Jornal dos Desportos

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Reportagens

Lobitangas apreensivos com Palancas

Júlio Gaiano, no Lobito - 10 de Setembro, 2010

Campanha da Selecção Nacional estremece lobitangas

Fotografia: Jornal dos Desportos

O clima no seio dos amantes do desporto-rei no Lobito é de aflição. Há quem defenda a reestruturação da actual direcção da Federação Angolana de Futebol, liderado por Justino Fernandes. Interlocutores contactados pelo Jornal dos Desportos apontam o sacrifício de pessoas que há muito vêm provando incapacidade para os cargos a si confiados como uma das saídas para melhorar o futebol.

Colocar homens certos nos lugares certos de forma a devolver aos angolanos a alegria e a glória perdidas, resultante dos constantes deslizes nas competições internacionais, são os incessantes clamores que se ouvem em terras do flamingo. Os adeptos do futebol apelam à mudança de comportamento dos dirigentes federativos para com as selecções nacionais. Depois da derrota de 0-3 diante do Uganda, em Kampala, foi visível o descontentamento dos lobitangas.

Nos bares, restaurantes e outros locais de concentração pública era evidente a tristeza no rosto dos adeptos. Ninguém quis acreditar no que aconteceu. A derrota de Angola era um facto consumado e restava aos apoiantes a consolação com um refresco servido na hora. Na verdade, a derrota fora de portas não constituía problema. A questão em causa era o modelo de jogo e o posicionamento táctico apresentados em pleno Estádio Nelson Mandela pelos comandados de Hervè Renard.

Parecia uma selecção desmotivada, sem brio nem chama. Atacaram mal e defenderam pior, do que resultaram os três golos sofridos, contra nenhum de resposta. Pura humilhação… Mais uma vez, os Palancas Negras foram impotentes para travar o voo dos “grous” (Cranes) ugandeses. O futebol angolano foi vulgarizado em Kampala, diante de milhares de adeptos locais, que afluíram em massa ao estádio. Resta aos angolanos uma dose de esperança. Há quem diga que nada está perdido. Os mais optimistas afirmam que a campanha é longa e muita coisa pode acontecer a favor dos Palancas Negras e do futebol nacional.

FAF deve pedir
perdão ao País
A crise é de tal ordem que já não dá para disfarçar. As selecções nacionais há muito perderam o hábito de ganhar. E, pelo que se constata, as derrotas passaram a fazer parte do convívio dos angolanos. Tornou-se comum a cada angolano festejar as vitórias morais, como: “perdemos, mas a equipa bateu-se bem”; ou ainda: “a equipa está a melhorar”. O pior é que, até os próprios técnicos se acomodam com os resultados. Logo, há que responsabilizar os culpados pelos repetidos fracassos das selecções nacionais, isto é, desde as honras às de formação.

“Gasta-se muito dinheiro e os resultados tardam a chegar. Que pecado cometemos para merecermos tamanho castigo?”, questionam os adeptos que acrescentam que o presidente da Federação Angolana de Futebol (FAF), Justino Fernandes, e colaboradores deviam explicar ao público as razões que estão na base dos resultados negativos das selecções nacionais nas distintas frentes internacionais.

O pedido de desculpa à população angolana, defendido por alguns apoiantes do futebol nacional, é o mínimo que os lobitangas exigem do homem forte da FAF, ou que se admita culpado e apresente a demissão do cargo e proponha à Mesa da Assembleia-geral a convocação de uma reunião extraordinária para a eleição de uma nova direcção capaz de levar avante os propósitos legais do futebol angolano.

“Ou apontam culpados ou desistem do cargo que ocupam e dêem lugar a outros que podem fazer mais em prol do nosso futebol”, sugeriu Amadeu Kamaota, antigo atleta do Lusitano do Lobito.Na qualidade de dirigente máximo da FAF, disse Kamaota, Justino Fernandes e pares devem ser os primeiros a assumir a responsabilidade pelos maus resultados das selecções nacionais nos últimos tempos.

Associados remetidos ao silêncio

A situação reflectida nos maus resultados das selecções nacionais ganhou contornos preocupantes, o que remeteu ao silêncio a maior parte dos dirigentes afectos à Associação Provincial de Futebol (APF) e clubes filiados. Os dirigentes contactados negaram-se a prestar declarações sobre a crise de resultados no futebol, evocando questões de ética para evitarem contradições com superiores hierárquicos das instituições que representam.

“Desculpe, não me perguntes nadas porque não estou autorizado a falar sobre esse assunto aos órgãos de comunicação social. Há locais próprios para o efeito, por isso, não quero ter problemas com ninguém. O nosso futebol vai de mal a pior, reconheço, mas não será por essa via que resolveremos a situação que a todos nós preocupa”, justificou um dos responsáveis afectos à APF de Benguela.

O dirigente associativo, que falou na condição de anonimato, opinou que cabe a alguém de direito tomar medidas e ditar as regras na casa, caso contrário, corremos o risco de ficar de fora do Campeonato Africano das Nações de 2012, “o que será uma vergonha para quem, antes, organizou uma prova do género”.

João Pintar defende união
em prol do futebol nacional

Apesar de reconhecer que o futebol nacional está a atravessar momentos críticos, em termos de resultados nas distintas competições internacionais, o técnico de futebol João Pintar da Silva, apelou à união de todos os amantes da modalidade e do desporto no país. O treinador angolano afirmou que, em situações como esta, em vez de se apontarem culpados, devíamos procurar soluções para os problemas, que afectam a todos.

