona Esperança Manuel Sebastião tirou do baú toda a experiência para cuidar da neta. “Sem a minha mãe, não sei o que seria de mim. Devo tudo à minha mãe”, relata com sentimento de culpa.

Uma culpa que afectava a relação entre ela e a Edna Daniel. “A minha filha já não me reconhecia, fugia-me e só calava no colo da minha mãe com quem estava habituada”, disse.
A sorte persegue os audazes, diz o ditado popular. A saudade de Sónia Guadalupe foi compensada pelo bom comportamento da sua primogénita.  

“O que me facilitou bastante foi o facto da minha filha não ter aceitado mamar o peito; está acostumada ao biberon desde muito cedo”, assegura.
Sónia Guadalupe elogia o marido por ter sido bastante compreensivo na altura de se ausentar para as competições internacionais.

“Felizmente, não tenho de que me queixar em relação ao meu marido, o Edson Daniel. Somos muito amigos e procuramos entender-nos em tudo o que fazemos; pois também é atleta de basquetebol e integra a equipa do 1º de Agosto”, frisou.

O sucesso da carreira desportiva e da família está pendente na boa relação existente dentro das quatro paredes.
“Se Edson Daniel não fosse do mundo do desporto, jamais consentia as minhas saídas para o exterior deixando a bebé”, disse. 
A atleta de ouro acrescentou que o marido tem sido o seu maior impulsionador nas competições internacionais.

“Muitas vezes, quando estava triste, desanimada pela saudade que sentia da minha filha, ligava a chorar, e o Edson acalmava-me, dizia-me que tudo estava bem, que podia jogar descansada”, disse.

O afecto, abraço, companheirismo e cumplicidade do marido “foi essencial na vitória final”, pois “o sacrifício de deixarmos os nossos filhos não podia ser em vão”.