Jornal dos Desportos

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Reportagens

Laurindo clama por apoios

Morais Canâmua - 09 de Julho, 2015

Antigo internacional pede a quem de direito para o ajudar a sair da fase em que se encontra

Fotografia: Jornal dos desportos

Eduardo Laurindo da Silva, aos 70 anos, está reformado. Recorda com nostalgia toda a  trajectória e evidencia um elevado sentimento de dever cumprido. Porém, julga-se ainda apto para incentivar a juventude na prática do desporto, em geral, do futebol em particular.Infelizmente, sente que a recompensa pelo que  fez em relação ao futebol, dentro e fora do País, não é proporcional.

Confinado no bairro do Camazingo, na cidade do Lubango, Laurindo e a esposa Maria Emília, igualmente reformada, vivem de forma misteriosa numa casa, que ainda não ruiu, porque os santos  de Deus têm protegido o “monstro sagrado” do futebol.“A vida é muito dura para nós. Vivemos aqui em péssimas condições, sem ninguém se lembrar dos antigos feitos. Vivemos por milagre nesta reles casa (…)” conseguiu desabafar Laurindo, com uma lágrima no canto do olho.Por fim, apelou à ajuda das autoridades de direito no sentido de “nos proporcionarem melhores condições de vida”, interrogou-se: “Será que também não mereço?”

Regresso à pátria
  Em 1976, regressa a Angola, integrado na caravana “Havemos de Voltar” conjuntamente com outros futebolistas, que na altura  evoluíam na diáspora, como Domingos Inguila, João Machado, Benje, dentre outros.Disposto a ajudar o  País que acabara de proclamar a Independência Nacional, Laurindo fez parte das primeiras Selecções convocadas para defrontar a sua congénere de Cuba, juntamente com Joaquim Diniz, Chico Lopes, Mateus César, Praia, Salviano, Napoleão, Jaime Chimalanga (seu irmão), entre outros. Nos anos que se seguiram, actuou pelo Futebol Clube de Luanda.

Pela Selecção Nacional, Laurindo efectuou o  último jogo, em Julho de 1978, diante de São Tomé e Príncipe, na capital daquele País com vitória de Angola por 0-2. Neste mesmo ano, já com 34 anos, decidiu pendurar as botas. Nos primeiros anos da década de 1980, sentiu que tinha cumprido com o seu dever. Abraçou a carreira de treinador. Beneficiou de um curso na República da Bulgária.

No seu regresso, em 1981, foi convidado a treinar o “mítico” Progresso Associação do Sambizanga, na estreia desse clube no Girabola, em que alcançou o quarto lugar com 30 pontos.

Assumiu um novo desafio com determinação e estoicismo ao qual colocou todo o seu saber e experiência de longos anos acumulados nas lides futebolísticas. Treinou outros emblemas como: Mambrôa, Ferroviário e Petro, todos  do Huambo, Sagrada Esperança da Lunda Norte, Benfica do Lubango e Sporting do Lubango.

Na verdade, o “monstro sagrado” do Belenenses de Portugal de outros tempos e que elevou a auto-estima dos angolanos, vive momentos difíceis da sua vida e que se torna urgente sanar….
Laurindo, quem te viu e quem te vê!....


PERCURSO INVEJÁVEL
Referência obrigatória do futebol nacional


Eduardo Laurindo da Silva, ou simplesmente Laurindo, é uma figura incontornável na história do nosso futebol. Nasceu a 30 de Setembro de 1944, no município do Kunje, Província do Bié, bem no coração de Angola.Com um percurso invejável, Laurindo notabilizou-se no mundo do futebol, primeiro na sua terra natal, concretamente, no Futebol Clube do Kunje, com 15 anos em 1959, como júnior. Depois, rumou para o Grupo Recreativo do Voga (hoje Cunhinga) ainda como júnior e depois já na categoria de seniores, no Vitória Atlético Clube do Bié, no início da década de 1960.

Entretanto, foi a  mãe quem o ensinou a arte de jogar futebol. “Naquela altura, a minha mãe era professora e era uma espécie de “Maria -rapaz”. Ela ensinou-me a jogar com os dois pés”, conta Eduardo Laurindo com muita nostalgia.Muitos são  os factos relevantes da carreira de Eduardo Laurindo, a justificarem os  dotes de vedeta. Consta, que por alturas de 1965, enquanto jogador do Vitória Atlético Clube do Bié, foi incorporado nas Forças Armadas e transferido para a Companhia de Cavalaria denominada “Dragões”, no Moxico. Para poder jogar, dada a sua grande influência na equipa, uma avioneta alugada pelo clube,  ia buscá-lo todas as sextas-feiras ao Luena, fazia o jogo e retornava à Companhia na manhã de segunda-feira.

Por tudo isso, pelos seus verdadeiros dotes de craque, foi aberta a porta a Laurindo  para o profissionalismo, na então metrópole, pelas mãos do padrinho. Primeiro surgiu  o interesse do Sporting de Portugal, que manifestava a intenção de contratar o então defesa direito do ASA, Justino Fernandes. Depois, veio o interesse do Real Madrid e do Barcelona, mas foi aconselhado, de pronto, pelo Dr.Gouveia, Juíz Desembargador, que recomendou calma e começar em clubes de menor dimensão e  subir gradualmente.

FC DO PORTO
Jogou durante três temporadas


Aos 23 anos, em 1967, o Clube da Cruz de Cristo,  foi o destino do jovem prodígio. No Belenenses, chegou, viu e venceu. Durante cinco épocas, deleitou adeptos e fãs nos relvados de Portugal e da Europa. As principais potencialidades eram os dribles estonteantes, rapidez, velocidade e boa qualidade de passe. Tanto jogava a extremo direito, como a extremo esquerdo.

O Futebol Clube do Porto foi o destino a seguir. Devido às suas valiosas prestações com a camisola dos  Belenenses Futebol Clube, em 1972, Laurindo foi contratado para as Antas onde jogou três épocas, ao lado de grandes nomes do futebol português da época, como Oliveira, Fernando Gomes, entre outros. Depois de terminar o contrato com os portistas da cidade invicta, Eduardo Laurindo vestiu a camisola do Beira-Mar Futebol Clube.