“Este não é o momento de se atirar culpas a quem quer que seja. Culpados somos todos nós e, logo, cabe a todos, procurar formas para salvar o que achámos estar a caminhar mal. Atirar as culpas a pessoas que já foram alvos de fortes louvores no passado, é no mínimo sermos ingratos para connosco mesmos. Temos de nos unir e resolver o problema que, aos poucos, se torna bicudo”, frisou o jovem treinador.

João Pintar da Silva foi mais longe, ao lembrar que a crise de resultados é o reflexo do que se executa internamente nos clubes, pelo que, em momento algum, faria sentido ignorar tal facto. O afastamento precoce das equipas nacionais nas Afrotaças explica tudo.

Falsas acusações 

Visivelmente aborrecido com a ocorrência dos factos, João Pintar defende que o problema reinante no futebol nacional deve ser encarado com profundidade, para se encontrarem as causas e, de forma sábia e inteligente, se ataquem os efeitos. “Acusar por acusar é como atacar no escuro, onde o alvo a atingir é aquele que mais aparece. Por isso, há que se ter muito cuidado quando ousamos culpabilizar pessoas sobre isto ou aquilo”, disse.

João Pintar também defende que se convoque uma reunião alargada, na qual, de forma aberta e transparente, os participantes apontem os possíveis erros que enfermam o futebol angolano e se indiquem as soluções. “Pode não ser determinante para o que desejamos, mas acredito que ajudaria muito a encontrar as fórmulas para a solução da crise de resultados que nos últimos tempos marca pela negativa o futebol nacional”, concluiu.

Outras pessoas abordadas sobre o assunto defendem que tal encontro devia reunir todas as individualidades ligadas ao desporto e que se interessam pelo desenvolvimento do futebol nacional. Assim sendo, congregar todas as forças vivas do desporto nacional num encontro onde todos possam opinar e propor soluções, é o que os lobitangas desejam para o efeito.

Equipa técnica
precisa de reforço

A liderança da equipa técnica da Selecção Nacional de futebol sénior masculino é um dos pontos mais debatidos pelos amantes da bola em terras lobitangas. O francês Hervè Renard e colaboradores directos merecem, da maioria, o benefício da dúvida, dado o pouco tempo em que estão ao serviço dos Palancas Negras. Mesmo assim, há quem defenda que a equipa técnica devia ser reforçada por um psicólogo especializado.

As pessoas contactadas para a avaliação do trabalho desenvolvido pelo substituto do português Manuel José à frente do combinado nacional asseguraram que o grupo carece de um trabalho profundo em termos psicológicos para voltar a ganhar confiança dentro das quatro linhas.

“Temos um plantel forte e capaz de fazer frente a qualquer selecção do mundo, mas algo me diz que o problema reside na falta de motivação no seio do colectivo e isso passaria pela contratação de um psicólogo de renome, que possa desenvolver tal actividade junto dos atletas que, a cada jogo, mostram fragilidades em termos emocionais”, explicou o professor de Educação Física José Martins Caculo.

Hervè Renard deve igualar
feito de Oliveira Gonçalves

O novo “pastor” dos Palancas Negras está em funções desde Abril último. No momento da apresentação aos órgãos de comunicação social (a 7 de Abril de 2010), Justino Fernandes havia assegurado que com a contratação de Hervè Renard, a direcção da FAF pretende acabar com trabalhos imediatistas e apostar no trabalho de profundidade, tendo as atenções viradas, também, para os escalões de formação, designadamente os Sub-23, Sub-20, Sub-17 e Sub-15, como suporte da Selecção principal.

Ciente das dificuldades, o presidente da FAF convidou todos os dirigentes desportivos ligados às associações provinciais e clubes, bem como a imprensa, a juntar-se na empreitada, adiantando que a contratação do francês para o comando técnico da Selecção Nacional de Honras visava ocupar-se da reestruturação de todo o futebol angolano.

A última vez que o futebol angolano esteve na ribalta, aconteceu na fase da campanha para o Mundial da Alemanha de 2006. Na referida empreitada, a Selecção Nacional, comandada por Oliveira Gonçalves, superou as similares da Nigéria, Argélia e Ruanda, no Grupo D. Para surpresa do mundo futebolístico, na Alemanha, os Palancas Negras desbobinaram um futebol de encher os olhos.

Apesar de não terem ganhado qualquer partida, os pupilos de Oliveira Gonçalves jogaram de igual para igual com os adversários, o que provocou admiração e respeito entre os críticos do futebol internacional. A Selecção Nacional perdeu para Portugal por 0 a 1 e empatou os dois outros dois jogos, com o México (0-09 e Irão (1-1). O único golo angolano foi de cabeça e rubricado por Flávio Amado.

O que difere Renard de José

Manuel José substituiu Luís de Oliveira Gonçalves, depois do fracasso do angolano na campanha para o Mundial da África do Sul. Num claro desprezo por um povo que o acolheu, o treinador português caracterizou os futebolistas angolanos como produtos da guerra civil. A prestação de Angola na Taça Africana Orange-Angola’2010, realizada de 10 a 31 de Janeiro de 2010, foi um fracasso, apesar de ter chegado aos quartos-de-final.

Agora, é a vez de Hervè Renard. Desde que assumiu o cargo, o francês apenas somou derrotas em confrontos directos com outras selecções e empatou com equipas de clubes menos cotados dos respectivos campeonatos. Recentemente, empatou a dois golos com um “misto” da Huíla, formado por atletas do Benfica Petróleos do Lubango e do Desportivo da Huíla, duas formações que se encontram no fundo da tabela classificativa do Girabola’2010.

Ainda assim, é preciso dar tempo ao tempo para se tirar as devidas conclusões. Até porque o francês parece diferente do português, tanto no comportamento como no carácter. Os dois diferem em muitas coisas, daí o benefício da dúvida ao actual técnico dos Palancas Negras.